quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Conquista do Interior da Paraíba

1 – Os primeiros momentos da interiorização

Durante o século XVI e início do século XVII, a ocupação do território paraibano, assim como em todo o Brasil, concentrou-se predominantemente no litoral.

Depois da invasão holandesa foi que começou a intensificar-se a conquista para o interior, pelas Missões de catequese, entradas e bandeiras. De uma maneira geral as causas para as entradas no Brasil foram as seguintes:

- busca de metais preciosos (ouro e prata);

- captura de índios para vende-los como escravos, uma vez que o negro se tornava uma peça muito cara;

- o espírito aventureiro de alguns portugueses que se sentiam atraídos pelo desconhecido e certos de que seriam recompensados;

- a possibilidade de obter sesmarias (terras não ocupadas que o rei concedia a quem quisesse desbravá-las e povoá-las à sua custa);

- o desenvolvimento da criação de gado.

Na Paraíba essas três últimas causas foram responsáveis pelo desbravamento do seu interior sendo a criação do gado a principal.

2 – As Missões de Catequese

As missões de catequese foram as primeiras formas de conquista do interior da Paraíba. Os missionários pregavam o cristianismo nas suas missões, alfabetizavam e ensinavam ofícios aos índios e construíam colégios para os colonos.

Em 1670 foi fundada por padre Martim de Nantes a Missão do Pilar. Esta missão deu origem à vila do Pilar.

Avançaram ainda mais os padres missionários pelas margens do rio Ingá. Chegaram em fim a um planalto com uma campina verde e um clima agradável. Organizaram neste local um segundo aldeamento de índios Cariris a quem deu o nome de Campina Grande.

Do ponto de vista da conquista do sertão da Paraíba, empreendida entre 1670 e 1730, as aldeias indígenas mais importantes foram aquelas dos Cariris, às margens do Paraíba, em Pilar e Boqueirão.

Descrita pelo missionário Martim de Nantes, que sobre elas produziu importante Relação, essas missões funcionaram como bases, a partir das quais os Oliveira Ledo alcançou o sertão.

3 – Francisco Dias D’Ávila e a Casa da Torre

A famosa Casa da Torre tinha sede na Bahia. Seu proprietário – o coronel Francisco Dias D’Ávila – estabeleceu, de início, os seus currais na Bahia. Depois suas fazendas se espalharam em torno do rio São Francisco e chegaram até o Piauí.

Era, como se vê, imenso território, a origem do sistema latifundiário que marcaria o sertão nordestino. Para adquirir suas imensas propriedades gastara apenas papel e tinta em requerimentos de sesmaria. Ao falecer, em 1695, legou o patrimônio da Casa da Torre à sua esposa, dona Leonor Pereira Marinho – como colonos, foreiros daquele potentado. Esses colonos eram arrendatários da Casa da Torre, já então sesmeira do vale do Piancó, Piranhas de Cima e Rio do Peixe. Só na ribeira desses rios, as propriedades de Dias D’Ávila ascendiam a vinte e oito.

Quando Antônio de Oliveira Ledo, cuja sesmaria se localizava atrás da de Vidal de negreiros, no vale do Paraíba, chegou a missão indígena Cariri de boqueirão, na serra do Carnoió, no curso médio daquele rio, em 1670, o Sertão da Capitania já se encontrava parcialmente ocupado pela Casa da Torre. Nesse sentido, a presença desta nos sertões paraibanos dataria de 1663. Os senhores da Torre foram os pioneiros na parte ocidental da nossa Capitania. Mas não se fixaram nessa região. Arrendaram ou doaram suas terras nas ribeiras dos rios Piancó, Peixe e Piranhas de Cima.

4 – Bandeirantes e os Oliveira Ledo, na Conquista do Sertão

Verificam-se, então, duas grandes linhas de penetração do sertão paraibano. Uma, longitudinal, isto é, do sul para o norte, partiu do Rio São Francisco e, através de afluente deste, penetrou a Paraíba, através da fronteira de Pernambuco. Percorreram-na bandeirantes paulistas, baianos e pernambucanos.

A essa corrente incorporou-se o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho que após esmagar o Quilombo dos Palmares, marchou sobre a Paraíba para fazer o mesmo com os índios da Confederação dos Cariris.

Os bandeirantes, todavia, não ocuparam a terra, no sentido de faze-la render, economicamente. Apenas a devassaram, sufocando, onde foi o caso, a resistência indígena.A ocupação produtiva, isto é, a colonização do sertão da Paraíba, coube, além dos colonos que seguiram os bandeirantes, à família Oliveira Ledo e os sesmeiros articulados a estes desbravadores. Esses dois últimos ingressaram nos sertões da Paraíba, latitudinalmente, isto é, no sentido horizontal, de leste para oeste, com a maioria operando por conta própria e alguns sob o patrocínio do governo. Os responsáveis por expedições denominadas entradas tornaram-se conhecidos como entradistas.

Os Oliveira Ledo, situados na origem de tantos municípios paraibanos, a partir de Campina Grande, e região do Cariri, tanto levaram para o interior seus cabedais como se responsabilizaram por entradas. O patriarca do grupo, Antônio de Oliveira Ledo, estabeleceu vias de penetração sertanejas, através de duas direções:

. A primeira, partindo da missão de Boqueirão, pelo curso do Paraíba até o Rio Taperoá, afluente daquele, cruzou o pequeno Rio Farinha e subindo o curso do Espinharas, nas vizinhanças de Patos, lançou-se para o nordeste, a fim de através do Rio Piranhas, alcançar a região do atual município de Brejo do Cruz e penetrou o Rio Grande do Norte, cuja zona do Seridó pertencia, então, a jurisdição da Paraíba.

. A segunda via de penetração de Antônio de Oliveira Ledo desviou-se para o sul, desde boqueirão, a fim de, pelas nascentes do Rio Paraíba, ingressar em território Pernambucano, onde chegando ao Pajeú, encontrou os colonos da Casa da Torre que por ali subiam, rumo ao alto sertão da Paraíba e ao Ceará.

Dois outros Oliveira Ledo, Custódio, irmão de Antônio, e Constantino, filho de Custódio, também participaram da conquista do sertão da Paraíba. Quem, todavia, exerceu essa função com maior veemência foi outro filho de Custódio e sobrinho de Antônio, Teodósio de Oliveira Ledo.

A penetração de Teodósio partiu do aldeamento Cariri, de Pilar, no sentido noroeste, e, virando para o sul, alcançou o Rio Taperoá. Seguindo em frente, atravessou o planalto da Borborema até Pau Ferrado, sobre o Rio Piancó, de onde inflectindo para nordeste, alcançou, no vale do Rio do Peixe, a localidade Jardim, atual Sousa. Descrevendo longo círculo, penetrou o Seridó norte-rio-grandense pela serra de Luiz Gomes e, desviando-se para o sul, alcançou a confluência do Rio Piancó com o Piranhas onde, em 1698, fundou o arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó.

Esse povoado, do qual deriva a atual cidade de Pombal, constituiu o principal centro de irradiação de povoamento que compreendem não apenas o sertão da Paraíba, mas territórios do Rio grande do Norte e Ceará.

Assim podemos observar que Teodósio de Oliveira Ledo consolidou a Conquista do Sertão.

5 – A resistência indígena – a Guerra dos Bárbaros

A presença de entradistas e bandeirantes, pelo sertão da Paraíba, dispunha de outra motivação, além de espalhar o gado pelos campos do criatório. Tratava-se de prear índios, reduzidos ao cativeiro para a vendagem no litoral. Entradistas e bandeirantes como Teodósio de Oliveira Ledo, Domingos Jorge Velho, Domingos Afonso Sertão e Bernardo Vieira de Melo encontravam-se, confessadamente, comprometidos com essa empreitada.

Fosse por isso, por defenderem suas terras ou porque recebessem estímulos dos franceses, ativos na embocadura do Rio Açu, no caso o Piranhas, que muda de nome, no Rio Grande Do Norte, os índios decidiram reagir. Essa reação, que gerou a chamada Guerra do Bárbaros, vigentes nos sertões nordestinos, de 1680 a 1730, recebeu igualmente a denominação de Confederação dos Cariris. Uma vez mais, fazia-se o tema da História da Paraíba. Só que não foram os Cariris responsáveis por esse procedimento, mais os Tarairiús.

Três fases experimentou a Guerra dos Bárbaros. A primeira rebentou na região norte-rio-grandense do Açu, onde os indígenas se apresentaram com armas de fogo e munições contrabandeadas pelos franceses. A segunda de maior duração, teve lugar na Paraíba, ao longo de toda povoação de Bom Sucesso do Piancó. Expulsos da área, os índios refugiaram-se no Ceará, onde ocorreu a derradeira fase da guerra dos Bárbaros.

A crueldade com que essa foi travada fez-se tão acentuada que, a certa altura, as autoridades lisboetas dirigiram-se ao governador da Paraíba pedindo explicações sobre o que aí acontecia. Aldeias inteiras estavam sendo incendiadas e seus habitantes massacrados, sem constituir exceção mulheres e crianças. Quanto aos adultos que se recusavam à escravidão eram passados pelo fio da espada.

Na violência empregada contra os índios destacou-se Teodósio de Oliveira Ledo, cujas milícias desempenharam o papel de polícia de segurança da época. Em 1710, como rebentasse em Pernambuco a chamada Guerra dos Mascates, os senhores de engenhos de Olinda e os comerciantes “mascates” do Recife, o governador paraibano João de Maia Gama, partidário dos últimos, deslocou Teodósio para guarnecer a fronteira do litoral paraibano com Pernambuco. Outro caudilho sertanejo, Luiz Soares, encarregou-se de proteger o lado oposto, na Fronteira com o Rio Grande do Norte.

Os mais implacáveis sertanistas acudiram as regiões do Piranhas e Piancó durante as batalhas do alto sertão da Paraíba. um deles, o coronel Manoel de Araújo, deslocou-se com gado e cento e cinqüenta homens bem armados, de fazendas do Rio São Francisco para a zona ocupadas pelos índios Coremas, que eram cariris. A rápida submissão destes ofereceu aos conquistadores que pelejavam mais acima, retaguarda que decidiu a sorte das armas. Só então os Tarairiús foram subjugados. A ocupação do sertão da Paraíba fez-se sangrenta e nele, escaramuças estenderam-se até 1750.

6 – O Povoamento do Sertão

Com os índios pacificados e dominados, os sertanistas puderam continuar a fundar as suas fazendas de gado, que se tornaria mais tarde núcleo de povoação.

A princípio criando o gado para abastecer as regiões vizinhas, depois as feiras, as pousadas foram progredindo a ponto de irem se tornando em povoamento, vilas e hoje cidades.

De acordo com o historiador Irinêo Joffily, a seqüência bandeira-curral-fazenda-arraial responsabilizou-se pela formação da sociedade sertaneja na Paraíba.

De fato, como os bandeirantes, percorrendo o curso dos rios, se deslocassem com seu gado seguia-se, inevitavelmente, a concentração deste em currais, campos cercados dotados de rústicas habitações, geralmente de pau-a-pique. Tratava-se das primitivas fazendas, localizadas em datas de terra dotadas de capelas que lhes legitimavam a posse. Se a de Nossa Senhora do Rosário representa, entre 1701 e 1721, no arraial do Piranhas, embrião da futura vila e cidade de Pombal, as capelas de cabaceiras em 1730, Jardim do Rio do Peixe (Sousa), Piancó em 1748, Patos em 1772, Catolé do Rocha e Santa Luzia em 1773 e Monteiro em 1800, significaram o elemento gerador dessas cidades.

Outro elemento formador dos arraiais que se converteram com o tempo, em povoados, vilas e cidades, foram os sítios. Na qualidade de “maior figura patriarcal do sertão da Paraíba”, o capitão-mor José Gomes de Sá possuía fazendas arrendadas à Casa da Torre, como Acauã e Riachão, atuais distritos da região de Sousa. A cidade de Conceição fez-se, originalmente, data de terra pertencente a Pedro Monteiro, no vale do Piancó, em cujos sertões, fazendas como São Gonçalo, Lagoa Tapada e Santo Antônio (atual Piancó), também originaram sedes de distritos e municípios da Paraíba.

A disputa pela terra gerou, no sertão, sociedade violenta que se prolongou no cangaço e lutas de famílias, até bem pouco visíveis em municípios como Catolé do Rocha, Teixeira, Misericórdia (atual Itaporanga) e Piancó.

O povoamento da região ficou a cargo dos colonos que eram mamelucos, resultantes de cruzamento do branco com o índio, mais amplo que o cafuzo, proveniente da mistura do índio com o negro e também aí encontrado.

Um comentário:

RICARDO disse...

Sou de Pernambuco, estou estudando pra o concurso na polícia civil da Paraíba e agradeço bastante por seus conhecimentos postados na internet pra que possamos ter maior conhecimento da história da Paraíba. Obrigado e Parabéns por tudo...