sábado, 23 de janeiro de 2010

HABEAS PINHO – Ronaldo Cunha Lima


HABEAS PINHO – Ronaldo Cunha Lima


Em 1955 em Campina Grande, na Paraíba, um grupo de boêmios fazia serenata numa madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu o violão. Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, então recentemente saído da Faculdade e que também apreciava uma boa seresta. Ele peticionou em Juízo, para que fosse liberado o violão.

Aquele pedido ficou conhecido como "Habeas Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praias no Nordeste.

Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima foi eleito Deputado Estadual, Prefeito de Campina Grande, Senador da República, Governador do Estado e Deputado Federal.


Eis a famosa petição.


HABEAS PINHO


Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca :

O instrumento do crime que se arrola

Neste processo de contravenção

Não é faca, revólver nem pistola.


É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade

Não matou nem feriu um cidadão.

Feriu, sim, a sensibilidade


De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,

Instrumento de amor e de saudade.

Ao crime ele nunca se mistura.


Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,

Dos menestréis de alma enternecida

Que cantam as mágoas e que povoam a vida


Sufocando suas próprias dores.

O violão é música e é canção,

É sentimento de vida e alegria,

É pureza e néctar que extasia,


É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,

Porém seu destino se perpétua.

Ele nasceu para cantar na rua


E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo pelo Amor da noite

Que se sente vazia em suas horas,

Para que volte a sentir o terno açoite


De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito.

É crime, porventura, o infeliz,


cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,

Será delito de tão vis horrores,

perambular na rua um desgraçado


derramando na rua as suas dôres?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,

Na certeza do seu acolhimento.

Juntando esta petição aos autos nós pedimos

e pedimos também DEFERIMENTO.


Ronaldo Cunha Lima, advogado.



O juiz Arthur Moura sem perder o ponto deu a sentença no mesmo tom:


"Para que eu não carregue

Muito remorso no coração,

Determino que seja entregue,

Ao seu dono, o malfadado violão!“


Ronaldo Cunha Lima - Ex- Prefeito de Campina Grande-PB; Ex-Governador do Estado da Paraíba; Membro do Pen Clube do Brasil; Membro da Academia Paraibana de Letras; Senador da República; Deputado Federal e Secretário de Governo.

"Ronaldo Cunha Lima é um poeta por essência da paixão medida. Ele nos traz, em sua poesia, uma visão do amor se alongando em canto libertário" EDILBERTO COUTINHO

" Ronaldo Cunha Lima realiza uma obra que transcende ao circunstancial para inserir-se, definitivamente, no corpus da melhor literatura brasileira. Livre pensador, é um guia experimentado, calejado nas lides desta Terra. É uma generosa fonte de hipóteses de trabalho para o mundo de pendências que o homem moderno acumulou e para as quais desesperadamente busca soluções. É uma baliza, um farol nesse instante cósmico da curva da evolução, onde se acentuam paradoxos. É, enfim, daquelas figuras humanas que um coração verdadeiramente desperto só tem a agradecer aos deuses por ter um dia conhecido". VALMIR CAMPELO - Senador


CANSADO DE SOFRER DO MAL DE AMOR


Cansado de sofrer do mal de amor
procurei proteger meu coração
e comecei a grande construção
da minha fortaleza interior.

Fiz vigas de concreto contra a dor,
revesti as paredes de razão,
portas, janelas, piso, elevador,
tudo impermeável à emoção.

Como não tem no mundo quem não falhe,
esqueci, entretanto, de um detalhe,
e meu trabalho não ficou completo.

Meu coração, em paz, adormecido,
acordou, de repente, com um ruído:
Era a saudade entrando pelo teto.


É BEM MELHOR A GENTE NÃO SE VER


É bem melhor a gente não se ver.
A distância elimina cicatrizes
do amor que morre, mas que tem raízes,
que com o tempo também irão morrer.

O melhor que se faz é entender
que distantes seremos mais felizes.
Eu nunca saberei o que tu dizes
e o que eu digo jamais irás saber.

Bem mais tarde - quem sabe - eu já velhinho,
a gente ainda se encontre no caminho
coberto de lembranças que guardei,

e tu possas, sem mágoas, sem desgosto,
presentear-me um beijo no meu rosto,
dizendo bem baixinho - "JÁ TE AMEI".


DE SUAS MÃOS GUARDEI AQUELE ACENO


De suas mãos guardei aquele aceno
e do gesto tirei muitas lições.
A verdade de todos os silêncios
e a mentira de muitas confissões.

Das frases eu guardei umas palavras,
das palavras guardei todos os sons.
Um eco renovado aos meus ouvidos,
para lembrança dos momentos bons.

Do seu rosto guardei o seu sorriso
e do riso guardei as ironias,
mas da boca guardei os beijos seus.

Dos seus olhos guardei o seu olhar,
inseguro, indeciso, a duvidar
do próprio instante em que me disse adeus.


HAVEREI DE TE AMAR A VIDA INTEIRA


Haverei de te amar a vida inteira
Mesmo unilateral o bem querer,
é forma diferente de se ter,
sem nada se exigir da companheira.

Haverei de te amar a vida inteira,
(não precisa aceitar, basta saber),
pois amor que faz bem e dá prazer
a gente vive de qualquer maneira.

Eu viverei de sonhos e utopias,
realizando as minhas fantasias,
tornando cada qual mais verdadeira.

Eu te farei presente em meus instantes.
Supondo que seremos sempre amantes,
haverei de te amar a vida inteira.


O MEDO E A FALTA


Você me traz medo,
você me faz falta.

A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.

A falta, com o medo, sobressalta.

Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,

você é o medo que me falta.


NÃO MALDIGO OS VERSOS QUE LHE FIZ


Não maldigo os versos que lhe fiz,
embora não devesse tê-los feito.
São versos que nasceram do meu peito,
mas frutos de um amor muito infeliz.

São versos que guardam o que não quis
guardar daquele nosso amor desfeito.
Relendo-os sofro, e sofrendo aceito
o que o destino fez como juiz.

Não os maldigo, não. Não os maldigo.
Vou guardá-los em mim como castigo,
para no amor eu escolher direito.

Só porque nesse amor não fui feliz,
não maldigo os versos que lhe fiz,
embora não devesse tê-los feito.


O QUE VAI FICAR

Não importa
que da despedida não fique nada.

Bastam as outras coisas
que já vão ficar:

Do muito que nos vimos,
pelo menos um olhar
há de ficar.

De tudo o que dissemos,
pelo menos uma palavra
vai ficar.

Do quanto nós fizemos,
pelo menos um gesto
vai ficar.

Do quanto nós fizemos,
pelo menos um pouco de amor
há de ficar.

E pelo que vimos,
pelo que dissemos,
pelo que fizemos
e pelo que amamos,
pelo menos em lembrança
um no outro vai ficar.


QUERIA TE ODIAR, MAS NÃO CONSIGO

Queria te odiar, mas não consigo.
(O ódio que chega a mim vai logo embora)
Entre o amor de ontem e a dor de agora,
mais forte é o sentimento mais antigo.

Prefiro relembrar e ter comigo
as emoções que já vivi outrora.
E quero é que o amor a toda hora
encontre na minh'a alma o seu abrigo.

Odiar-te porque ? Por que negaste
uma história de amor que tu jurasse
eterna na constância e no prazer ?

Em nome do perdão que tudo faz,
e por querer, também, viver em paz,
em vez de te odiar, vou te esquecer.


http://www.fatoseletras.com.br/poetaronaldoclima.html

4 comentários:

Anônimo disse...

a alma do nordestino recheada de amores que não deram certo é a essência dos poemas de Cunha Lima.

Anônimo disse...

Costumo declamar este poema nas nossas reuniões da União Brasileira de Trovadores (UBT), Seção de Salvador (BA), e gostaria de saber em qual livro de Ronaldo eu poderia encontrá-lo. Aguardo, por gentilez, resposta, pelo que agradeço. Novais Neto (novaisneto@tutopia.com.br)

Anônimo disse...

Queria melhor explicito a história da petição em verso, onde foi que aconteceu, os motivos, e mais detalhes se for possível!

Irason B Oliveira disse...

Gostaria de observar que a estrutura poética desse trabalho de Ronaldo Cunha Lima foi composta em estrofes de quatro versos, ou seja em trovas, portanto a primeira estrofe ficaria com a primeira linha da segunda e assim por diante, e a ultima não terminaria com cinco versos e sim quatro, observando a sequência de rimas existente em cada estrofe ficaria todas com a mesma quantidade.