quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O GOLPE DE 1964 E A INSTALAÇÃO DA REPRESSÃO NA PARAÍBA


Monique Cittadino*

Professora do Departamento de História da
Universidade Federal da Paraíba – UFPB

Na Paraíba, o golpe de 1964 encontra as forças políticas de direita organizadas e prontas para reagir diante da ameaçadora mobilização das forças de esquerda verificada anteriormente, ao longo dos anos iniciais do governo de Pedro Gondim. Os proprietários rurais organizaram-se na Associação dos Proprietários da Paraíba (APRA), que passou a ser conhecida como LILA (Liga dos Latifundiários). A APRA exercia uma atividade paramilitar, voltada para a defesa das propriedades privadas dos seus associados. Em um artigo das suas memórias publicado no Jornal O Norte, Joacil de Brito Pereira, advogado ligado aos grandes proprietários rurais, assim se referiu ao processo em curso de organização dos latifundiários contra uma possível invasão camponesa em suas propriedades:
"Nas propriedades, engenhos e na usina de Agnaldo [Veloso Borges] não houve invasão alguma, a despeito das ameaças. Ele se preparou para a defesa de tal modo, que seria uma temeridade tentar invadir seus domínios. Outro que se preveniu para uma reação em regra foi Henrique Vieira de Albuquerque e Melo, do Engenho Outeiro. Dele se dizia: -'Quem entrar nas terras de Henrique não sai vivo'. Aliás, ambos passaram a dar cobertura a proprietários, vizinhos envoltos com o mesmo problema. E aliciaram muitos elementos nos sítios, engenhos e fazendas. A arregimentação se fez em grande escala."1
Questionado sobre uma possível articulação civil pré-revolucionária na Paraíba, Joacil de Brito Pereira confirmou a sua existência e declarou: "...alguns deputados estaduais e alguns deputados federais, alguns líderes dos proprietários, das classes produtoras, da indústria, do comércio, mantinham um contato permanente com o Cel. Ednardo d'Ávilla Melo, depois general, que foi uma espécie de chefe militar da Revolução na Paraíba. (...) E nós tínhamos esses contatos, ele nos informava permanentemente, não a todos, mas a alguns. Ele mantinha muito contato comigo, com Agnaldo Veloso Borges, e nós, de qualquer forma, representávamos, naquela hora de luta, o esquema civil. Digamos que fôssemos assim uma espécie de chefes sem designação, mas lideranças da área civil na revolução, ao lado da área militar que era chefiada, liderada pelo Cel. Ednardo d'Ávilla Melo."2 A articulação do golpe de 64 contou com a participação conjunta dos setores civis e militares, conforme salientou Joacil de Brito Pereira nos depoimentos anteriores.
As bases sobre as quais se fundamentavam as vinculações existentes entre esses dois setores são expressas pelo Cel. Ernani Layme Falcão, que enfatiza as ligações existentes entre o usineiro Renato Ribeiro Coutinho, um dos líderes do Grupo da Várzea e um dos mais destacados integrantes do esquema civil, e a área militar: "Aqui, aqui nós fomos muitas vezes obrigados a ir assistir ou homenagear Renato Ribeiro Coutinho. Entende como é? Não é que a gente tivesse raiva do Dr. Renato.
Pelo contrário. Era um homem educado, tratava os militares muito bem. Mas, ele não gostava dos militares porque gostava dos militares. 'Tá entendendo como é? Ele gostava dos militares naquilo que os militares pudessem servir a ele. Porque ele também servia ao militar. Entende como é o negócio? Quer dizer, ele deu um instrumental da Banda de Música lá do 15. Ele fez um pátio do quartel. Essas coisas que os militares não deviam aceitar, como nós não aceitamos nada dele lá.
Mas ainda assim mesmo ele arranjou uma medalha de "Pacificador" no nosso quartel. Por que ele sabia o dia do meu aniversário... Ele fazia banquetes na Usina, convidava a gente, a gente ia lá. Mas, para quê? Para ver as obrinhas vagabundas que ele fazia lá como sendo obras fantásticas para atendimento daquele pessoal da ... Ele abria um centro de saúde com uma salinha e uma balança e uma mesa de médico, como sendo a coisa mais importante do mundo. Querendo fazer a gente engolir um serviço vagabundo, pequeno, de saúde, como sendo a maior coisa do mundo. Quer dizer, quando ele fazia um almoço lá era para mostrar alguma coisa que ele tinha feito."3
Além do usineiro Renato Ribeiro Coutinho, o esquema civil pré-revolucionário na Paraíba contou com a participação de diversos outros integrantes, conforme citação nominal de Joacil de Brito Pereira: Antonio Ribeiro Pessoa, João Batista de Lima Brandão, Sindulfo Guedes Santiago, Alfredo Pessoa de Lima, cel. Renato Ribeiro de Moraes, Jocelan Veloso Borges, Fernando Gouveia, Renato Ribeiro Coutinho, Marcos Odilon Ribeiro Coutinho, Flaviano Ribeiro Coutinho, Otávio Mariz Maia. Os nomes não se restringiam aos membros da UDN. Diversos integrantes do PSD participavam das conspirações: José Afonso Gaioso de Souza, dep. José Fernandes de Lima, Aluísio Pereira, Carlos Pessoa Filho. Além destes políticos, Joacil de Brito cita ainda alguns jornalistas como Sabiniano Maia, José Leal, Antonio Brainer, Otinaldo Lourenço e Dulcídio Moreira.
Ainda segundo Joacil de Brito Pereira nesse depoimento, o processo de conspiração incluiu a organização, encabeçada pelo cel. Renato Ribeiro de Moraes, de falanges de sargentos, cabos e soldados reformados da Polícia Militar e do Exército para uma possível luta armada se necessário fosse. A organização dessas falanges simultaneamente ao processo de constituição de exércitos privados indica que as forças conservadoras estavam prontas para conter qualquer processo de resistência à implantação da nova ordem.4 Neste contexto, Hélio Zenaide, baseado em de Joacil de Brito Pereira, esclarece que o recurso às armas era uma das possibilidades aventadas pelos golpistas naquele momento:
"...Os proprietários rurais a esta altura já estavam armados. Todos eles tinham munições, todos eles tinham metralhadoras em suas propriedades. Os proprietários rurais estavam organizados e já tinham um plano de atuação diante de qualquer emergência que surgisse (...). Os latifundiários já tinham um plano inclusive para assaltar o Palácio do Governo se fosse o caso. (...) Caso houvesse uma luta armada com os camponeses e Pedro Gondim ficasse ao lado dos camponeses. Eles estavam preparados para essa eventualidade."5
Quanto à participação concreta do Governo do Estado na conspiração golpista, nada indica que tenha ocorrido, apesar da sintonia de interesses e de ação que já vinha se manifestando entre o governador e a guarnição federal na Paraíba. É extremamente viável, devido ao clima existente no país de intensificação dosradicalismos, que se pudesse suspeitar e prever um desfecho por fora do estado de direito e da legalidade à situação crítica vigente no país. Entretanto, é pouco provável que o Governador Pedro Gondim pudesse estar envolvido, a exemplo dos governadores líderes do movimento (Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e outros), nas articulações golpistas. Inclusive, a reação imediata de Gondim à emergência do golpe e a indefinição que se estabelece inicialmente entre ele e seus assessores quanto à posição a ser tomada, são claros indícios de que o governador fora realmente tomado de surpresa. Em um depoimento, Gondim salienta a surpresa representada pela eclosão do golpe naquele momento preciso, assim como nega que as recentes medidas tomadas no seu governo, imprimindo-lhe uma nova orientação, já tenham sido adotadas visando ao desfecho de um movimento militar de direita: "Raros foram os governadores de estados pequenos que participaram da elaboração revolucionária. (...) A revolução, o movimento, surpreendeu o maior número dos governadores de pequenos estados. O governador que veio dizer que participou, que fez parte da elaboração, que foi consultado previamente, que teve entrevistas... isso aí não é, não. Eu, pelo menos, fui surpreendido com o movimento da revolução. A própria notícia me foi surpresa. De forma que não fiz nada com vistas a prevenir uma posição melhor dentro de qualquer movimento. Tenho a humildade de confessar que não estava participando de entendimentos pró-revolução nem anti-revolução."6
Ao tomar conhecimento da eclosão do golpe, no início da noite de 31 de março, o Governador encontrou-se com os seus auxiliares mais diretos no Palácio da Redenção, em uma reunião que se prolongou pela madrugada, encerrando-se apenas na manhã seguinte, com a elaboração e leitura na Rádio Tabajara da nota oficial do Governo posicionando-se frente ao movimento. O desenrolar dos acontecimentos ao longo desta noite são claros indicativos de que o Governo Estadual, além de ser tomado de surpresa frente ao movimento, também não tinha uma posição definida e, muito menos, homogênea a ser assumida: parte do seu secretariado defendia o rompimento com o Governo Federal e a adesão imediata ao golpe, e parte pretendia a adoção de uma posição em apoio a João Goulart.7 O impasse persistiu mesmo com a chegada dos coronéis Ednardo d’Ávilla e Plínio Pitaluga, que exigiam do governador uma definição. Joacil de Brito Pereira relata a pressão então exercida sobre o Governador:
"Contou-me o coronel Pitaluga que teve vontade de prender Pedro Gondim, incontinenti, após a sua resposta evasiva e fugidia. Mas olhou para o seu colega Ednardo e ele lhe fez um sinal de ponderação e tolerância. Eles trouxeram uma intimação, um ultimatum, e Pedro se fez de desentendido e se limitou a agradecer a comunicação, dizendo que ia refletir e reunir o secretariado. Ednardo, pois, evitou que Gondim fosse deposto e preso naquela madrugada.
Confiou-me, ainda, o coronel Pitaluga outras missões. A primeira era reunir os líderes dos partidos, para convencermos o governador a definir-se ao lado da revolução, até a manhã daquele dia, pelas onze horas. Caso contrário, seria deposto."8
O jornalista Nelson Coelho corrobora essa versão enfatizando a possível situação de abandono de Gondim por suas forças militares:
"A verdade é que o Palácio da Redenção, com o governador nele instalado, funcionou a noite inteira. Pedro tinha trocado o sistema de segurança no Estado, colocou o major Macário como secretário e fez o coronel João Gadelha de Oliveira, comandante geral da Polícia Militar. Esta equipe de segurança constou, posteriormente, que teria ido embora do palácio da Redenção caso o governador tivesse tomado uma posição de apoio à legalidade."9
A definição da posição de Gondim, contudo, ainda não seria tomada neste momento, mas apenas na manhã do dia 1o de abril com a chegada do líder do Governo na Assembléia, Antônio Vidal do Rego. A partir daí, percebendo a irreversibilidade do movimento militar, a fragilidade das forças janguistas e, sobretudo, a importância do momento para a sua sobrevivência política, Pedro Gondim elabora a nota de apoio ao movimento "revolucionário":
"Não posso e não devo, neste instante de tanta inquietação nacional, deixar de definir minha posição, na qualidade de Governador dos paraibanos.Reafirmo, preliminarmente, todos os pronunciamentos que expandi em favor das reformas essenciais, por saber que elas constituem instrumentos legais de adequação aos novos problemas do povo. E neste sentido nunca faltei com o meu estímulo e apreço ao Governo Central.
Os últimos acontecimentos, verificados no Estado da Guanabara, envolvendo marinheiros e fuzileiros navais, denunciaram, porém, inequívoca e grave ruptura na disciplina em destacado setor das classes armadas, com desprezo às linhas hierárquicas e completa alienação às prerrogativas da autoridade, sustentáculo autêntico da segurança nacional.
O movimento que eclodiu nestas últimas horas em Minas Gerais, com repercussão em outros Estados, não é mais nem menos do que a projeção de acontecimentos anteriores, numa tentativa de recolocar o país no suporte de sua estrutura legal, propiciando clima de tranqüilidade – indispensável ao processo desenvolvimentista que vivemos. O pensamento político de Minas Gerais, hoje como em 1930, identifica-se com a vocação histórica do povo paraibano que deseja, neste episódio, e sobretudo, o cumprimento das liberdades públicas, consubstanciadas na defesa intransigente do regime democrático.
João Pessoa, 1 de abril de 1964.Pedro Gondim."10
A posição tomada pelo governador Pedro Gondim, após a noite de vigília, garantiu-lhe não apenas a sua permanência à frente do Governo do Estado, como a preservação da sua liberdade, haja vista que, segundo depoimentos de testemunhas da época, caso a posição tivesse sido outra, ele teria sido deposto e, em seguida, preso, conforme aconteceu com Miguel Arraes. Portanto, essa definição do governo favorável aos "revolucionários" garantiu-lhe a sobrevivência política e a liberdade pessoal. Essa posição tomada frente ao golpe valeu o seguinte comentário de J. Soares Madruga na coluna Diário da Política:
"MELHOROU - A proclamação do Governador Pedro Gondim aos paraibanos deu a S. Excia um pouco de recuperação de seu prestígio. O chefe do Executivo falou na hora exata, sem titubear como da outra vez, quando para a posse de Jango, e atirou certo - ficou com o lado que venceu, além de recuperar a confiança de
setores representativos do latifúndio no Estado."11
A partir de então, a adesão de Gondim à revolução se dará de forma absoluta e inquestionável, conforme anuncia o editorial do jornal A União do dia seguinte ao golpe: "Reina na Paraíba, até o presente momento, a mais absoluta ordem e segurança, estando o governo do Estado, em consonância com as Forças Armadas (...) de acordo com a linha de conduta da Guarnição Federal da Paraíba, já revelada pelo seu bravo e leal comandante, coronel d'Ávila Melo, absolutamente integrado no dispositivo militar do IV Exército."12
A eclosão do golpe tomou de surpresa as forças de esquerda na Paraíba, interrompendo a ocorrência de novas manifestações reivindicatórias que já haviam sido agendadas e que dariam continuidade ao seu processo de mobilização. Para os dias 3, 4 e 5 de abril, tendo à frente o Partido Socialista Brasileiro (PSB), o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a Frente de Mobilização Popular, a União Estadual dos Estudantes da Paraíba (UEEP) e a Federação dos Trabalhadores Rurais da Paraíba, estava programada a realização de concentrações nas cidades de João Pessoa, Cabedelo e Santa Rita, que contariam com as presenças de deputados da Frente Parlamentar Nacionalista, dos governadores Miguel Arraes e Seixas Dória e do prefeito de Recife, Pelópidas Silveira, em reivindicação pelas reformas de base.13 Por outro lado, a Liga Camponesa de Mari, contando com o apoio de lideranças operárioestudantis e da Frente de Mobilização Popular, planejava comemorar, em 19 de abril, o aniversário de nascimento de Getúlio Vargas.14 Essas manifestações obviamente não chegaram a concretizar-se, constituindo-se, por assim dizer, no fim das aspirações populares pelo avanço de um processo de transformação social liderada por aquelas forças. Na noite de 31 de março, após as notícias da eclosão do golpe, chegou a ser iniciado um comício em Cruz das Armas promovido por lideranças da esquerda (Partido Comunista, a CGT, o Pacto de Unidade e Ação e a Federação das Ligas Camponesas), que foi dissolvido pelas tropas federais. O jornalista Jório Machado, testemunha dos acontecimentos, dá a sua versão: "Em Cruz das Armas [segundo o depoente, bairro escolhido por ser o mais populoso da época], instalou-se um caminhão, com alto-falante, ao lado da igreja São José. E como ainda tinha pouca gente, escalaram oradores mais fracos (assim como eu) para falar na abertura da manifestação, enquanto o clima ia esquentando. Estavam lá, comigo, pessoas como Paulo Pontes, João Santa Cruz, Leonardo Leal, Malaquias Batista, todos escalados para, também, falar. De repente, na abertura do comício, desembarcou na praça um caminhão do Exército, daqueles com empanada de lona, apinhado de soldados, todos armados de fuzil.
E, por coincidência, na hora em que o caminhão entrou, faltou energia. O caminhão do Exército forçou a entrada, no meio da massa. Nisso, eu e Paulo Pontes saltamos do caminhão em que estávamos e nos infiltramos no meio da multidão..."15 Diante da inexorabilidade do movimento militar, inclusive por conta das prisões e perseguições que imediatamente atingiram os líderes populares, inicia-se o processo de desagregação e desmobilização dos grupos de esquerda na Paraíba. Os seus membros passam, infrutiferamente, a buscar contato com outras lideranças locais ou em outros estados, na tentativa de articularem-se e de encaminhar-se um processo de resistência. Em Rio Tinto, camponeses e operários, através dos sindicatos e ligas camponesas e contando com o apoio e liderança do prefeito, tentaram reagir ao golpe. Inicialmente, tomaram a fábrica de tecidos, paralisando suas atividades; os pontos estratégicos da cidade foram isolados com arame farpado retirado do almoxarifado da fábrica. A repressão ao movimento foi efetuada pelas tropas da PM aquarteladas em Sapé e Mari que, sob o comando do coronel Luíz de Barros, deslocaram-se para Rio Tinto. Dentre os diversos presos encontrava-se o prefeito da cidade.16
O fato é que o episódio de Rio Tinto deve ser analisado no bojo de heróicas e desconectadas tentativas de resistência que, imediatamente, mostravam-se inviáveis e, a bem da verdade, revelavam a fragilidade intrínseca e a falta de organicidade dos grupos de esquerda. Essa fragilidade e falta de organicidade não eram exclusivas das esquerdas paraibanas. O desenrolar do golpe militar demonstrou que as lideranças golpistas civis e militares superdimensionavam o real poder das organizações de esquerda no país.17 Extremamente conservadoras, para as elites dominantes deste país, qualquer sinal de insatisfação e de reivindicação oriundo das camadas populares era visto como uma séria ameaça à ordem estabelecida, exigindo, assim, a adoção de severas medidas repressoras.
"A fragilidade política e ideológica da sociedade civil oligárquico-industrial populista parecia tão intensa que as classes dominantes atribuíram, ao que era relativamente um baixo grau de participação e mobilização política, um sério potencial de ameaça, suficientemente severo para reunir a burguesia numa ação agressiva, ou no que foi por elas qualificado de golpe defensivo."18
Diante da inviabilidade de qualquer tentativa de resistência, restaria a opção da fuga como a única tentativa de escape às envolventes mãos do aparato repressor recém instalado. E, na maioria das vezes, a própria fuga se mostraria infrutífera. Jório Machado, após escapar do comício em Cruz das Armas, começa a sua trajetória: dorme nessa noite na sede da Associação Paraibana de Imprensa (API) e, em seguida, refugia-se sucessivamente na casa de um amigo e na de um parente até, finalmente, resolver apresentar-se ao 15o RI, que já o havia intimado.19 O jornalista Adalberto Barreto, presidente da API e da Frente de Mobilização Popular, foi preso na manhã do dia primeiro de abril, juntamente com outras pessoas que se encontravam na sede da Associação, sendo liberado dois dias após. A partir desse momento, inicia um roteiro de fugas que durou três meses e terminou com a sua apresentação ao Grupamento de Engenharia e Construção, onde permaneceu 100 dias. "Passei três meses em fuga por aí afora, em regime de desemprego total, com as pessoas amigas se cotizando para fazer a feira de minha família."20
Como se percebe pelos exemplos anteriores, a fuga, apesar de em um primeiro momento constituir-se em uma alternativa de sobrevivência, na maioria das vezes mostrava-se absolutamente inútil em conseqüência da onipresença do estado militar que, através de seus aparelhos de investigação, imiscuía-se nas entranhas da sociedade, descortinando seus segredos e impondo severos limites a qualquer tentativa do indivíduo em não ser reconhecido. Enquanto no Palácio da Redenção o governador procurava uma posição frente à crise e os representantes da esquerda, atordoados, procuravam dar algum direcionamento às suas vidas, o golpe continuava a sua marcha na Paraíba, mobilizando as tropas federais para desmantelar todas as formas de organização social de cunho popular ou esquerdista.
As tropas federais imediatamente foram usadas para controlar os chamados "focos de subversão". Sendo assim, a sede da Associação Paraibana de Imprensa (API), ainda na manhã do dia 1o de abril, foi invadida pelo Exército, sob o comando do Major Cordeiro. Naquele momento, diversos militantes que lá se encontravam discutindo a nova situação política do país foram presos e entregues à Polícia Civil, comandada pelo Cel. Belmont. A API, ainda dentro do processo de expurgo ao qual foi submetida, foi vítima do vandalismo de um grupo de civis que arrombou a entidade e rasgou seus livros de registro.21 Procurava-se apagar da memória da Associação qualquer vestígio que caracterizasse a passagem e o exercício da liderança das forças de esquerda dentro daquela instituição.
A Campanha de Educação Popular (CEPLAR), fortemente visada devido à sua atuação na educação popular no estado, também foi vítima da ação terrorista de civis engajados no processo revolucionário, tendo suas portas arrombadas e seus documentos destruídos por serem considerados subversivos.22 Inúmeros dirigentes e professores foram presos e todas as atividades desenvolvidas pela entidade foram suspensas. Segundo o pesquisador Afonso Scocuglia, a entidade foi submetida a um Inquérito Policial Militar sob a acusação de receber financiamento de países comunistas, e os seus dirigentes responderam a um processo sob acusação de "subversão e comunismo", que foi arquivado em 1965 por absoluta falta de provas.23
Logo nas primeiras horas após o golpe, as perseguições iniciaram-se e as prisões do Grupamento de Engenharia e do 15o. Regimento de Infantaria (15o RI) ficaram abarrotadas.24 Era sobretudo para esses dois quartéis que os presos políticos eram levados na Paraíba. Segundo levantamento feito nos jornais da época pelo prof. Mauro Koury, em seu trabalho "Rastros de Tragédia", foram registradas 178 prisões efetuadas nos meios urbanos (sindicalistas, políticos, estudantes, jornalistas, operários, profissionais liberais, populares, etc.) e 172 prisões de trabalhadores rurais e camponeses acusados de envolvimento com os movimentos do campo.25
A diferença na forma de tratamento dos presos políticos existente entre os dois quartéis era destacada pelas testemunhas da época: sabia-se que o uso da violência não acontecia no Grupamento de Engenharia, caracterizando, entretanto, o 15o RI, notabilizado que ficou pela truculência dos seus comandantes.26 A história da prisão e do desaparecimento de Nego Fuba e Pedro Fazendeiro, dois proeminentes líderes camponeses, envolve esses dois quartéis: os dois estiveram presos no Grupamento de Engenharia e, posteriormente, foram transferidos para o 15o RI, de onde foram oficialmente "liberados" e nunca mais encontrados.
Nas prisões, os detidos prestavam depoimentos, respondiam aos inquéritos nos quais haviam sido indiciados. O emprego da violência e da tortura para a obtenção de depoimentos e outras informações era freqüentemente utilizado: interrogatórios repetidos ao longo de noites seguidas ou a submissão do preso a uma luz extremamente forte no rosto, impedindo-o de dormir e, desta forma, minando sua
capacidade de resistência; ameaças de espancamento, que em grande número de vezes se concretizavam. Antônio Augusto Arroxelas, preso no 15o RI, relata a noite de tortura a que foi submetido: foi retirado do 15o RI e levado para a Polícia Militar, sendo jogado num xadrez com os presos comuns que o espancaram até que ele perdesse os sentidos. Ainda nessa noite, ele foi obrigado a assistir à tortura de um companheiro no pau-de-arara, sob a ameaça de que seria o próximo.27 Violência similar sofreu Antonio Dantas, um dos fundadores da Liga Camponesa de Santa Rita: ele também estava preso no 15o RI quando foi retirado e levado para a Central de Polícia Militar, onde foi brutalmente espancado pelos outros presos.28
Alguns, por conta talvez de sua combatividade e atuação, eram levados para Recife e, dali, para a ilha de Fernando de Noronha. A ilha de Fernando de Noronha notabilizou-se por ter sido para lá que foram levadas as figuras expoentes das esquerdas no Nordeste, como os governadores Miguel Arraes e Seixas Dória. Entretanto, em virtude da irracionalidade do aparelho repressor, esse critério não era lógico, tendo sido levados para a Ilha alguns prisioneiros paraibanos que, teoricamente, não representavam "tão sério perigo" à nova ordem social.
Em Fernando de Noronha, mesmo que não submetidos diretamente à tortura física, as ameaças e o terrorismo tão constantemente utilizados constituíam-se em verdadeiras formas de tortura psicológica. Freqüentemente os prisioneiros eram retirados de suas celas durante a madrugada para serem submetidos a interrogatórios; em outras ocasiões, eram levados para longos "passeios" pela ilha, sendo o percurso marcado por ameaças de que seriam mortos e "desovados" no mar. O jornalista Jório Machado, um dos que foram presos em Fernando de Noronha, descreve um episódio de tortura física e psicológica a que foi submetido: na madrugada de uma noite chuvosa foi retirado de sua cela e, juntamente com 3 oficiais, percorreu a ilha em um jeep durante duas a três horas, num violento clima de tensão psicológica. Ao voltarem, ele foi submetido à "rampa", nela permanecendo cerca de 3 horas.29 Entretanto, conforme ele viria a saber posteriormente, aquele "passeio noturno" foi apenas uma manobra rotineira de ronda noturna.30
Assis Lemos foi outro que esteve preso em Fernando de Noronha. No momento de sua prisão, no dia 6 de abril, Lemos encontrava-se refugiado em Recife na casa do amigo Osmar de Aquino. Durante o percurso até o Quartel General, no Parque 13 de Maio, Assis Lemos relata que foi sendo espancado e submetido à tortura psicológica, sendo ameaçado de sofrer uma sessão de afogamento em alguma praia do estado. Posteriormente, foi transferido para o Quartel da 2a Companhia de Guardas. Lá, ele sofria um constante terrorismo psicológico, sendo ameaçado de ser entregue aos Veloso Borges da Várzea do Paraíba. Ainda nesse quartel, Assis Lemos foi acordado e levado para um matagal na saída do Recife, onde foi submetido ao "pau-de-arara" e ao"charuto cubano".31 A sessão de tortura foi comandada pelo Cel. Ibiapina, responsável pelo Inquérito Policial Militar (IPM) em Pernambuco, para que ele confessasse a existência de armas vindas de Cuba em posse dos camponeses.
"Numa árvore, instalaram o 'pau-de-arara', e me colocaram nele. Começaram a espancar-me, com tapas nos ouvidos - o famoso 'telefone' - enquanto o Ibiapina interrogava-me sobre as armas vindas de Cuba. Respondi que não tínhamos armas e desconhecia totalmente que Cuba as houvesse enviado. Sabia que os usineiros e alguns latifundiários as possuíam. Eram armas privativas das Forças Armadas, como aquela que tinha dado origem à 'tragédia de Mari'."32
A violência e a tortura, entretanto, não foram usadas apenas contra os presos nos quartéis do Exército como forma de obter confissões e outras informações. A repressão passou a ser sistematicamente empregada no campo, tornando-se, desta forma, responsável pelo completo aniquilamento das Ligas Camponesas. Elas foram consideradas ilegais e suas principais lideranças foram presas, torturadas e, até mesmo, assassinadas, havendo, alguns, fugido para sobreviver. Os camponeses que participaram ou tiveram qualquer envolvimento com os movimentos reivindicatórios foram severamente perseguidos, punição pela ousadia de tentar subverter a secular ordem estabelecida no mundo agrário. A repressão e perseguição no meio rural não eram feitas apenas pela Polícia e pelo Exército, mas contou com a "generosa colaboração" dos capangas e das milícias particulares dos proprietários rurais que, assim, puderam acelerar o processo de expulsão dos camponeses sem contar com a menor resistência, em um contexto de total impunidade.
"No interior o terrorismo reacionário não foi menor. Camponeses e 'moradores' eram expulsos das terras, as casas de palha queimadas e as pequenas lavouras de subsistência confiscadas sem a menor indenização. Os progroms geralmente se realizavam à noite quando famílias inteiras eram despertadas pelas tochas
incendiárias sem o menor aviso prévio. E lá se iam, pelas madrugadas, em demanda do horizonte, o pequeno rebanho apavorado. Eram mulheres e crianças que gemiam e que choravam, deixando para traz o tugúrio em chamas. A grande maioria era de apenas simpatizantes das chamadas 'Ligas Camponesas'. Muitos deles encheram as prisões dos quartéis. Havia mais famintos do que fanáticos.
Havia mais fome do que fúria assassina como propalava o patriciado rural. Não tinham nem tempo de arrecadar os teréns. Apenas o lamento dos velhos e o choro angustiado das crianças respondiam ao despejo imperativo e ardente. Era uma população atoleimada e entorpecida mentalmente levada ao desespero pelo delito imperdoável de ter pensado numa reforma agrária."33
A repressão na área da Várzea era comandada pelo coronel Luiz de Barros, que já controlava a região há alguns meses. A sua truculência e crueldade notabilizaram-se, tornando-o conhecido como "o terror em forma de gente", segundo Antonio Dantas, uma de suas vítimas. A possibilidade de cair-se nas mãos do coronel Luiz de Barros era extremamente assustadora, como se depreende do episódio envolvendo o deputado socialista Figueiredo Agra e o líder camponês Antonio Dantas. Os dois estavam juntos em uma das celas do 15o RI sendo submetidos pelo coronel Cordeiro a uma "guerra de nervos", quando Agra, apavorado, desabafa com Dantas: "Mas Dantas, coronel Cordeiro quer me entregar a Luiz de Barros."34
Esse mesmo temor que, caso concretizado eqüivaleria, certamente, a uma sentença de morte, também foi sentido por Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira. Ao descrever a sua fuga da Paraíba, ela deixa claro que o que a movia era o temor de "cair nas mãos de Luiz de Barros":
"O coronel Luiz de Barros estava lá. Eu senti na fisionomia dele que ele queria me matar. Foi aí que implorei a meu pai para não me deixar ser trazida por eles.(...)
Com irmão meu, consegui um carro até João Pessoa. (...) Mas eu, neste momento, não fui para o 15o RI. Como eu ia para o quartel? Eles iriam me entregar ao coronel Luiz de Barros. Esse coronel era doido para me pegar e dar fim da minha vida..."35
Elizabeth Teixeira também descreve a violência cometida contra a sua família pela polícia que a procurava, segundo ela, também a mando do coronel Luiz de Barros:
"Foi Abraão [um de seus filhos] quem me comunicou que nossa casa havia sido invadida pelos policiais, com um carro carregado com um tambor de gasolina para queimar a mim e a meus filhos. Quando eles invadiram a casa e começaram a espalhar a gasolina, ficaram na dúvida se queimavam ou não. (...) Então os policiais foram para a casa do meu pai num sítio vizinho. Chegando lá procuraram por mim e disseram que iam queimar minha casa com uma criança dentro. Quem comandava toda essa estupidez era o coronel Luiz de Barros."36
Além do exercício da violência física sobre os camponeses e suas famílias, também se promoveu um terrível atentado contra um dos mais elementares direito do cidadão: o de ter um registro de trabalho. Segundo depoimento de Hélio Zenaide, os latifundiários da Várzea comandaram uma operação visando apreender e destruir as carteiras de trabalho dos camponeses, retirando-lhes, assim, qualquer possibilidade de legalização e de proteção jurídica à sua situação de trabalhador. "Os donos da Várzea caíram em cima de todos os trabalhadores rurais que eram filiados às Ligas Camponesas. Foi uma verdadeira caça às bruxas. O pessoal do doutor Agnaldo Veloso Borges saía em caravana a cavalo, de casa em casa. Invadindo cada casa. Tomando a carteira profissional do Ministério do Trabalho.
Deixavam os pobres sem carteira. Eles juntaram montanhas de carteiras do
Ministério do Trabalho para tocar fogo."Questionado sobre a comprovação dessas afirmações, Zenaide prossegue seudepoimento:"Eu provo isso com depoimentos deles mesmos. (...) De um dos executores da medida. João Lins foi quem me contou isso. João Lins era o dono do Engenho Corredor (...) e foi um dos executores dessa missão. Ele me contou isso naturalmente..."37
Com a repressão que se instalou a partir do golpe, todos os resquícios da mobilização social então existente no estado foram varridos da vida local. Os setores sociais vinculados aos ideais da esquerda que viviam um processo de organização foram duramente afetados com as medidas persecutórias e punitivas adotadas. No campo, sobretudo em torno das áreas das Ligas Camponesas, a repressão foi particularmente feroz, calando todas as lideranças e bloqueando, por um longo tempo, qualquer possibilidade de reorganização das classes camponesas. Na verdade, o que se verificou nos momentos iniciais do golpe, foi a ausência completa de qualquer forma minimamente estruturada de reação e resistência. No fundo, a tão propalada virulência das forças de esquerda e, sobretudo, das classes camponesas, mostrou-se, na Paraíba, absolutamente falaciosa.

Um comentário:

japhnis disse...

Gostaria de saber se você tem alguma informação sobre a pessoa de Jaime Simplício.
Ele participou da Liga Camponesa aqui na Paraíba ao lado de "Nego Fuba". Qualquer informação a respeito, favor contatar: japhnis@hotmail.com

Grato.