quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Abolição da escravidão na Paraíba


Depois da lei do Tráfico de Escravos de Euzébio de Queiroz, houve ainda desembarques clandestinos, entre Paraíba e Pernambuco, mas seus infratores foram submetidos a processo.

O movimento abolicionista só se desdobraria na Paraíba, pouco antes da Lei Áurea. Embora Arruda Câmara, fosse um partidário da abolição e em 1817, os revolucionários pregassem uma abolição gradativa, não germinou em nossa Província nenhum propagandista desta causa.

Em 1880, a elite paraibana foi contagiada com o movimento do Ceará. O jornal “O Norte”, que circulava nessa época, pregava o abolicionismo total, numa propaganda que impressionou a opinião pública.

Em 1882, com a passagem de José do Patrocínio pela Província, fundou-se “A Emancipadora Paraibana”, sob a presidência do padre João do Rego Moura. Esse movimento através do seu jornal o “Emancipador”, que defendia a causa dos escravos, conseguiu diversas alforrias.

Em 1886, a causa da libertação dos escravos já tomara maior amplitude. Havia vários núcleos de emancipadores, sendo os mais combativos os de Areia e Mamanguape.


A CIDADE DE AREIA NA ABOLIÇÃO

Na cidade de Areia, muito antes da Lei do Ventre Livre, José Alves de Lima, rico proprietários de fazendas, viúvo e sem filhos, deu exemplo da mais alta generosidade. Não só libertou todos os seus escravos como deixou para eles, parte da sua fortuna. A outra parte ele legou a Matias Soares, seu sobrinho, pai do Monsenhor Walfredo Leal.
Os abolicionistas também usaram da Imprensa para estimular a concessão de alforrias e apressar a extinção da escravidão em Areia. Desenvolveram a propaganda abolicionista pelas colunas do Areiense, jornal que começou a circular em 1887 e que aderira ao movimento. Contudo, para melhor ativar a campanha, Manuel da Silva fundou outro jornal Verdade, em março de 1888, dois meses antes da Lei Áurea o qual, além de desenvolver a propaganda abolicionista, tentou pressionar os proprietários de escravos a libertar seus cativos, divulgando os nomes dos senhores que ainda os possuíam.

A "Emancipadora Areiense", como os outros abolicionistas da década de 1880, adotou medidas radicais para apressar a extinção da escravidão. Seus agentes agiram diretamente nas senzalas, estimulando fugas de cativos. Os escravos fugitivos, geralmente, se refugiavam no sítio de S. José, pertencente a Simão Patrício da Costa Senior, membro dessa Sociedade. Lá os fugitivos ocupavam as casas dos moradores, estribarias, estábulos e até a própria residência do proprietário. Por várias vezes, a propriedade foi cercada e ameaçada por tropas policiais.

A Igreja, em Areia, não permaneceu indiferente ao movimento abolicionista. Não lhe atingiram as severas críticas feitas por Joaquim Nabuco à impassividade do clero diante da sorte do escravo: “A Igreja Católica, apesar de seu imenso poderio em um país, em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou a voz em favor da emancipação”.

Foi com bravura que o Pe. Sebastião Bastos de Almeida Pessoa, vigário interino do município e sócio da Emancipadora, trabalhou a favor da extinção da escravidão. Convocou por meio de uma circular, seus paroquianos, inclusive proprietários de escravos, a comparecerem a uma reunião na Igreja Matriz, no dia 10 de julho de 1887, quando segundo o ministro de Cristo, seriam abordados assuntos relativos à conciliação de interesses dos senhores com os escravos:

Manuel da Silva não se fez presente a esse encontro porque não aceitava nenhum acordo entre os proprietários e seus escravizados. Para ele, a liberdade tinha que ser total e imediata; condenaria qualquer tentativa de conciliação. Protestou contra a sua realização e explicou pela imprensa as razões pelas quais não compareceu a reunião: “Abstenho-me, porém, de assistir a ela, para não me tornar cúmplice de concessões ilegais que certamente obterão alguns intransigentes escravocratas que, pelo fato de serem convidados por um membro da Emancipadora Areiense para um acordo que vamos mendigar algumas libertações prevalecendo-nos da intervenção sacerdotal”.

Mas parece que o propalado “acordo” tão criticado por Manoel da Silva foi um artifício usado pelo vigário para atrair um maior número de pessoas à reunião. De início, o Padre Bastos leu uma carta pastoral do Bispo Diocesano, a qual afirmava estar a escravidão em desacordo com os princípios da religião, além de constituir um entrave ao progresso econômico e desacreditar o Brasil como nação civilizada. Em seguida, discursou o advogado João Lopes Pessoa da Costa que, após enaltecer a iniciativa do vigário, positivou suas palavras, declarando libertos todos os seus cativos. Mas o pronunciamento mais circunstancioso foi o do educador Francisco Xavier Camelo Júnior, do qual fez um histórico da escravidão desde as suas origens até o presente. Enfocou, sobretudo, as vantagens do trabalho livre sobre o escravo. Enquanto o primeiro contribuía mais para o bem estar público e progresso econômico, porque tinha o estímulo da remuneração, o segundo não apresentava grande rentabilidade, porque era imposto e regido pelo medo. Destacou a aceleração do progresso dos Estados Unidos após a abolição da escravatura e o aumento das rendas da Província do Ceará depois que ela declarou extinta a instituição servil. No encerramento, o Padre Bastos fez um apelo aos presentes para alforriarem seus escravos.

Sete proprietários selaram compromisso por escrito de libertarem seus cativos. Parece que a reunião do vigário com proprietários de escravos surtiu efeito. A partir de então, algumas cartas de alforria fizeram alusão a pastoral do bispo, difundida pelo Padre Bastos. Para exemplo, citamos um trecho da carta de liberdade passada pelos senhores Antônio João da Silva e Maria Florentino da Silva em favor de dois escravos: “Não desejando possuir mais escravos, pois não é lícito conservar sob o jugo do cativeiro aqueles que de coração desejam, ardentemente, tomar parte no banquete da civilização, no gozo de sua liberdade, cujas raízes se acham gravadas nos corações da humanidade, tendo diante de si o seu vínculo agitado pela pastoral de sua excelência e Reverendíssimo Senhor Bispo Diocesano, concedemos liberdade a nossos escravos”.

Em 1888, no dia 3 de maio, antes mesmo da Lei Áurea, a cidade de Areia entregou uma carta de alforria ao seu último escravo, tendo portanto essa cidade paraibana se antecedido ao ato da Princesa Isabel.

Celebraram o acontecimento com missa solene, foguetórios, passeata e banda de música. O mais emocionante na festa era ver libertos e ex-senhores confraternizados.

Os ex-escravos ofereceram um jantar aos abolicionistas. Prestaram uma homenagem a Manoel da Silva. Jogaram-lhe flores quando chegava ao local, onde já havia inaugurado seu retrato. O farmacêutico areiense comoveu-se até às lágrimas.

4 comentários:

Vicente disse...

Parabéns professor!

Legal o blog.

Sou cordelista e jornalista. Estou desenvolvendo um projeto de contar a história da Paraíba em forma de cordel. Por isso as informações contidas aqui me serão muito úteis.

Já escrevi um cordel (O massacre de Tracunhaém e a fundação da Capitania da Paraíba). Agora estou terminando outro (A conquista da Paraíba).

Atenciosamente,

Vicente Campos Filho, natural de Patos e residente em João Pessoa.

HISTÓRIA se faz com CABEÇA disse...

PARABÉNS PROFESSOR, EXCELENTE BLOG E TRABALHO MUITO BOM. TAMBÉM ANDO ECREVENDO SOBRE HISTÓRIA EMBORA NUMA PERSPECTIVA MAIS GENERALIZANTE PORQUE TRABALHO COM CURSO ISOLADO. PASSO-TE AGORA O ENDEREÇO DE MEU BLOG. ABRAÇO, SÉRGIO MURILO.
http://sergiokbsa.blogspot.com/

alegriadesaber disse...

parabéns professor seu artigo sobre a escravidão na Paraíba, me ajudou muito nas aulas que estou administrando com meus alunos mais uma vez parabéns.

Anônimo disse...

PARABÉNS PELO EXCELENTE MATERIAL DESTE BLOG.

No Rio Grande do Norte, MOSSORÓ foi a primeira cidade a libertar seus escravos, 5 anos antes da Lei Áurea, a 30 de setembro de 1883... Recebendo os bons ventos do Ceará que, em Acarape - atual Redenção - começara a campanha por esta libertação e o fizera em 1º de janeiro de 1883.

Kydelmir Dantas
Mossoró-RN