quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

A história contada: surgimento do MST na Paraíba



Luciana Henrique da Silva (1)

Na Paraíba, a luta pela terra remonta ao surgimento das Ligas Camponesas, na década de 50, em contraposição à estrutura agrária que se formou desde o processo de ocupação e de estruturação do espaço agrário nordestino através da expansão da cana-de-açúcar e da pecuária, ambas absorvedoras de grandes extensões de terra.

A primeira Liga Camponesa foi implantada na Paraíba em fevereiro de 1958, como Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé, ligada a ULTAB. No primeiro Congresso de Trabalhadores da Paraíba realizado entre 10 e 13 de maio de 1958, foi denominada pela imprensa de Liga Camponesa de Sapé. Essa Liga se caracterizou pelas lutas travadas com os usineiros que compunham o grupo da Várzea. Em 1962, é assassinado seu líder João Pedro Teixeira, cuja morte é atribuída pelos trabalhadores rurais e por parte da opinião pública ao Grupo da Várzea. (Souza, 1998) Em 25 de novembro de 1961 é fundada em João Pessoa a Federação das Associações dos Lavradores Agrícolas da Paraíba, que contava com 14 associações. Logo em seguida passando a se denominar Federação das Ligas Camponesas da Paraíba.

Segundo Souza os proprietários fundam em abril de 1962 através da reunião da Associação dos Proprietários Rurais da Paraíba (APREP), a Liga dos Latifundiários (LILA) buscando associar os pequenos proprietários e desviá-los do assédio das Ligas Camponesas. Durante a instauração do golpe militar e com a criação dos sindicatos rurais as Ligas foram duramente reprimidas e se desarticularam. Nesse período devido a criação dos sindicatos rurais e as repressões, com perseguições, mortes e prisões os movimentos rurais não tiveram condições de florescer.

Após o golpe militar e com a proposta de modernização da agricultura através de incentivos fiscais e de crédito, que foram desigualmente distribuídas, sendo mais intenso no sudeste, a Paraíba reorganizou sua estrutura agrária através do reforço das atividade canavieira e pecuária desencandeando graves efeitos sociais e econômicos, com o aumento da concentração de renda e também dos conflitos no campo. O setor canavieiro beneficiado com o programa Nacional do Álcool – PROÁLCOOL, criado em 1975 adquiriu novas maquinarias além da utilização de fertilizantes e produtos químicos e na ampliação de suas usinas e destilarias. Já o setor pecuário melhorou suas pastagens, disseminou o uso de rações industriais e etc, que elevou o aumentou do rebanho bovino (Moreira & Targino, 1997).

Entretanto com o arrefecimento dos recursos provenientes dos bancos internacionais na década de 80 o governo retira inúmeros projetos consolidando-os num único projeto, chamado de Nordestão, que provocou a crise dos canaviais no início de 1985 e o progressivo declínio da economia canavieira. Esse processo de modernização levou a expulsão e proletarização do trabalhador rural além da repressão aos movimentos de trabalhadores rurais. Esse processo de "modernização" se acentua com o PROÁLCOOL devido a crescente busca de lucros e de terras, o que intensificou a expulsão dos pequenos produtores que viviam no interior e nas margens das propriedades. Em muitos casos, segundo Moreira, os conflitos se iniciam com a morte do antigo dono, quando a terra é subdividida entre os herdeiros e os trabalhadores são obrigados a deixar as terras. Nesses casos os trabalhadores em busca de seus direitos passaram a se organizar contando com o apoio de diversas instituições, principalmente da Igreja Católica.

A Igreja Católica inicialmente através da Pastoral Rural, que surgiu em 1975, passou a realizar reuniões com os trabalhadores visando informá-los e organizá-los para a resistência na terra. Em 1988 a Pastoral Rural da Paraíba se vincula a CPT nacional continuando a prestar assessoria, inclusive jurídica, aos trabalhadores rurais.

O Estado da Paraíba contou com 194 conflitos de terra entre 1970 e maio de 1996, distribuídos em 55 municípios, a maioria na região do Agreste e Brejo, se estendendo pela Zona da Mata a Região da Borborema e avançando para o Sertão (2). As lutas na Paraíba se acirraram com o processo de proletarização e marginalização a que são submetidos os trabalhadores expulsos do campo.

Inicialmente organizados pelas Ligas Camponesas, e em seguida através de alguns sindicatos rurais, além da atuação da Igreja com a criação da Pastoral Rural e posteriormente da CPT que foram fundamentais no processo de construção de uma visão social e política entre grupos de trabalhadores rurais. No final da década de 80 surge o MST na Paraíba, como um novo ator na luta pela terra e pela conquista da Reforma Agrária e por um novo modelo de organização sócio-econômica.

Nesse aspecto é importante considerarmos a trajetória do MST na Paraíba a partir do que é contado pelos agentes que estavam envolvidos no processo de construção dessa história como: militantes, ex-militantes, além de colaboradores. A principal contribuição da História Oral é no sentido de recuperar a história a partir dos relatos de seus participantes, que através da relação entre passado e presente podem contribuir na análise dos fatos em que estiveram presentes. É importante lembrar, que partimos da memória dos entrevistados, e a memória humana é falha e seletiva (3).

A história do MST na Paraíba é bastante fragmentada devido a diversos fatores como a ausência de registros sistemáticos. Dentro desse contexto a principal contribuição desse artigo é contribuir para a divulgação da memória do movimento através do registro de depoimentos de alguns participantes, servindo assim de base para futuras pesquisas.

Desde o ano de 1985, conforme foi confirmado nas entrevistas, o MST começou a se articular na Paraíba. Nesse ano foi realizado o 1º Encontro Nacional do MST contando com a participação de 25 lavradores, ligados a sindicatos e a CPT, que já desenvolvia atividades de organização na região. Estes primeiros participantes eram oriundos principalmente da região do Brejo e do Cariri, provavelmente devido a atuação anterior das Ligas, e de alguns sindicatos que atuaram na região através da conscientização dos trabalhadores sobre seus direitos, além da atuação da Igreja junto aos trabalhadores através da ação pastoral.

Os trabalhadores que participaram do evento realizam ao regressar um Encontro em Alagoa Grande com a participação de em média 50 trabalhadores também do Brejo paraibano buscando articular os trabalhadores e trazer o MST aqui para a Paraíba. (mimeo MST)

Entretanto como foi relatado na entrevista 3, com uma ex-militante, para a direção nacional não havia movimento sem luta. Durante esse período o MST nacional se encontrava na sua segunda fase que foi a fase de expansão e consolidação do movimento em vários Estados. Esta fase possuiu como características principais: o distanciamento da influência da Igreja através da opção por ações e realização de ocupações como principal estratégia de luta. A urgência da realização de ocupações a partir de uma agenda nacional é uma marca da atuação do MST, portanto se tornava necessária uma ação do MST na Paraíba, o que levou inclusive a divergências internas.

Na perspectiva da direção nacional e parte dos membros locais sem uma ocupação, sem acampamentos e assentamentos não se obteriam resultados visíveis sobre a organização do MST no Estado. As divergências se deram por que grande parte das lideranças que atuavam no estado acreditava que era necessária uma aliança com a CPT, pois só assim obteriam uma infra-estrutura apropriada para a realização de ocupações, dessa forma houve uma desarticulação entre as lideranças e muitas saíram do movimento. Para este grupo o movimento ainda não possuía um nível de organização que possibilitasse o desenvolvimento de uma ação bem-sucedida.

Ao relatarem a história do movimento no Estado seus líderes destacam as ocupações, reconhecendo o início do movimento apenas a partir da primeira ocupação, realizada na Fazenda Sapucaia, em 1989. Sendo assim, em 1999, foram comemorados os dez anos de movimento na Paraíba.

As lideranças que continuaram no movimento começaram a realizar trabalho de base e a ocupação da Fazenda Sapucaia, no município de Bananeiras ocorreu em 07 de abril de 1989, uma área de cerca de 1204.7 hectares de terra. Os camponeses foram desarticulados de forma violenta durante a madrugada, permanecendo na cidade e posteriormente voltaram a ocupar a terra.

Afirma-se que o despejo foi efetuado pelo chamado "Grupo da Várzea", um grupo formado por fazendeiros que atuou durante um longo período na repressão contra integrantes de sindicatos e de movimentos rurais. A reação violenta a essa primeira ocupação, provavelmente possuía como objetivo inibir outras ocupações, atuando de forma exemplar.

Nesse acampamento morreu uma criança, no entanto apareceram divergências a respeito da causa da morte, segundo o Jornal O Norte de 11/04/1989 citado por Moreira, a criança, Luzia Brito, de cinco meses teria falecido após cair do colo da mãe, quando esta tentava fugir da polícia, mas no relato de uma ex-militante que se encontrava presente na referida ocupação aparece que esta criança já se encontrava debilitada devido a problemas de saúde e que teria falecido com a violência do despejo (Entrevista 3, Moreira, 1997).

Em seguida a essa ocupação, aparece em várias entrevistas que foi realizada em agosto de 1989 a ocupação da Fazenda Maniçoba, no município de Esperança, que contou com a participação de aproximadamente 120 famílias, onde os camponeses também foram desarticulados e buscando providências se alojaram na praça da Bandeira, em Campina Grande durante um período de aproximadamente três meses:

"De lá a gente conseguiu transporte e viemos para Canafístola, de Canafístola a gente passou uma semana enquanto o pessoal tava tentando negociar com o governo vendo se conseguia uma área provisória, não se conseguiu, via no sindicato de Alagoa Grande se nós conseguimos ficar num assentamento mas fazer um acampamento nesse assentamento que se chama Mares em Alagoa Grande. De lá como não houve resultado então foram articuladas mais famílias e a gente ocupou Maniçoba, em agosto de 89. (...) Olha eu sei que eles produziram dois anos na terra eu não sei se foram realmente dois anos aí depois disso não se conseguiu comprar a área, e aí houve o despejo, o despejo foi assim não se conseguiram comprar a área e aí as famílias tiveram que sair da área depois ocuparam novamente a área foram despejadas novamente."
Entrevista 3

Aparecem nas entrevistas que como não conseguiram chegar a um acordo com o governo, as lideranças do MST e as famílias que os acompanhavam desalojadas e realizaram a ocupação da praça da Bandeira em Campina Grande, mas devido a pressões do governo são obrigados a deixar o local.

Entretanto, como não foi desapropriada nenhuma área para alojar os trabalhadores remanescentes da ocupação da Maniçoba, eles resolveram ocupar uma área do governo destinada a pesquisa, o EMEPA, de onde foram despejados. A partir de então ocuparam outra área do governo o Lar do Garoto, sendo novamente despejados.

Após serem despejados do Lar do Garoto e ficarem durante algum tempo alojados no sindicato de Esperança, então ocupam novamente a Fazenda Boa Esperança, no município de Campina Grande que seria expropriada pelo INCRA por ser utilizada por traficantes para plantar maconha, como o INCRA não desapropriou a propriedade os camponeses expulsos por pistoleiros voltam a ocupar a praça em Campina Grande, onde são espancados por policiais. Após esses acontecimentos os camponeses liderados pelo MST voltam a ocupar a Fazenda Esperança onde permaneceram por pouco tempo sendo novamente despejados. Entretanto existem divergências sobre a ordem cronológica das ocupações segundo Moreira (1997) a ocupação dessa área ocorreu em 15 de janeiro de 1992, quando 58 famílias sem terra ocuparam a fazenda. A autora aponta ainda que esse grupo pertencia ao mesmo grupo que havia ocupado a Fazenda de Ivandro Cunha Lima em 1º de maio de 1991, sendo despejados após 48 horas permanecendo na Praça da Bandeira por três meses.

Após esse confrontos o MST ainda realizou algumas ocupações nessa mesma região sem obter sucesso:

"Depois disso aconteceu ainda uma ocupação ainda na região ali entre Aroeiras e Alcantil o trabalho foi feito ali Em Queimadas, Boqueirão, Aroeiras, Campina Grande, toda aquela região ali, isso em 1990. Em 1990 ainda existia a Maniçoba, aí aconteceu essa ocupação só que foi despejada também pelos pistoleiros lá pelos donos da fazenda não se passou quinze dias na área, não foi polícia foi os próprios pistoleiros que despejou a área. Eu sei que foi solicitada a desapropriação, não sei se tem esse registro lá no INCRA, essa área era divisa com o Estado de Pernambuco, e lá em Pernambuco existe muita pistolagem a gente escutava rádio de lá, mas era uma cidade bastante conhecida".
Entrevista 3

Durante esse período a coordenação daqui atuava juntamente com a direção de Pernambuco. Em 1992 as lideranças do MST no Estado decidem que o movimento tem que se expandir para outras áreas, pois apesar de terem sido realizada diversas ocupações o movimento ainda não tinha implementado nenhum assentamento, ocorrendo também a transferência de alguns militantes para outras regiões, assim como começaram a chegar na Paraíba militantes de outros Estados, essa rotatividade de militantes é uma característica do MST, uma das hipóteses da renovação de quadros no Estado são os fracassos das primeiras ocupações. (Entrevistas 2 e 3)

Em 1992, segundo as entrevistas realizadas com militantes e ex-militantes o MST funda sua sede em João Pessoa, e o movimento passa a atuar mais no litoral.

Nesse mesmo ano ocorre a ocupação das Fazendas Sede Velha e Corvoada, antiga Fazenda Abiaí, na cidade de Pitimbu, que ocorreu em primeiro de março com a participação de 280 famílias de assalariados na cana provenientes de Alhandra, Pitimbu, Caaporã, Santa Rita e Bayeux. Essa ocupação provocou grande tensão com os posseiros que lá residiam e eram acompanhados pela CPT. Desse processo resultaram dois projetos de assentamento: Sede Velha do Abiaí, antiga Fazenda Sede Velha e 1º. De Março, originário da Fazenda Corvoada, neste último foram assentados as famílias organizadas pelo MST.(Moreira, 1997, entrevistas 2 e 3). Segundo relato da entrevista 3 esse foi um dos maiores acampamentos realizados pelo MST, onde teriam sido cadastradas 450 famílias, aparecendo uma discrepância com o número famílias apontado por Moreira.

Em abril de 1993 o MST ocupa a Fazenda Barra do Abiaí, no município de Pitimbu, que contou com a participação de 51 famílias de agricultores provenientes da região e que se encontravam desempregados na atividade canavieira. Devido a ação de reintegração de posse movida pela proprietária em 06 de dezembro de 1994, através da polícia militar foi cumprida a ordem de despejo concedida pela justiça, porém como os trabalhadores resistiram a ação de despejo, foi decretada a prisão preventiva de dez pessoas, três delas foram presas e encaminhadas ao 5º. Batalhão de Polícia Militar de onde foram transferidas para o Presídio do Roger, o que provocou revolta em parte da opinião pública. Um dos objetivos que apareceram nos relatos foi o de conseguir desarticular o movimento a partir da prisão de seus líderes. Em março de 95 foi decretada a desapropriação do imóvel que deu origem ao Projeto de Assentamento Teixeirinha. (Entrevista 3, Moreira, 1997).

No ano de 1994 o movimento começa a se expandir para a regional designada Várzea ocupando a Massangana III, que é apontada como um desencadeamento de algumas lutas que ocorreram em Pedras de Fogo. Já em 1995 ocorreu a ocupação do Açude das Graças, onde participaram pessoas dos municípios de Jacaraú, Mamanguape, Mataraca, Rio Tinto, Santa Rita que segundo os relatos se transformaram nos assentamentos Massangana I e Massangana II, onde já existia um foco de resistência dos posseiros que residiam na região. Essa área também era acompanhada pela CPT, cujas divergências com o movimento teria persistido até o ano de 94.

Outras ocupações foram realizadas entre 95 e 97, entretanto as informações sobre o período são bastante fragmentadas:

"Então em 96 o movimento continua indo pra se expandir mas faz uma tentativa aqui na região de Mamanguape, aí consegue a desapropriação, depois desmobiliza o acampamento em 1997 então é quando a gente tá indo pra cá o movimento tinha realizado uma série de atividades e aí então a gente tá no finalzinho do ano setembro/outubro, então resolvemos ocupar - com as famílias que tinham sido despejadas da Bras Frutas - então resolvemos em 7 de dezembro ocupar a fazenda mais próxima ali da Várzea Maraú, hoje assentamento de Canudos, aí então é pela Segunda vez que a gente enfrenta o grupo da várzea novamente e também nesse enfrentamento a gente consegue desbaratinar o grupo armado da várzea."
Entrevista 2

Nesse relato aparece que o grupo da Várzea teria sido praticamente eliminado e depois desse período não foram mais encontradas referências a esse grupo.

Em março de 1998, o movimento ocupa a Usina Borborema, com cerca de 150 a 160 famílias, onde ocorreram vários despejos. No mesmo ano foram relatadas duas marchas: uma rumo a SUDENE realizada em conjunto com outros Estados, que na Paraíba atravessou a região de Mamanguape passando por Parnamirim até o Recife; e a "Marcha em defesa do Brasil", partindo de Cajazeiras, passando em 28 municípios, até João pessoa, inclusive passando por um trecho da BR-230.

Nesse ínterim o MST passou a atuar no sertão da Paraíba e, segundo a Entrevista 2, percebeu que na região era possível:

"(...)fazer a Reforma Agrária no sertão a gente começou a ver que era viável, que também na região do sertão tinha água, tinha terra fértil, tinha o povo que tava desempregado com o sonho de conquistar a terra, então é nesse mesmo período que por onde a marcha vem passando, que a gente vem atrás organizando o povo quando ocupamos o Estreito Pimenta no dia 3 de setembro. Em novembro ocupamos a fazenda Santo Antônio, hoje acampamento Margarida Alves e em dezembro ocupamos a fazenda Jacú, no distrito de Santa Gertrudes, então a partir daquela marcha o movimento começa a se expandir pelo Sertão (...)"

A essa altura o MST se organizava com base em quatro regionais, e através dessa marcha que vem desde o Sertão, o movimento começa a atuar em outra região que passa a ser denominada de Região do Cariri. Nesse mesmo período, segundo os relatos, as famílias que ocuparam a Usina Borborema, em Pirpirituba após vários despejos, vieram para o INCRA, que propôs uma área que foi dada como pagamento ao Banco do Brasil pela Usina Mataraca, no município de Mamanguape. Entretanto essa área pertencia a uma reserva indígena e as famílias foram transferidas para um acampamento na regional da Várzea.

Durante a marcha efetuada pelo Estado o MST, segundo aparecem nas entrevistas, são realizadas várias ocupações: a fazenda Queimadas, no município de Remígio, que se tornou o Assentamento Oziel Pereira, a fazenda Feijão, hoje assentamento São Sebastião, no município de Sumé, a fazenda Soares de Oliveira onde os camponeses foram despejados, logo em seguida ocuparam a fazenda Ipanema, hoje assentamento Chico Mendes, e nesse mesmo ano ocorreu a desapropriação da fazenda Bela Vista.

Além das ocupações e das marchas realizadas no Estado o MST realiza outras atividades como a ocupação de algumas prefeituras, visando protestar sobre algumas medidas de financiamento para a compra de terras feita pelo governo federal.

Segundo informações obtidas na Secretaria Estadual do MST localizada na cidade de João Pessoa, no final de 1999 o movimento possuía 14 assentamentos: Teixeirinha, Nova Vida e Primeiro de Março, situada na Regional do Sertão; Massangana I, Massangana II, Massangana III, Canudos, Chico Mendes e Antônio Conselheiro que fazem parte da regional da Várzea; assentamento Queimadas, hoje Oziel Pereira, na Regional do Brejo com os acampamentos 68 e Lagoa do Jogo; assentamentos Mandacaru, Beira Rio e São Sebastião, na região do Cariri; e não possuem nenhum assentamento na região do Sertão. Além de 7 acampamentos distribuídos: dois na regional do Brejo, Sessenta e oito e Lagoa do Jogo, dois na regional do Cariri, Canoa e Tamanduá e três na regional do Sertão, Liberdade, Margarida Maria Alves e Estreito Pimenta.

Um fato interessante para posterior análise seriam os nomes que são dados aos acampamentos e assentamentos como é o caso dos assentamentos Chico Mendes, Canudos e de alguns acampamentos como é o caso do Acampamento Margarida Maria Alves, acampamento João Pedro Teixeira, entres outros que evidencia uma preocupação em escolher nomes marcantes no cenário político.

Em janeiro de 2000 foi realizado o encontro nacional com aproximadamente 250 delegados onde foi eleita a nova direção estadual, além da direção das regionais organizadas.

Podemos observar no decorrer das entrevistas a ênfase que o MST dá as ocupações: a história contada é a história das ocupações, embora apareçam nos relatos outras formas de ação como as marchas, os encontros, o trabalho de base, ocupação de prefeituras, entre outros, essas atividades não são destacadas pelos participantes embora elas tenham grande importância na visibilização do movimento e na formação da opinião pública.

A história do movimento aqui na Paraíba é bastante fragmentada devido principalmente a ausência de registros escritos e ao próprio esquecimento dos participantes, parece que sua própria história foi marcada por interrupções. Os relatos geralmente são entrecortados por dúvidas quanto a datas ou mesmo questões mais específicas como o local das ocupações, como ocorreram e etc. Essa é uma grande dificuldade na organização da história provocando lacunas que poderão ser preenchidas com outras pesquisas que dêem continuidade a que foi realizada.

O MST na Paraíba teve inúmeras dificuldades para penetrar no Estado. Muitas delas ocorreram dentro do próprio movimento, que iniciou o processo de ocupações na Paraíba, a partir de determinações feitas pela direção nacional, sem levar em consideração as condições as condições econômicas, políticas e culturais locais resultando no fracasso dessas primeiras ocupações.

Além dessas dificuldades a relação conflituosa com a CPT, com as críticas feitas a forma de atuação do movimento e as disputas por áreas também influenciaram nesse processo, já que a Igreja possuía grande influência sobre a população rural.

Aspecto importante a ser levado em consideração é o autoritarismo e a violência da forma de dominação dos proprietários de terra, que buscavam através da força atuar de maneira exemplar inibindo novos conflitos por terra.

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Notas

1) Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (campus I - João Pessoa).

2) Ver MOREIRA, Emília. (1997). Por um Pedaço de Chão. 2v. João Pessoa: Editora Universitária - UFPb.

3) Ver SILVA, Luciana Henrique da. (2000). O MST na Paraíba: a história contada por seus participantes. João Pessoa: Bacharelado em Ciências Sociais - CCHLA - UFPb (Monografia de Conclusão de Curso).

Fonte:

http://www.cchla.ufpb.br/caos/index.html

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