quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Urbanização e vida urbana na Paraíba: da capital ao interior

Por Josias Faustino

Na Paraíba, observamos que o processo de urbanização e modernização das cidades, de alguma forma esteve ligado diretamente a oferta de serviços e desempenho da atividade comercial, facilitado ou não, pela melhoria dos meios de transporte e de comunicação. Os baixos percentuais da PEA ligadas as atividades industriais demonstram a insipiência desse setor na economia do Estado. Mesmo sabendo que os números mais recentes fornecidos pelo IBGE, no ano de 1998, demonstram uma expressiva taxa de crescimento no segmento industrial igual a 13,3%, a falta de incentivos mais estáveis e de uma infra-estrutura permanente não nos permite consolidar um processo de industrialização no sentido mais amplo do termo em discussão.
Na verdade, nossa industrialização é ilusória, servindo como demonstração apenas dos efeitos de modernização que doura a fachada do sistema, sem melhorar as condições de vida das massas populares. Baseia-se ela na importação de tecnologias e capitais do sul do país, sobretudo de São Paulo (MELO e RODRIGUES, 1993, p.166).
A industria, tal como, a urbanização surge em certas áreas com um certo atraso em relação a outros centros do país. Isso ocorre em decorrência da forte concentração de renda e da introversão das economias agrícolas tradicionais de exportação que mesmo assim de alguma forma contribuiu para o surgimento de duas das mais típicas comunidades industriais da Paraíba – Santa Rita e Rio Tinto. Enquanto Santa Rita, estação de repouso conforme vimos, para os tangerinos que demandavam a capital, perfilou-se industrialmente, a partir do estabelecimento, nas terras do antigo engenho, da Companhia de Tecidos Paraibana (Fábrica Tibirí). Rio Tinto surgiria em 1924 como comunidade industrial a partir do estabelecimento, nas várzeas do antigo engenho da Preguiça, da Companhia de tecidos Rio Tinto, do grupo (Casas Pernambucanas) Lundgren, que se fortaleceu extraordinariamente grilando as terras dos índios, devastando as matas vizinhas para as fornalhas da fiação (MELO, 1993, p.114) .

No final do Império, o governo interveio no sentido de beneficiar as oligarquias açucareiras no Nordeste, criando os chamados Engenhos Centrais que por diversos fatores não surtiu o efeito desejado, estes passaram a funcionar inclusive de forma inoperante. Diante do fracasso dos Engenhos Centrais o governo passou a investir nas usinas de açúcar. “Usina é um estabelecimento voltado para a produção de açúcar. Tratava-se de uma empresa fabril que exerce também a atividade agrícola. Ela surgiu apoiada pelo poder público, não constituído, portanto, um resultado espontâneo do setor açucareiro, mais uma das várias formas por ele encontrada para garantir a sobrevivência (MOREIRA e TARGINO, 1997, p. 58”).
Com o estabelecimento das usinas, os antigos engenhos passaram a condição de fornecedores de cana às usinas. A primeira usina paraibana foi a Usina Santa Rita. Instalada em Santa Rita, ela foi comprada e 1922 por Flavio Ribeiro Coutinho responsável pela mudança do seu nome. No setor fabril do processamento da cana, utiliza-se o trabalho assalariado, exigindo inclusive a presença de mão-de-obra especializada em algumas funções. No campo, no entanto, as relações de produção continuavam atrasadas, pois, as usinas agravaram a concentração de terra e mantiveram a produção monocultora no meio rural. As usinas inauguram a chegada do capitalismo industrial à Paraíba. Que mediante esses estímulos, o próprio algodão também passará a nova fase de processamento dentro de suas fronteiras. Conforme destaca José Otávio de Arruda Melo: Isso implicou no surgimento de fábricas de fiação e tecelagem. À Companhia de Tecidos Paraibana que, desde o século passado, funcionava em Santa Rita, adicionou-se a Fábrica de Tecidos Bodocongó, em campina Grande e a então Companhia Rio Tinto no então distrito desse nome. Essa última, de responsabilidade do grupo Lundgren, que manteve empresa do mesmo tipo, em paulista nas vizinhanças do recife, representou iniciativa de monta.(MELO, 1977, p. 167).

Vale apenas ressaltar, que a cidade de João Pessoa, em comparação com a de Campina Grande, crescia num ritmo menor, até a década de cinqüenta, chegando mesmo a apresentar sinais de estagnação, pois, enquanto Campina Grande desenvolvia, com extraordinária rapidez, o comércio e a indústria, através dos curtumes, artefatos de couro, óleo de algodão, mineral não metálico. “João Pessoa ia aos poucos, perdendo lugar na concorrência pela primazia urbana do Estado, fortalecendo um distanciamento entre suas funções políticas e econômicas” (SILVA e ARAÚJO, p.19, 1985).

No entanto, nas últimas décadas a cidade de João pessoa consegue obter um melhor nível de desenvolvimento, pois, sendo a capital do Estado, os incentivos por parte do governo de Estado foram incrementados, provocando então uma melhoria na qualidade dos serviços urbanos, acompanhado de uma política de industrialização, propiciando uma superação de João Pessoa no quadro das cidades paraibanas, o que amplia e garante o seu crescimento como influente centro urbano.
A modernização da Paraíba teve grande impulso no governo de João Machado, que realizou uma das melhores administrações da República Velha, construiu o primeiro serviço de abastecimento de água e implantou na cidade o moderno sistema de rede elétrica. “João Machado abre a avenida que veio a tomar seu nome, pavimenta ruas do centro, instala a iluminação e o bonde elétrico, o Serviço de Higiene e coroando todas essas obras, dá a João Pessoa o seu abastecimento de água de beber, desperta o pessoense para o gosto de aguar. Era o governo de um lado inovando e construindo, e a comunidade do outro, regando os seus jardins. Nascia a vocação da cidade, que é a de ser urbs e bosques.(MELO e RODRIGUES, 1993, p.190)”.

O surto algodoeiro dos anos 20, traz consigo algumas novidades, os trustes algodoeiros SAMBRA e Anderson Clayton apareceram em cena. O algodão gerava fortunas e riquezas. Tudo isso gerou um novo surto de urbanização do qual se beneficiou a capital. Conforme observa o historiador José Otávio de Arruda Melo: Nesta, o governo Camilo de Holanda (1916-1920), favorecido pelas arrecadações algodoeiras do final da guerra, empreendeu uma revolução urbanística, à base de praças e jardins, abertura de novas avenidas, coretos, edifícios, belvederes e construção de balaustrada de trincheiras que canalizou o crescimento da capital para o Bairro de Cruz das Armas (MELO, 1997, p.168).

Durante o governo de Camilo de Holanda (1916-1920), ocorreu na capital, uma pequena revolução urbanística que começou a modificar o aspecto colonial da cidade. O novo governo, atraindo gente nova, arquitetos mais modernos, os Fiorilos, Di Lascio, Olavo Freire e Clodoaldo Gouveia, introduziram em diversos trechos da cidade, os elementos decorativos da art nouveau, com seus jardins naturais e escadas frontais. Nesse ritmo, João Pessoa embelezava-se, ganhava jardins, calçamentos, edifícios, praças e novas avenidas eram abertas.
Sucedendo Camilo de Holanda no governo, Sólon de Lucena (1920-1924) manteve o ritmo. Graças ao dinamismo do prefeito Guedes Pereira, que ficou conhecido como o “Pereira Passos da História da Capital“. Sendo assim, de 1910 a 1924, a capital vivenciou um momento de constante progresso, provocado pela a abertura de novos bairros, que hoje se estende para os lados de Tambaú. Transforma a antiga Lagoa, em parque público e promove a remoção de alguns dos aspectos coloniais da cidade que: Trazendo para o lugar de ruas e igrejas antigas, obras como a praça Vidal de negreiros, o Parque Arruda Câmara, Praça da Independência, Avenida Maximiliano de Figueiredo, além do avanço para o leste da antiga lagoa que ele mesmo transformou no parque Sólon de Lucena, uma das praças mais bonitas do mundo na admiração de Alceu Amoroso Lima. Isso não se fez sem prejuízo: o patrimônio histórico perde o testemunho arquitetônico das Mercês, hoje praça 1817, e da igreja do Rosário, no ponto do Cem Réis (MELO e RODRIGUES, 1993, p.190).
Na sua gestão, conforme o enunciado anterior, o então prefeito construiu o Parque Sólon de Lucena, desapropriando sítios e plantando arvores, em torno de todos os redutos do parque. Construiu o Parque Arruda Câmara, plantando muitas árvores e cercando-o com grandes gramados, trouxe aves e animais de espécies raras para o seu embelezamento. Arborizou diversos trechos da cidade, construiu lindas praças, passando a cidade desde este momento a ser conhecida como “Cidade Jardim”.
O núcleo da cidade ganha nova aparência, onde se contrastam dois estilos e planos bem distintos – o Varadouro e a Cidade Alta. O governo de João Pessoa não fez diferente, calçou o Ponto dos Cem Réis, ampliou o prédio do Tesouro e fez reformas no Palácio. E depois Argemiro de Figueiredo complementado a Lagoa, confiando a Clodoaldo Gouveia a arquitetura de seus projetos inovadores. A Epitácio Pessoa, que era a estrada de barro feita por João Pessoa, abre-se em avenida larga até o mar.
A região da Borborema ao interligar as áreas que constituem o litoral e o sertão paraibano, nos permite observar que desde os primeiros tempos da colonização no século XVI, a partir do litoral com suas fortificações e engenhos, se inicia o povoamento dessa zona canavieira. A conquista e a ocupação do sertão que somente ocorreria de forma mais evidente no final do século XVII, com a expansão da pecuária e da produção de algodão. A interligação entre essas duas áreas de colonização explica; O surto de urbanização aí verificado, na passagem da segunda metade do século XIX e início do Século XX, mediante a formação de cidades como Areia, Bananeiras, Alagoa Grande e, finalmente, Campina Grande. Esta, a partir da inauguração da via férrea, em 1907, tornar-se-ia o grande empório comercial-algodoeiro dos sertões nordestinos (SILVA e ARAÚJO, 1985, p.21).

Campina grande no começo do século XX converteu-se no mais importante centro urbano de todo o interior nordestino. O algodão, o comércio e a via ferroviária constituíram a base de seu progresso e desenvolvimento urbano. Desde 1907 comboieiros do sertão paraibano e Estados vizinhos passaram a procura-la, a fim de embarcar mercadorias. Rapidamente desenvolvida, a cidade assinalou a barragem do açude Bodocongó, em 1919, primeira prensa hidráulica no ano seguinte, inauguração da luz elétrica em 1920, agência do Banco do Brasil em 1923, instalação da primeira fábrica moderna e do mercado público em 1925 e início do tráfego de bondes a gasolina em 1926 (MELO, 1997, p.162).


Na segunda metade do século XIX, a cidade de Areia e Mamanguape destacava-se pelo seu razoável desenvolvimento urbano. Ambas dispunham de uma elite cultural, com elevado nível social. Onde se organizavam diversos momentos de lazer e diversão, com eventos e festas profanas e religiosas. As duas cidades se destacavam pela presença de igrejas, teatros, escolas, sociedades litero-recreativas, jornais etc., constituindo assim, um ordenado centro urbano. Nesse momento, Campina Grande ainda não se apresentava como grande centro urbano, dispondo simplesmente de um desordenado casario distribuído pelas ruas das imediações da feira de gado. No entanto, foi o trem que combinado ao telégrafo, reverteu essa situação, reduzindo drasticamente a importância dessas cidades. “Areia e Mamanguape declinaram até a condição de cidades mortas. Em Mamanguape, o comércio de estivas e miudezas desviou-se para Guarabira, favorecida pelas composições ferroviárias que por aí circulavam (MELO, p. 161, 1997)”.
Na passagem do século XIX para o século XX, o principal benefício à economia paraibana se fez notar pelo transporte ferroviário, que conjugado ao comércio fixaria importante função no fortalecimento e desenvolvimento de algumas cidades paraibanas, entre os anos de 1870 e 1920. Na Paraíba, a notável associação da estrada de ferro com o algodão, que dela se valeu para alcançar o porto de Recife, o que tornou Campina grande um ponto estratégico, consolidando a nova condição de empório revendedor de algodão. Partindo da capital, o primeiro trem correu em 1881, chegou a pilar em 1883, Guarabira em 1884 e Cabedelo em 1889. O historiador José Otávio de Arruda Melo comentando o assunto afirma: Itabaiana, Alagoa Grande e Bananeiras constituíra outros casos típicos. Na primeira o trem apoiou a feira de gado para acarretar a urbanização, pontilhada entre 1900 e 1920, de bondes, jornais, luz elétrica, clubes e artístico coreto, com vários desses equipamentos importados do Recife. Em Alagoa Grande saraus e recitais de canto realizavam-se no teatro Santa Inês. Por seu turno consorciando café e ferrovia.Bananeiras encheu-se de praças, sobrados, casarões. Patronato agrícola e obras de drenagem de seu riacho, além de revistas e jornais. Sua elite intelectual era uma das melhores do estado (MELO, 1997, p. 161-162).

Vale ainda, segundo o mesmo, ressaltar que: Pelo oeste, a ferrovia penetrou em território paraibano, no esquema das obras contra as secas e por intermédio da Rede Viação Cearense, Através de Antenor Navarro em 1923, com extensão a Sousa em 1926, e Pombal em 1932. de Antenor, ramal alcançou Cajazeiras, também por imposição de algodão em 1926 e chegaria a patos em 1944 (op. cit., 1997, p.160).
A Vila da Independência (atual Guarabira) foi bastante beneficiada com a introdução desse traçado ferroviário. A vila tornou-se importante entreposto comercial, contribuindo dessa maneira para o seu desenvolvimento urbano. Foi nesse clima de progresso e entusiasmo que a Vila da Independência foi elevada a categoria de cidade com o nome de Guarabira.

MOREIRA e TARGINO. Capítulos de Geografia Agrária da Paraíba. João Pessoa. Editora Universitáeia, 1997.

MELO, José Otávio de Arruda Melo. História da Paraíba: Lutas e Resistências. João Pessoa, Editora Universitária, 1997.

______. Guarabira: democracia, urbanismo e repressão 1945-1965. João Pessoa: União, 1997.

______. (org.) A Paraíba das origens à urbanização. João Pessoa, Editora Universitária, 1993.

OTÁVIO e RODRIGUES. (org.). Paraíba: conquista, patrimônio e povo. João Pessoa, Grafset, 1993.

MOREIRA e TARGINO. Capítulos de Geografia Agrária da Paraíba. João Pessoa. Editora Universitáeia, 1997.

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