sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A SECA COMO MANISFESTAÇÃO POLÍTICO-SOCIAL: OLIGARQUIAS E CANGAÇO NA PARAÍBA


TEXTO: LÚCIA DE FÁTIMA GUERRA FERREIRA


INTRODUÇÃO


O fenômeno climático das secas remonta ao período colonial da história do Brasil com efeitos sobre as tribos indígenas nordestinas, que instituíram certas práticas para suportarem suas conseqüências. A expansão da conquista portuguesa para o interior através da pecuária e posteriormente com a lavoura algodoeira, e o aumento do contingente populacionais, dentre outros fatores, fizeram com que os efeitos das secas se tornassem catastróficos.

Sobre as secas do período colonial existem poucos relatos, mas no período imperial esses trabalhos se evoluam em relatórios de viajantes estrangeiros no Brasil e os primeiros estudos oficiais sobre a região das secas.

João Gonçalves de Souza apresenta uma sistematização cronológica dos estudos elaborados e das propostas de ação contra os efeitos das secas (1979 – 77/81), Percebe-se claramente que a maioria desses estudos dizem respeito ao Ceará, enquanto que as demais províncias ficaram desfalcadas de estudo específicos. A Paraíba possui poucos trabalhos substanciais, valendo contudo destacar as memórias do engenheiro Francisco Pereira da Silva (1847 e 1848), um relatório e uma memória do engenheiro Francisco Soares da Silva Retumba (1886, e o relatório do engenheiro Joaquin Nogueira Jaguaribe (1889).

Com a seca de 1877/79, amplia-se o debate sobre o problema das estiagens prolongadas, com sessões no Instituto Politécnico do Rio de Janeiro. A partir daí, são realizados estudos e pesquisas, ainda que de forma aleatória, até a criação de órgãos específicos para tratarem do assunto na República Velha, quando esses estudos adquirem uma certa sistematização e periodicidade. Na verdade foi a Inspetoria de Obras Contra as Secas, criada em 1909, que institucionalizou a pesquisa sobre as condições do semi-árido nordestino, sendo o seu período inicial de atuação o mais profícuo em estudos e publicações, contando com um verdadeiro exército de cientistas brasileiros e principalmente estrangeiros, a fazer levantamentos geográficos, pluviométricos, hidrográficos, mapeamentos cartográficos, etc.

De um modo geral, o estudo das secas sob os aspectos técnicos já foi elaborado e reelaborado, contudo o tempo passa e as secas continuam não só a acontecer, nas principalmente a Ca flagelos à população sertaneja.

Isso se dá, não por incompetência ou inviabilidade das propostas apresentadas, mas essencialmente devido a interesses políticos e econômicos que o fenômeno das secas envolve.

Daí a importância de compreender a ligação entre os interesses oligárquicos e a perpetuação das secas, bem como a eclosão de movimentos sociais nos períodos de seca. Segundo Rui Facó, “contra a fome e a miséria que aumentam com a seca, manifestam-se dois tipos de reação da parte dos pobres do campo”:

· a formação de grupos de cangaceiros que lutam de armas nas mãos, assaltando fazendas, saqueando comboios e armazéns de víveres nas próprias cidades e vilas;

· a formação de seitas de místicos-fanáticos em torno de um beato ou conselheiro para implorar dádivas aos céus e remir os pecados, que seriam as causas de sua desgraça”.


SECAS E OLIGARQUIAS


A relação entre secas e oligarquias é firmada a partir do momento em que a intervenção do Estado se faz presente. No decorrer do processo do desenvolvimento capitalista no Brasil, tanto a ação do Estado como os mecanismos utilizados pelas oligarquias se alteram, mas seu fim último permanece.

Desde período imperial, os municípios brasileiros encontravam-se sob o domínio de autoridades locais, representantes da estrutura agrária e escravista, apesar de todo o centralismo característico do Império brasileiro. Com a implantação do regime republicano esse poderio floresceu. A nova estrutura eleitoral, estendendo o direito de voto aos cidadãos alfabetizados independente das barreiras econômicas do sistema eleitoral imperial, aumentou o número de eleitores que garantiu aos chefes políticos locais manterem-se no poder indefinidamente.

A fase da Primeira República é marcada pela política de compromissos entre os segmentos da classe dominante brasileira, do coronel municipal ao presidente da República. Esta articulação ocorria da seguinte forma: “... ao mesmo tempo em que assegurava o poder às oligarquias regionais, a Política dos Governadores constituía-se numa política de compromisso nacional no sentido que imprimia uma coordenação nos três níveis de governo: a Presidência da República, mas cabia aos Estados a mediação dupla. No âmbito Federal, constituíam, através de suas bancadas, a base de sustentação do Governo (SIlVEIRA, 1878:173).

A estrutura de poder na Paraíba nesse período segue as linhas mestras do Estado Oligárquico instituído no Brasil. Sendo uma das características do sistema oligárquico a utilização dos benefícios proporcionados pelo Estado à população como oferta da própria oligarquia, as nordestinas lançam mão de um rico veio que é a ajuda federal em tempos de calamidades públicas: as secas.

A apropriação de verbas destinadas a atender os flagelados (Gêneros alimentícios, medicamento, etc.) ou construção de obras para outros fins, remontam ao final do século XIX e persistem até os dias de hoje. Referindo-se a seca de 1877, Roger cunniff caracteriza o nascimento da chamada “indústria da seca” nos seguintes termos: “...

“... Esta seca legou convencer a alguns que somente com largas injeções de dinheiro vindas de fora, eles poderiam continuar o desenvolvimento do interior e vencer seus velhos problemas (...) Ensinou aos nordestinos como fazer uma indústria das secas proporcionando um legado que serviu para dominar a política regional no próximo século”.

A “indústria da seca” pode ser visualizada em dois níveis: o local, onde ocorriam os desvios diretos de verbas e gêneros alimentícios por membros das comissões de socorros públicos, juntamente com tropeiros e comerciantes; e o nacional, com a conscientização dos representantes nordestinos no sentido de aproveitar e usar as secas como meio de conseguirem investimentos governamentais na região. Transcrevemos abaixo um trecho de um relatório do residente do Rio Grande do Norte em 1890, cujos pontos levantados demonstram a existência da “indústria da seca” e pensamos não diferir muito da situação na Paraíba: “em virtude da terrível seca que, desde o começo do ano passado, tem assolado este Estado, mais de trinta mil pessoas caíram em profunda e desoladora miséria. Mas, se a seca tem sido uma calamidade, maior calamidade ainda têm sido os socorros, na direção desse serviço. Fez-se dos socorros público um meio de arranjados eleitoras; estabeleceram-se comissões em todos os pontos do Estado, formadas com amigos particulares do Governo, as quais eram entregues grandes somas de dinheiro e grandes quantidades de farinha de mandioca, para distribuírem a o seu bel-prazer. O socorro era um favor dos amigos, e até hoje ainda não se fiscalizou verdadeiramente as despesas feitas com esse serviço.

O primeiro governo republicano na Paraíba, com Venâncio Neiva, encontrou o Estado enfrentando as conseqüências de uma seca que havia iniciado no regime imperial. Apesar das críticas da propaganda republicana, a política de socorros públicos imperial, o novo governo em nada alterou aquela política.

Durante o domínio da oligarquia alvarista, a Paraíba enfrentou a seca de 1903 e os repiquetes de 1898, 1900 e 1908 que muito abalaram a população e a economia do Estado. A ação da oligarquia seguia os moldes em uso, como a instalação de Comissões de Socorros Públicos em diversas localidades distribuindo, remédios e sementes. E as reclamações e denúncias eram também as de sempre, ou seja a má distribuição e os desvios da ajuda que mal chegava, às mãos da população carente.

As verbas para construção de obras eram aplicadas sem planejamento nem preocupação com a sua conclusão. Dentre os desvios denunciados neste período, um deles refere-se ao entesouramento da verba dos socorros em função do pagamento futuro do funcionalismo estadual.

A partir da criação da IOCS, posteriormente alterada para inspetoria federal (IFOCS) e departamento nacional (DNOCS), a política de socorros públicos é bastante modificada. Não mais ocorre a distribuição gratuita de gêneros alimentícios nem a construção de obras públicas que não digam respeito diretamente a prevenção aos efeitos da seca. Agora os flagelados são utilizados sistematicamente na construção das ditas obras preventivas e recebem um pagamento, que tanto podia ser em dinheiro como em espécie. No período inicial desse órgão as obras restringem-se a açudes públicos e particulares, perfuração de poços e estradas carroçáveis e de ferro.

Assim, os coronéis perdem o controle que tinham diretamente da distribuição dos socorros e os privilégios daí decorrentes. Porém novos meios são utilizados, visando o mesmo fim - extrair benefícios da ocorrência das secas e dos recursos para a sua prevenção, quais sejam: conseguir que o curso de determinadas estradas passe próximo as suas propriedades; construção de açudes públicos em terras particulares nunca desapropriadas; prêmios pela construção de açudes particulares, exploração de barracões para a venda de gêneros alimentícios, além de continuar garantida a manutenção da mão-de-obra na região, evitando o seu encarecimento no período pós-seca. Em síntese, este órgão federal é capturado pelos chefes municipais e oligarquias estaduais que se tornaram os maiores beneficiados pela nova política instituída.

Durante o domínio da oligarquia epitacista, a Paraíba enfrentou as secas de 1915/16 e a de 1919/20. Estando a IOCS/IFOCS em pleno e normal funcionamento, os coronéis ligados ao epitacismo não precisaram mais esperar por uma seca para usufruir econômica e politicamente os benefícios em seu nome. Com a ascensão de Epitácio à Presidência da República (1919/1922) altas verbas foram investidas no Nordeste, fazendo parte de um plano de extinção dos problemas das secas. Estas verbas longe de solucionar o problema das secas reverteram-se para a manutenção e reforço dos setores dominantes da região frente a população realmente flagelada pelas secas.

O estudo do governo Epitácio Pessoa é bastante interessante, pois revela o desenrolar de atritos entre as frações da classe dominante brasileira, localizadas em regiões diferenciadas e com solicitações diversas também, tipo café versus seca. O que na verdade não leva a um enfretamento nem conflito entre os segmentos de uma mesma classe dominante. Contudo é importante o registro dessas arestas, e os jornais da época o fazem: enquanto os jornais do Distrito Federal promoviam uma forte campanha de oposição e crítica aos gastos federais na região nordestina, os jornais do Nordeste e especialmente da Paraíba não mediam elogios e esta mesma política.


SECAS E GANGAÇO


Na bibliografia existente sobre o cangaço nem sempre os autores concordam entre si com relação aos fatores determinantes e geradores deste fenômeno social.

Segundo Rui Facó, um dos caminhos para o cangaço começava com as dificuldades provenientes das secas pois, muitos sertanejos engajavam-se “nas chamadas obras contra as secas durante uma das calamidades periódicas. Chegadas as chuvas no ano seguinte, em geral as obras não prosseguiam, pois tinham mais por finalidade reter ali mão-de-obra excedente para o latifúndio. Uma vez que não podia absorver toda mão–de-obra disponível, os desocupados procuravam outro meio de vida, nem que fossem os assaltos armados, entrando para um grupo de cangaceiros”.

Para Maria Isaura Pereira Queiroz, que segue linha semelhante a Rui Facó, “o cangaço independente começou, pois com um período de marasmo econômico para as populações do Nordeste, devido às circunstâncias específicas de seu próprio meio, haviam sempre recorrido à complementações ocupacionais e financeiras fora dele; no período em questão, o meio exterior na da lhes oferecia, e a maior parte da população via-se confinada aos seus próprios recursos.”

Outros autores com Billy Jaynes Chandler superestimam o aparecimento do banditismo neste período. A fragilidade das instituições responsáveis pela lei, ordem e justiça também contribuiu grandemente.

Sem encontrar garantia de proteção nem do patrão, nem do Estado, muitas destas povoações do sertão se transformaram em verdadeiras selvas, onde cada um lutava por sua sobrevivência. “Paro, portanto, certo que o aparecimento do cangaço esteja intimamente ligado a este estado de desorganização social.”

Apesar das diferenças quanto ao determinante político ou econômico, alguns dos os autores são unânimes no que diz respeito a influência das secas que no surgimento de grupos de cangaceiros, quer na sua expansão. Chandler coloca que, “o banditismo geralmente florescia durante as secas mais intensas e se agravou durante o final da década de 1870. Embora já existisse em tempos normais, é muito provável que a freqüência com que as secas se repetiam no final do século XIX e início do século XX contribuiu para aumentar o nível de violência que caracterizou o cangaço”. E Queiroz a afirmar que, durante as secas, o engajamento no cangaço independente era o melhor meio para garantir a sobrevivência e, ao mesmo tempo, adquirir prestígio. Sobrevindo a falta de oportunidade de trabalho em regiões externas ao Nordeste, onde o sertanejo ia buscar um ganho suplementar indispensável, o cangaço independente novamente supriu os meios que faltavam e permitiu aos indivíduos mais ativos e inquietos uma oportunidade para afirmação de sua personalidade”.

Durante muito tempo existiram os “coutos” espécies de esconderijos onde se agrupavam fugitivos da sociedade, desde escravos fugidos, remanescentes de movimentos revoltosos até criminosos e ladrões, que se constituíam em grupos de bandoleiros com a tolerância de algum coronel das proximidades, esses grupos atuavam tanto em benefício próprio como em benefício dos coronéis a eles ligados.

Segundo Carlos Alberto Dória, os primeiros grupos de cangaceiros autônomos, sem a ambigüidade dos Valhacoutos surgiram durante a seca de 1877/79, com a proliferação de diversos grupos que às vezes lutava entre si, e outras aliavam-se para algum grande empreendimento (1982.33).

A atuação dos cangaceiros na Paraíba durante a seca de 1977/79 é relatada por José Américo de Almeida, cuja ênfase é dada à proliferação desses grupos com elementos que escapam das cadeias municipais arrombada; afirmado os grupos: o de Calandro, evadido da cadeia do Grato e cabeça dos 60 assalariados de Inocêncio Vermelho; o de Sebastião Pelado, inimigo dos primeiros; o dos Irmãos viriato, formado de mais de 40 bandidos; o dos Matheus e outros”.

Dentre os cangaceiros destacam-se as figuras de Jesuino brilhante, Antonio Silvino e Vígulino Ferreira da Silva, o Lampião, que lideraram por longa data bandos organizados .

Na seca de 1877/79, já referida, firmou-se o mito de Jesuíno Brilhante tipo do cangaceiro herói, justiceiro, protetor dos flagelados e da ordem Arthur S.F eid aborda este período nos seguintes termos: Eclode e grande seca. De 1877. Esta atinge a todos, inclusive os bens de Jesuino.

Ajuda os retirantes, inicialmente com mantimentos ainda seus. Posteriormente assalta comboios de alimentos do governo, distribuindo-os aos esfomeados. À justiça, adiciona-se a prática redistributiva de Jesuino Brilhante. Quando assalta os comboios do governo, justificavam-se pela administração dos comissários do governo, responsáveis pela administração dos socorros governamentais às vítimas da grande seca de 1877. Em legitima sua atitude como não atentatória à propriedade privada.

De 1896 a 1914 destaca-se o grupo de Antonio Silvino, que resistiu o quanto pode à modernização em curso no sertão nordestino, perseguido correios, queimando correspondência, cortando fios de telégrafos, arrancando da reat Western e saqueando empreiteiros das obras ferroviárias. Também tem seu nome ligado a prática de ações em prol dos pobres e desvalidos. Em 1912, Antonio Silvino Ligou-se a oposição ao governo da Paraíba, apoiando Franklin Dantas e Santa Cruz, em Alagoa do Monteiro, Favoráveis à deposição da oligarquia civil e a instauração da política salvacionista do Presidente Hermes da Fonseca , que na Paraíba tinha a frente o militar Rego Barros, apoiado pelo General Dantas Barreto, vitorioso em Pernambuco. Apesar de a salvação instalar-se em Pernambuco, o mesmo não aconteceu na Paraíba devido a acordos entre as oligarquias e o governo federal, mediados por Epitácio Pessoa.

Em conseqüência do crescimento da onda do banditismo aliado a agitação política, foi feito um pacto entre as elites dominantes para implementar uma perseguição conjunta e intensa aos grupos de cangaceiros, que foi assinado em 1912 pelos governos dos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Esse acordo foi renovado e reforçado por iniciativa do governo de João Pessoa em 1928, e só contou com a confirmação dos Estados de Pernambuco e Ceará. Um dos pontos inovadores foi a permissão para a perseguição de cangaceiros além das fronteiras do Estado, ou seja, ficava permitida a livre entrada da polícia de um Estado em outro.

A atuação de Lampião cobre o período de 1918 a 1938, sendo que nos primeiros quatro anos como integrante do grupo de Sinhô Pereira. No decorrer desse tempo Lampião atuou em todo o sertão nordestino, fixando-se temporariamente em determinadas áreas.

De 1923 a 1926, o seu raio de ação restringiu-se praticamente a área fronteiriça dos Estados de Pernambuco e da Paraíba, mais precisamente a altura da comarca de Princesa, já que Lampião mantinha relações de amizade com o sogro e o cunhado do coronel Zé Pereira, chefe político local.

Nesse período destaca-se o ataque a cidade de Sousa pelo grupo do cangaceiro paraibano Chico Pereira, cujo objetivo era não só o saque e a pilhagem mas também atacar o seu chefe político Otávio Mariz. Após o ataque a Sousa, o coronel Zé Pereira retirou o apoio ao grupo de Lampião, que teve de seguir para outras paragens.

Em meados de 1926, Lampião recebeu um chamado do Padre Cícero, para ir ao Juazeiro e lá se acertou a participação do seu grupo ao combate a Coluna Prestes, que percorreu o interior brasileiro de 1925 a 1927.

Lampião chegou a receber a patente de Capitão de armas e munição, mas não chegou a ocorrer enfrentamento entre os dois grupos.

Durante os vinte anos de atuação de Lampião alguns períodos foram de recolhimento e até de dispersão do bando, para em seguida retornarem a labuta.

Em várias mensagens dos presidentes do Estado da Paraíba encontram-se referências ao banditismo e ao cangaceirismo no que diz respeito a perturbação da ordem pública e a atuação da força pública na sua repressão.

João Suassuna, presidente do Estado de 1924 a 1928, em uma de sua mensagem refere-se ao cangaço e a sua repressão nos seguintes termos:

“Sinto-me contente de render esse tributo de justiça aos que souberam cumprir nobremente o dever, e o faço com a profunda convicção de que a Parahyba sempre honrou o seu, e exaurindo-se na luta e sendo alvo do ódio e da vindicta dos malfeitores quando encontravam nos territórios vizinhos seguros esconderijos, elementos de combate em homens e munições.

Amargamos essa delicada situação por meses e anos a fio, com perdas de vida, sacrifícios de recursos e perturbação econômica para a riqueza pública, na esperança de que o mal se curasse ao menos pelo próprio excesso. Nunca registrara nos anais do banditismo o efetivo de centenas de malfeitores, armados a fuzil Mauser e tão municiados como as forças que os perseguiam, mas era essa triste situação quando começaram a agir as dignas autoridades a que com respeito, já me referi, demonstrando que a deprimente calamidade era fruto da inação e desinteresse na campanha. Jugulada a malta capitaneada pelo hediondo Lampião, não mais sofremos incursões de cangaceiros, reentrou a nossa terra na tranqüilidade de que sempre gozara mas tinha o meu governo sacrificado parte do seu programa, pelo tempo e dinheiro absorvido na luta dos seus primeiros três anos e de que toda a Parahyba pode dar caloroso testemunho. Para enfrentar com eficiente galhardia os encargos do combate, teve o governo de adotar dispendiosas medidas: construção de quartéis para destacamento de vulto no interior; aumento do efetivo da força; aquisição de armas e munições, veículos e custeio de transporte; manutenção de vários contingentes volantes, só há pouco dissolvidos.

Contudo, é no governo de João Pessoa, que este assunto é mais discutido e trabalhado a nível administrativo, não só com a renovação do acordo já referido, mas sobretudo pela nova tática de combate ao cangaceirismo na Paraíba cerceando o seu abastecimento de armas. Foi a chamada política do desarmamento total, como expressa bem a sua mensagem: “... ainda mais inflexível me tornei contra o banditismo, normalmente contra os protetores de cangaceiros, certamente a causa principal da permanência a difusão desse flagelo. No dia imediato a minha posse no governo convoquei uma reunião de todos os chefes políticos presentes. Para lhes manifestar, de viva voz, o empenho em que estava e estou a perseguir, de preferência, os protetores de bandidos de proteção ao bandidismo, cuja causa principal eram os pequenos arsenais com que os fazendeiros desabusados costumavam abastecer os grupos afeiçoados.

Daí, o meu empenho de promover o desarmamento geral, posto em prática sem distinguir entre amigos e inimigos, humildes e poderosos tendo já atingidos alguns chefes da situação. Se nem todos chegaram ao ponto de fornecer armas e munições livremente, muitos era desapossados, com violência, desse material que supria os bandos esgotados, valendo tal concurso involuntário como um fator do cangaceirismo.

João Pessoa organizou um serviço de guarnecimento das fronteiras do Estado, fazendo remanejamento de tropas, além de instalar o rádiotelégrafo ligando a capital com as forças do interior para o pronto atendimento aos pedidos de socorros. Por trás dessa parafernália contra o cangaceirismo, que era mais de prevenção pois nesse período a Paraíba não estava sofrendo investidas de nenhum grupo, o objetivo principal de João Pessoa era o fornecimento do aparelho do Estado frente aos coronéis.

Com a Revolução de 1930, após os primeiros anos de instabilidade no novo governo federal, o Estado brasileiro lançou-se na campanha de combate ao banditismo como nunca ocorrera antes, unificando a ação de perseguição a Lampião e colocando a cabeça dos principais cangaceiros a prêmio. Contudo, o cangaço ainda resistiu até 1940, quando foi liquidado o último grupo, liderado por Corisco.


CONCLUSÃO


A compreensão das secas não apenas como fenômeno climático mas sobre tudo relacionada com a estrutura sócio-econômica e política no decorrer da história brasileira é de vital importância para o entendimento da persistência de certas práticas nos dias de hoje.

No estudo das secas nordestinas fica evidenciada com clareza que a persistência de seus efeitos deve-se a ação das oligarquias locais sempre se apropriando dos recursos destinados a população flagelada, além de não interessar a esses grupos o fim de tão de tão rico veio de verbas.

Com relação ao cangaço percebe-se que de um modo geral, este movimento sempre perseguido pela ordem constituída, na verdade foi bastante tolerado enquanto era interessante tolerar e tirar proveito, mas a partir de alterações dentro da constituição do estado burguês principalmente no pós-30 a repressão ampliou-se até a sua extinção. Contudo, vale lembrar que o fim do cangaço não se deve exclusivamente ao aparelho repressivo, as conhecidas “volante”, mas, também as alterações sócio-econômicas e políticas que reduziram as condições de organização dos bandos de cangaceiros.

Na verdade os problemas aqui abordados: oligarquias, secas e cangaço têm um fio condutor e explicativo que é a estrutura agrária e fundiária do Nordeste. Esperamos que o debate que se seguirá aprofunde determinados pontos apenas referenciados neste trabalho.


BIBLIOGRAFIA


ALMEIDA, Horácio de – A História da Paraíba. 2 ed. João Pessoa. UFPB, 1978,2

ALMEIDA, José Américo de – A Paraíba e seus problemas 3 ed. João Pessoa, A UNIÃO, 1980

ANDRADE, J. Lopes de – Oligarquias, secas e açudagem. João Pessoa, UFPB, 1980

Guarabira





Encravada na Microrregião do Piemonte da Borborema – ao pé da Cordilheira do mesmo nome – Guarabira é chamada Rainha do Brejo, pelo fato de ser a principal cidade-pólo de um região que se caracteriza pela regularidade de chuvas. A cidade é privilegiada até, em sua localização geográfica. Situa-se a 98km da capital João Pessoa; a 100 km de Campina Grande, maior cidade do interior do Nordeste; a 198 km de Natal, a capital do Rio Grande do Norte; e a menos de 250 km do Recife, a capital de Pernambuco.
Tendo como primeiros habitantes os índios Potiguaras, pôr volta do século XVI, conta hoje com uma população de 54.200 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A fundação de Guarabira vem do ano de 1694, em terras do Engenho Morgado, pertencente a Duarte Gomes da Silveira. Seu nome, segundo alguns entendidos da língua tupi-guarani, quer dizer berço das garças. As primeiras residências, edificadas pelos portugueses e holandeses, dariam, mais tarde, origem a cidade, que em virtude de sua localização e da excelência de seu solo tornou-se dona de grande prestigio e influência nas cercanias.
Em 1755 chegava a Guarabira, José Rodrigues Gonçalves da Costa Beiriz com sua família, construindo uma capela e colocando a imagem de "Nossa Senhora da Luz" que trouxera de Portugal. Esta tornou-se a padroeira da cidade, embora o padre João Milanês já tivera construído a primeira da cidade, a capela de "Nossa Senhora da Conceição", em 1730.
Por volta de 1830, a povoação de Guarabira apresentava os primeiros sinais de crescimento em vários setores, destacando-se os maiores progressos na agropecuária, no comércio e na indústria açucareira.
O progresso citado despertou os legisladores provinciais à necessidade de transformar a povoação em vila. Por força da lei de 29 de Novembro de 1832, foi constituído o Distrito de Paz; O Povoado foi crescendo e, em 1837, foi elevado à condição de Vila, com o nome de Independência, através da Lei Provincial n.º 17 de 7 de Abril de 1837, instalando-se efetivamente no dia 11 de novembro do mesmo ano. A paróquia de Guarabira foi fundada a 27 de abril de 1837 na época da antiga Vila de Independência
Vinte anos depois, no dia 10 de outubro de 1857, foi criado a Comarca de Guarabira.A Comarca foi criada, a 10 de outubro de 1857, um ano após extinta, e restaurada em 1870. Novamente extinta em 1871 e definitivamente restabelecida, a 25 de Julho desse mesmo ano.
Finalmente em 26 de novembro de 1887, o presidente Francisco de Paulo Oliveira Borges, assinou, a lei 841, elevando a categoria de cidade, a Vila da Independência com a denominação de Guarabira.



A chegada do trem e o impulso comercial na região



Na passagem do século XIX para o século XX, o principal benefício à economia paraibana se fez notar pelo transporte ferroviário, que conjugado ao comércio fixaria importante função no fortalecimento e desenvolvimento de algumas cidades paraibanas, entre os anos de 1870 e 1920. Na Paraíba, a notável associação da estrada de ferro com o algodão, que dela se valeu para alcançar o porto de Recife, o que tornou Campina Grande um ponto estratégico, consolidando a nova condição de empório revendedor de algodão. Partindo da capital, o primeiro trem correu em 1881, chegou a pilar em 1883, Guarabira em 1884 e Cabedelo em 1889. O historiador José Otávio de Arruda Melo comentando o assunto afirma: Itabaiana, Alagoa Grande e Bananeiras constituíra outros casos típicos. Na primeira o trem apoiou a feira de gado para acarretar a urbanização, pontilhada entre 1900 e 1920, de bondes, jornais, luz elétrica, clubes e artístico coreto, com vários desses equipamentos importados do Recife. Em Alagoa Grande saraus e recitais de canto realizavam-se no teatro Santa Inês. Por seu turno consorciando café e ferrovia.Bananeiras encheu-se de praças, sobrados, casarões. Patronato agrícola e obras de drenagem de seu riacho, além de revistas e jornais. Sua elite intelectual era uma das melhores do estado (MELO, 1997, p. 161-162).
Vale ainda, segundo o mesmo, ressaltar que:
Pelo oeste, a ferrovia penetrou em território paraibano, no esquema das obras contra as secas e por intermédio da Rede Viação Cearense, Através de Antenor Navarro em 1923, com extensão a Sousa em 1926, e Pombal em 1932. de Antenor, ramal alcançou Cajazeiras, também por imposição de algodão em 1926 e chegaria a patos em 1944 (op. cit., 1997, p.160).
A Vila da Independência (atual Guarabira) foi bastante beneficiada com a introdução desse traçado ferroviário. A vila tornou-se importante entreposto comercial, contribuindo dessa maneira para o seu desenvolvimento urbano. Foi nesse clima de progresso e entusiasmo que a Vila da Independência foi elevada a categoria de cidade com o nome de Guarabira. “Riquezas começaram a surgir, e da noite para o dia ergueram-se casarões e sótãos na rua da matriz e nas ruas ao redor delas. O trem de passageiros e de carga cortava a cidade, trazendo o progresso ao comércio local e toda a região polarizada pelo município de Guarabira” (MELO, 1999, p.69).
A estação de Independência foi inaugurada em 1884 pela E. F. Conde D'Eu. Foi ponta da linha que vinha desde o Recife de 1884 a 1904, quando se completou a ligação com a estação de Nova Cruz, já no Rio Grande do Norte, unindo a partir de então Recife e Natal por ferrovia. Mais tarde, o nome da estação foi alterado para o atual, Guarabira.



Poder Político – Intendentes, Conselheiros e Prefeitos


1. Intendentes e Conselheiros



A partir de 1889, com a Proclamação da República, as câmaras municipais são dissolvidas e, em seu lugar, criado um Conselho de Intendência cujos membros eram nomeados pelo governo estadual, no qual seu presidente, o Intendente era o administrador. Antes, não havia o Conselho de Intendência e sim o Conselho Municipal, também formado pelos Vereadores, e seu presidente era quem administrava o Município. A primeira Constituição Republicana de 1891 é omissa em relação ao poder municipal deixando essa questão para as Constituições estaduais. Com a estabilização do governo republicano, os conselhos municipais prosseguiram funcionando até 1930, exercendo apenas funções legislativas, quando foram fechadas pelo governo de Getúlio Vargas.
Continua a existir, na maioria das vezes, no entanto, uma coincidência entre o cargo de intendente e o de presidente da Câmara(ou Conselho Municipal), conquanto ele agora seja um líder comum para dois poderes distintos, o executivo e o legislativo, tendo sob seu poder, portanto, duas máquinas independentes uma da outra. Designado pelo presidente de cada estado da federação, o intendente, sendo muitas vezes presidente do corpo legislativo municipal, continuava a ser eleito, primeiro, por seus pares, vereadores.
Na Paraíba, o Governador Venâncio Neiva, ao decretar a dissolução das antigas Câmaras Municipais do Império, criou os Conselhos de Intedência Municipal com as atribuições administrativas destas. Os Conselhos eram compostos por três membros titulares e igual número de suplentes. Para Guarabira, no ano de 1890, foram nomeados os seguintes intendentes: José Maria de Andrade (presidente); Firmino Alves Pequeno ( Vice-presidente), Francisco de Paiva Ferreira (1ºsecretário).
Esses cidadãos negociaram coletivamente suas funções em 1891 e foram substituídos por novos titulares, sendo eles: José Álvares Pragana(presidente); José Severino de Araújo Benevides (vice-presidente) e José Leônidas (1º secretário).
Dado a instabilidade dos primeiros anos do regime republicano, essas instituições eram facilmente dissolvidas, surgiram outras com idênticas finalidades administrativas. Foi o que ocorreu com os Conselhos de Intendências, que foram substituídos pelos Conselhos Municipais logo após a promulgação da Constituição em 24 de fevereiro de 1981.
A primeira eleição para a escolha de conselheiros municipais, realizou-se no dia 9 de abril de 1893. Devem ter sido escolhidos os membros que fizeram parte da última mesa da Câmara Municipal foram, na época de sua extinção. Os possíveis membros para constituírem o Conselho Municipal foram: Olímpio Nunes Pereira, Joaquim da Costa Farias, Moisés Pereira Martins e José Mendes da Silva.



2. Prefeitos Municipais



O cargo de Prefeito Municipal foi criado pelo Presidente Álvaro Machado, através da lei 27, de março de 1895. Anteriormente a administração municipal estava confiada ao Conselho Municipal. A 25 de outubro de 1890 uma lei declarava extinto o cargo de Prefeito Municipal e determinava o retorno à situação anterior, com a administração confiada ao Conselho Municipal.
A Lei nº 221, de 14 de novembro de 1904, restaura definitivamente a função executiva municipal, ato assinado pelo governo do presidente Álvaro Machado, com seu regresso ao poder da Provincia.


Os Primeiros Prefeitos de Guarabira (1896-1935)



Os primeiros prefeitos que exerceram o cargo no período entre 1896/1935 foram nomeados pelo governo provincial. Naturalmente escolhido entre as elites mais proeminentes do Município.
O primeiro prefeito nomeado pelo governador foi o coronel Francisco Joaquim de Andrada Moura (Cel. Quincas Moura). Tomou posse no dia 24 de janeiro de 1896, deixando o cargo em 1900 quando o cargo de prefeito foi extinto.
Restaurado o cargo de Prefeito, foi escolhido o Sr. Manoel Simões para administrar Guarabira. Foi nomeado em 1905 e ficou à frente da Prefeitura Municipal até o ano de 1909. Sua maior preocupação foi aterrar a lagoa central da cidade, já que o impaludismo atacava a população e o mosquito infectava as suas águas. O seu sucessor, o médico Luís Galdino Sales, continuou o aterro da lagoa central, concluindo a obra de seu antecessor. Seu grande trabalho foi tornar as ruas da cidade transitáveis em dias de inverno, mantendo sempre limpa os arredores da lagoa aterrada e adjacências.
Sucedeu-lhe no cargo o coronel João de Farias Pimentel, que administrou o município entre os anos de 1912 a 1915. Proprietário do engenho Espinho, no distrito de Cuiteji, foi membro da Guarda Nacional, ocupando a função de Coronel. O mesmo era pai do ex-prefeito João de Farias Pimentel Filho e avô do ex-prefeito e ex-deputado Jáder Pimentel.
Entre os anos de 1915/1918 exerceu o cargo de prefeito de Guarabira, um dos mais destacados comerciantes da cidade, sendo proprietário do magazine “Pai da Pátria”, loja mais sofisticada do centro da cidade. Foi dele o primeiro automóvel da cidade, um Ford luxuoso e confortável.
O Dr. Manoel Lordão, médico natural de Campina Grande, governou o município entre os anos de 1918 a 1920. Tornou-se major da Guarda Nacional e proprietário rural, cujas terras localizavam-se próximo à sede municipal. A rua, que hoje ocupa seu nome, chamada “Boi Chôco”, uma parte deste perímetro urbano lhe pertenceu por muitos anos. O mesmo foi assassinado no ano de 1926, vítima de uma emboscada quando chegava em sua casa.
Seu sucessor foi o coronel Osório de Aquino, líder político mais antigo do município. Próspero pecuarista e fazendeiro, o coronel Osório, que foi casado com Maria de Sá e Benevides, do município, conseguiu tornar seu filho Osmar no melhor bacharel em Direito de Guarabira e no maior representante do povo brejeiro, na Câmara Federal.
O Dr. Antônio Galdino Guedes substituiu o Cel. Osório de Aquino, em 1923. Em 1924, licenciou-se ocupando o seu lugar o Vice-Prefeito, Dr. Amaro Guedes Beltrão, até o seu regresso à prefeitura, em 1925.
No período de 1925 a 1929, administrou o município, sendo um dos mais arrojados administradores do município. Nascido em Cachoeira, povoação pertencente a Guarabira, descendente da família mais conhecida da região. Antonio Guedes foi Deputado Provincial, na década de 1930, juiz Federal do Trabalho jornalista e escritor. Escreveu artigos magistrais na imprensa paraibana, destacando-se em ter divulgado alguns capítulos da História de Guarabira, em 1917, no Gabinete de Estudinhos de Geografia e História da Paraíba – GEGHP. Foi o homem de maior projeção no cenário político da Paraíba, na década de 1930. Ocupou o governo do Estado, em 1940, na qualidade de Interventor.
Nos anos seguintes entre 1929/1931, exerceu o cargo de Prefeito, o Sr. Sebastião Bezerra Bastos. Comerciante antigo de Guarabira, um dos fundadores da associação dos Empregados do Comércio de Guarabira, hoje Clube Recreativo Guarabirense, tendo sido seu primeiro Presidente. Logo em seguida, para o período de 1931/1939, sucedeu-lhe no cargo o Dr. Luciano Varedas.
Encerrando o período em estudo, destacamos ainda a administração do Sr. José Tertuliano Ferreira de Melo, nascido em Pedra Lavrada-PB, a 26 de abril de 1888. Mesmo sem ter estudos superiores, escrevia muito bem, sendo um dos poetas de projeção, ao lado de Zé da Luz. Publicou entre outros, os livros: Fagulhas D’Alma, Vinte e Quatro horas, Em La Menor e História de Ágaba (1923). Entre suas principais obras, podemos destacar: a construção da antiga praça João Pessoa e o Prédio e o prédio da Prefeitura Municipal, hoje restaurado.

Referências



COELHO, Cleodon. Guarabira através dos tempos. Guarabira: Nordeste. 1975.


MELO, José Otávio de Arruda Melo. História da Paraíba: Lutas e Resistências. João Pessoa, Editora Universitária, 1997.


______. Guarabira: democracia, urbanismo e repressão 1945-1965. João Pessoa: União, 1997.
______. (org.) A Paraíba das origens à urbanização. João Pessoa, Editora Universitária, 1993.


MELLO, Moacir Camelo de. Itinerário Histórico de Guarabira, João Pessoa. 1999.








quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Lista de prefeitos da cidade de Guarabira.



Nome início do mandato fim do mandato
1 Francisco Joaquim de Andrade Moura
(Quincas Moura)
1896 1900
2 Manuel Pereira da Silva 1905 1908
3 Luís Galdino Sales 1909 1911
4 João Farias Pimentel 1912 1915
5 José Álvares Trigueiro 1915 1918
6 Manuel Lordão 1918 1920
7 Osório de Aquino Torres 1921 1923
8 Antônio Galdino Guedes 1923 1929
9 Sebastião Bezerra Bastos 30 de novembro de 1929 30 de abril de 1931
10 Luciano Varedas 30 de abril de 1931 30 de janeiro de 1932
11 José Tertuliano Ferreira de Melo 31 de janeiro de 1932 1 de julho de 1935
12 Francico Bandeira Pequeno 1 de julho de 1935 3 de agosto de 1935
13 João Medeiros Filho 3 de agosto de 1935 18 de dezembro de 1935
14 Valdemar Menino 28 de novembro de 1936 27 de julho de 1937
15 Sabiniano Alves do Rego Maia 1 de dezembro de 1937 27 de julho de 1940
16 Osmar de Aquino Araújo 19 de agosto de 1940 2 de dezembro de 1940
17 Osório de Aquino Torres 24 de dezembro de 1940 19 de outubro de 1942
18 Sebastião Vital Duarte 19 de outubro de 1942 2 de fevereiro de 1944
19 Sebastião Bezerra Bastos 2 de fevereiro de 1944 12 de setembro de 1945
20 Antônio Galdino Guedes 12 de setembro de 1945 5 de novembro de 1945
21 Claúdio Viana 8 de novembro de 1945 22 de fevereiro de 1946
22 João de Farias Pimentel Filho 22 de fevereiro de 1946 4 de dezembro de 1946
23 Osório de aquino Torres 5 de dezembro de 1946 17 de abril de 1947
24 Sílvio Pélico Porto 17 de abril de 1947 11 de agosto de 1947
25 Sabiniano Alves do Rego Maia 1947 1951
26 Augusto de Almeida 1951 1955
27 Osmar de Araújo Aquino 1955 1959
28 Augusto de Almeida 1959 1963
29 João de Farias Pimentel Filho 1963 1968
30 Gustavo Amorim da Costa 1969 1972
31 João de Farias Pimentel Filho 1973 1976
32 Antônio Roberto de Sousa Paulino 1977 1982
33 Zenóbio Toscano de Oliveira 1983 1988
34 Antônio Roberto de Sousa Paulino 1 de janeiro de 1989 31 de dezembro de 1992
35 Jáder Soares Pimentel 1 de janeiro de 1993 31 de dezembro de 1996
36 Maria Hailéa de Araújo Toscano 1 de janeiro de 1997 31 de dezembro de 2000
37 Maria Hailéa de Araújo Toscano 1 de janeiro de 2001 31 de dezembro de 2004
38 Maria de Fátima de Aquino Paulino 1 de janeiro de 2005 atualidade

A história contada: surgimento do MST na Paraíba



Luciana Henrique da Silva (1)

Na Paraíba, a luta pela terra remonta ao surgimento das Ligas Camponesas, na década de 50, em contraposição à estrutura agrária que se formou desde o processo de ocupação e de estruturação do espaço agrário nordestino através da expansão da cana-de-açúcar e da pecuária, ambas absorvedoras de grandes extensões de terra.

A primeira Liga Camponesa foi implantada na Paraíba em fevereiro de 1958, como Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé, ligada a ULTAB. No primeiro Congresso de Trabalhadores da Paraíba realizado entre 10 e 13 de maio de 1958, foi denominada pela imprensa de Liga Camponesa de Sapé. Essa Liga se caracterizou pelas lutas travadas com os usineiros que compunham o grupo da Várzea. Em 1962, é assassinado seu líder João Pedro Teixeira, cuja morte é atribuída pelos trabalhadores rurais e por parte da opinião pública ao Grupo da Várzea. (Souza, 1998) Em 25 de novembro de 1961 é fundada em João Pessoa a Federação das Associações dos Lavradores Agrícolas da Paraíba, que contava com 14 associações. Logo em seguida passando a se denominar Federação das Ligas Camponesas da Paraíba.

Segundo Souza os proprietários fundam em abril de 1962 através da reunião da Associação dos Proprietários Rurais da Paraíba (APREP), a Liga dos Latifundiários (LILA) buscando associar os pequenos proprietários e desviá-los do assédio das Ligas Camponesas. Durante a instauração do golpe militar e com a criação dos sindicatos rurais as Ligas foram duramente reprimidas e se desarticularam. Nesse período devido a criação dos sindicatos rurais e as repressões, com perseguições, mortes e prisões os movimentos rurais não tiveram condições de florescer.

Após o golpe militar e com a proposta de modernização da agricultura através de incentivos fiscais e de crédito, que foram desigualmente distribuídas, sendo mais intenso no sudeste, a Paraíba reorganizou sua estrutura agrária através do reforço das atividade canavieira e pecuária desencandeando graves efeitos sociais e econômicos, com o aumento da concentração de renda e também dos conflitos no campo. O setor canavieiro beneficiado com o programa Nacional do Álcool – PROÁLCOOL, criado em 1975 adquiriu novas maquinarias além da utilização de fertilizantes e produtos químicos e na ampliação de suas usinas e destilarias. Já o setor pecuário melhorou suas pastagens, disseminou o uso de rações industriais e etc, que elevou o aumentou do rebanho bovino (Moreira & Targino, 1997).

Entretanto com o arrefecimento dos recursos provenientes dos bancos internacionais na década de 80 o governo retira inúmeros projetos consolidando-os num único projeto, chamado de Nordestão, que provocou a crise dos canaviais no início de 1985 e o progressivo declínio da economia canavieira. Esse processo de modernização levou a expulsão e proletarização do trabalhador rural além da repressão aos movimentos de trabalhadores rurais. Esse processo de "modernização" se acentua com o PROÁLCOOL devido a crescente busca de lucros e de terras, o que intensificou a expulsão dos pequenos produtores que viviam no interior e nas margens das propriedades. Em muitos casos, segundo Moreira, os conflitos se iniciam com a morte do antigo dono, quando a terra é subdividida entre os herdeiros e os trabalhadores são obrigados a deixar as terras. Nesses casos os trabalhadores em busca de seus direitos passaram a se organizar contando com o apoio de diversas instituições, principalmente da Igreja Católica.

A Igreja Católica inicialmente através da Pastoral Rural, que surgiu em 1975, passou a realizar reuniões com os trabalhadores visando informá-los e organizá-los para a resistência na terra. Em 1988 a Pastoral Rural da Paraíba se vincula a CPT nacional continuando a prestar assessoria, inclusive jurídica, aos trabalhadores rurais.

O Estado da Paraíba contou com 194 conflitos de terra entre 1970 e maio de 1996, distribuídos em 55 municípios, a maioria na região do Agreste e Brejo, se estendendo pela Zona da Mata a Região da Borborema e avançando para o Sertão (2). As lutas na Paraíba se acirraram com o processo de proletarização e marginalização a que são submetidos os trabalhadores expulsos do campo.

Inicialmente organizados pelas Ligas Camponesas, e em seguida através de alguns sindicatos rurais, além da atuação da Igreja com a criação da Pastoral Rural e posteriormente da CPT que foram fundamentais no processo de construção de uma visão social e política entre grupos de trabalhadores rurais. No final da década de 80 surge o MST na Paraíba, como um novo ator na luta pela terra e pela conquista da Reforma Agrária e por um novo modelo de organização sócio-econômica.

Nesse aspecto é importante considerarmos a trajetória do MST na Paraíba a partir do que é contado pelos agentes que estavam envolvidos no processo de construção dessa história como: militantes, ex-militantes, além de colaboradores. A principal contribuição da História Oral é no sentido de recuperar a história a partir dos relatos de seus participantes, que através da relação entre passado e presente podem contribuir na análise dos fatos em que estiveram presentes. É importante lembrar, que partimos da memória dos entrevistados, e a memória humana é falha e seletiva (3).

A história do MST na Paraíba é bastante fragmentada devido a diversos fatores como a ausência de registros sistemáticos. Dentro desse contexto a principal contribuição desse artigo é contribuir para a divulgação da memória do movimento através do registro de depoimentos de alguns participantes, servindo assim de base para futuras pesquisas.

Desde o ano de 1985, conforme foi confirmado nas entrevistas, o MST começou a se articular na Paraíba. Nesse ano foi realizado o 1º Encontro Nacional do MST contando com a participação de 25 lavradores, ligados a sindicatos e a CPT, que já desenvolvia atividades de organização na região. Estes primeiros participantes eram oriundos principalmente da região do Brejo e do Cariri, provavelmente devido a atuação anterior das Ligas, e de alguns sindicatos que atuaram na região através da conscientização dos trabalhadores sobre seus direitos, além da atuação da Igreja junto aos trabalhadores através da ação pastoral.

Os trabalhadores que participaram do evento realizam ao regressar um Encontro em Alagoa Grande com a participação de em média 50 trabalhadores também do Brejo paraibano buscando articular os trabalhadores e trazer o MST aqui para a Paraíba. (mimeo MST)

Entretanto como foi relatado na entrevista 3, com uma ex-militante, para a direção nacional não havia movimento sem luta. Durante esse período o MST nacional se encontrava na sua segunda fase que foi a fase de expansão e consolidação do movimento em vários Estados. Esta fase possuiu como características principais: o distanciamento da influência da Igreja através da opção por ações e realização de ocupações como principal estratégia de luta. A urgência da realização de ocupações a partir de uma agenda nacional é uma marca da atuação do MST, portanto se tornava necessária uma ação do MST na Paraíba, o que levou inclusive a divergências internas.

Na perspectiva da direção nacional e parte dos membros locais sem uma ocupação, sem acampamentos e assentamentos não se obteriam resultados visíveis sobre a organização do MST no Estado. As divergências se deram por que grande parte das lideranças que atuavam no estado acreditava que era necessária uma aliança com a CPT, pois só assim obteriam uma infra-estrutura apropriada para a realização de ocupações, dessa forma houve uma desarticulação entre as lideranças e muitas saíram do movimento. Para este grupo o movimento ainda não possuía um nível de organização que possibilitasse o desenvolvimento de uma ação bem-sucedida.

Ao relatarem a história do movimento no Estado seus líderes destacam as ocupações, reconhecendo o início do movimento apenas a partir da primeira ocupação, realizada na Fazenda Sapucaia, em 1989. Sendo assim, em 1999, foram comemorados os dez anos de movimento na Paraíba.

As lideranças que continuaram no movimento começaram a realizar trabalho de base e a ocupação da Fazenda Sapucaia, no município de Bananeiras ocorreu em 07 de abril de 1989, uma área de cerca de 1204.7 hectares de terra. Os camponeses foram desarticulados de forma violenta durante a madrugada, permanecendo na cidade e posteriormente voltaram a ocupar a terra.

Afirma-se que o despejo foi efetuado pelo chamado "Grupo da Várzea", um grupo formado por fazendeiros que atuou durante um longo período na repressão contra integrantes de sindicatos e de movimentos rurais. A reação violenta a essa primeira ocupação, provavelmente possuía como objetivo inibir outras ocupações, atuando de forma exemplar.

Nesse acampamento morreu uma criança, no entanto apareceram divergências a respeito da causa da morte, segundo o Jornal O Norte de 11/04/1989 citado por Moreira, a criança, Luzia Brito, de cinco meses teria falecido após cair do colo da mãe, quando esta tentava fugir da polícia, mas no relato de uma ex-militante que se encontrava presente na referida ocupação aparece que esta criança já se encontrava debilitada devido a problemas de saúde e que teria falecido com a violência do despejo (Entrevista 3, Moreira, 1997).

Em seguida a essa ocupação, aparece em várias entrevistas que foi realizada em agosto de 1989 a ocupação da Fazenda Maniçoba, no município de Esperança, que contou com a participação de aproximadamente 120 famílias, onde os camponeses também foram desarticulados e buscando providências se alojaram na praça da Bandeira, em Campina Grande durante um período de aproximadamente três meses:

"De lá a gente conseguiu transporte e viemos para Canafístola, de Canafístola a gente passou uma semana enquanto o pessoal tava tentando negociar com o governo vendo se conseguia uma área provisória, não se conseguiu, via no sindicato de Alagoa Grande se nós conseguimos ficar num assentamento mas fazer um acampamento nesse assentamento que se chama Mares em Alagoa Grande. De lá como não houve resultado então foram articuladas mais famílias e a gente ocupou Maniçoba, em agosto de 89. (...) Olha eu sei que eles produziram dois anos na terra eu não sei se foram realmente dois anos aí depois disso não se conseguiu comprar a área, e aí houve o despejo, o despejo foi assim não se conseguiram comprar a área e aí as famílias tiveram que sair da área depois ocuparam novamente a área foram despejadas novamente."
Entrevista 3

Aparecem nas entrevistas que como não conseguiram chegar a um acordo com o governo, as lideranças do MST e as famílias que os acompanhavam desalojadas e realizaram a ocupação da praça da Bandeira em Campina Grande, mas devido a pressões do governo são obrigados a deixar o local.

Entretanto, como não foi desapropriada nenhuma área para alojar os trabalhadores remanescentes da ocupação da Maniçoba, eles resolveram ocupar uma área do governo destinada a pesquisa, o EMEPA, de onde foram despejados. A partir de então ocuparam outra área do governo o Lar do Garoto, sendo novamente despejados.

Após serem despejados do Lar do Garoto e ficarem durante algum tempo alojados no sindicato de Esperança, então ocupam novamente a Fazenda Boa Esperança, no município de Campina Grande que seria expropriada pelo INCRA por ser utilizada por traficantes para plantar maconha, como o INCRA não desapropriou a propriedade os camponeses expulsos por pistoleiros voltam a ocupar a praça em Campina Grande, onde são espancados por policiais. Após esses acontecimentos os camponeses liderados pelo MST voltam a ocupar a Fazenda Esperança onde permaneceram por pouco tempo sendo novamente despejados. Entretanto existem divergências sobre a ordem cronológica das ocupações segundo Moreira (1997) a ocupação dessa área ocorreu em 15 de janeiro de 1992, quando 58 famílias sem terra ocuparam a fazenda. A autora aponta ainda que esse grupo pertencia ao mesmo grupo que havia ocupado a Fazenda de Ivandro Cunha Lima em 1º de maio de 1991, sendo despejados após 48 horas permanecendo na Praça da Bandeira por três meses.

Após esse confrontos o MST ainda realizou algumas ocupações nessa mesma região sem obter sucesso:

"Depois disso aconteceu ainda uma ocupação ainda na região ali entre Aroeiras e Alcantil o trabalho foi feito ali Em Queimadas, Boqueirão, Aroeiras, Campina Grande, toda aquela região ali, isso em 1990. Em 1990 ainda existia a Maniçoba, aí aconteceu essa ocupação só que foi despejada também pelos pistoleiros lá pelos donos da fazenda não se passou quinze dias na área, não foi polícia foi os próprios pistoleiros que despejou a área. Eu sei que foi solicitada a desapropriação, não sei se tem esse registro lá no INCRA, essa área era divisa com o Estado de Pernambuco, e lá em Pernambuco existe muita pistolagem a gente escutava rádio de lá, mas era uma cidade bastante conhecida".
Entrevista 3

Durante esse período a coordenação daqui atuava juntamente com a direção de Pernambuco. Em 1992 as lideranças do MST no Estado decidem que o movimento tem que se expandir para outras áreas, pois apesar de terem sido realizada diversas ocupações o movimento ainda não tinha implementado nenhum assentamento, ocorrendo também a transferência de alguns militantes para outras regiões, assim como começaram a chegar na Paraíba militantes de outros Estados, essa rotatividade de militantes é uma característica do MST, uma das hipóteses da renovação de quadros no Estado são os fracassos das primeiras ocupações. (Entrevistas 2 e 3)

Em 1992, segundo as entrevistas realizadas com militantes e ex-militantes o MST funda sua sede em João Pessoa, e o movimento passa a atuar mais no litoral.

Nesse mesmo ano ocorre a ocupação das Fazendas Sede Velha e Corvoada, antiga Fazenda Abiaí, na cidade de Pitimbu, que ocorreu em primeiro de março com a participação de 280 famílias de assalariados na cana provenientes de Alhandra, Pitimbu, Caaporã, Santa Rita e Bayeux. Essa ocupação provocou grande tensão com os posseiros que lá residiam e eram acompanhados pela CPT. Desse processo resultaram dois projetos de assentamento: Sede Velha do Abiaí, antiga Fazenda Sede Velha e 1º. De Março, originário da Fazenda Corvoada, neste último foram assentados as famílias organizadas pelo MST.(Moreira, 1997, entrevistas 2 e 3). Segundo relato da entrevista 3 esse foi um dos maiores acampamentos realizados pelo MST, onde teriam sido cadastradas 450 famílias, aparecendo uma discrepância com o número famílias apontado por Moreira.

Em abril de 1993 o MST ocupa a Fazenda Barra do Abiaí, no município de Pitimbu, que contou com a participação de 51 famílias de agricultores provenientes da região e que se encontravam desempregados na atividade canavieira. Devido a ação de reintegração de posse movida pela proprietária em 06 de dezembro de 1994, através da polícia militar foi cumprida a ordem de despejo concedida pela justiça, porém como os trabalhadores resistiram a ação de despejo, foi decretada a prisão preventiva de dez pessoas, três delas foram presas e encaminhadas ao 5º. Batalhão de Polícia Militar de onde foram transferidas para o Presídio do Roger, o que provocou revolta em parte da opinião pública. Um dos objetivos que apareceram nos relatos foi o de conseguir desarticular o movimento a partir da prisão de seus líderes. Em março de 95 foi decretada a desapropriação do imóvel que deu origem ao Projeto de Assentamento Teixeirinha. (Entrevista 3, Moreira, 1997).

No ano de 1994 o movimento começa a se expandir para a regional designada Várzea ocupando a Massangana III, que é apontada como um desencadeamento de algumas lutas que ocorreram em Pedras de Fogo. Já em 1995 ocorreu a ocupação do Açude das Graças, onde participaram pessoas dos municípios de Jacaraú, Mamanguape, Mataraca, Rio Tinto, Santa Rita que segundo os relatos se transformaram nos assentamentos Massangana I e Massangana II, onde já existia um foco de resistência dos posseiros que residiam na região. Essa área também era acompanhada pela CPT, cujas divergências com o movimento teria persistido até o ano de 94.

Outras ocupações foram realizadas entre 95 e 97, entretanto as informações sobre o período são bastante fragmentadas:

"Então em 96 o movimento continua indo pra se expandir mas faz uma tentativa aqui na região de Mamanguape, aí consegue a desapropriação, depois desmobiliza o acampamento em 1997 então é quando a gente tá indo pra cá o movimento tinha realizado uma série de atividades e aí então a gente tá no finalzinho do ano setembro/outubro, então resolvemos ocupar - com as famílias que tinham sido despejadas da Bras Frutas - então resolvemos em 7 de dezembro ocupar a fazenda mais próxima ali da Várzea Maraú, hoje assentamento de Canudos, aí então é pela Segunda vez que a gente enfrenta o grupo da várzea novamente e também nesse enfrentamento a gente consegue desbaratinar o grupo armado da várzea."
Entrevista 2

Nesse relato aparece que o grupo da Várzea teria sido praticamente eliminado e depois desse período não foram mais encontradas referências a esse grupo.

Em março de 1998, o movimento ocupa a Usina Borborema, com cerca de 150 a 160 famílias, onde ocorreram vários despejos. No mesmo ano foram relatadas duas marchas: uma rumo a SUDENE realizada em conjunto com outros Estados, que na Paraíba atravessou a região de Mamanguape passando por Parnamirim até o Recife; e a "Marcha em defesa do Brasil", partindo de Cajazeiras, passando em 28 municípios, até João pessoa, inclusive passando por um trecho da BR-230.

Nesse ínterim o MST passou a atuar no sertão da Paraíba e, segundo a Entrevista 2, percebeu que na região era possível:

"(...)fazer a Reforma Agrária no sertão a gente começou a ver que era viável, que também na região do sertão tinha água, tinha terra fértil, tinha o povo que tava desempregado com o sonho de conquistar a terra, então é nesse mesmo período que por onde a marcha vem passando, que a gente vem atrás organizando o povo quando ocupamos o Estreito Pimenta no dia 3 de setembro. Em novembro ocupamos a fazenda Santo Antônio, hoje acampamento Margarida Alves e em dezembro ocupamos a fazenda Jacú, no distrito de Santa Gertrudes, então a partir daquela marcha o movimento começa a se expandir pelo Sertão (...)"

A essa altura o MST se organizava com base em quatro regionais, e através dessa marcha que vem desde o Sertão, o movimento começa a atuar em outra região que passa a ser denominada de Região do Cariri. Nesse mesmo período, segundo os relatos, as famílias que ocuparam a Usina Borborema, em Pirpirituba após vários despejos, vieram para o INCRA, que propôs uma área que foi dada como pagamento ao Banco do Brasil pela Usina Mataraca, no município de Mamanguape. Entretanto essa área pertencia a uma reserva indígena e as famílias foram transferidas para um acampamento na regional da Várzea.

Durante a marcha efetuada pelo Estado o MST, segundo aparecem nas entrevistas, são realizadas várias ocupações: a fazenda Queimadas, no município de Remígio, que se tornou o Assentamento Oziel Pereira, a fazenda Feijão, hoje assentamento São Sebastião, no município de Sumé, a fazenda Soares de Oliveira onde os camponeses foram despejados, logo em seguida ocuparam a fazenda Ipanema, hoje assentamento Chico Mendes, e nesse mesmo ano ocorreu a desapropriação da fazenda Bela Vista.

Além das ocupações e das marchas realizadas no Estado o MST realiza outras atividades como a ocupação de algumas prefeituras, visando protestar sobre algumas medidas de financiamento para a compra de terras feita pelo governo federal.

Segundo informações obtidas na Secretaria Estadual do MST localizada na cidade de João Pessoa, no final de 1999 o movimento possuía 14 assentamentos: Teixeirinha, Nova Vida e Primeiro de Março, situada na Regional do Sertão; Massangana I, Massangana II, Massangana III, Canudos, Chico Mendes e Antônio Conselheiro que fazem parte da regional da Várzea; assentamento Queimadas, hoje Oziel Pereira, na Regional do Brejo com os acampamentos 68 e Lagoa do Jogo; assentamentos Mandacaru, Beira Rio e São Sebastião, na região do Cariri; e não possuem nenhum assentamento na região do Sertão. Além de 7 acampamentos distribuídos: dois na regional do Brejo, Sessenta e oito e Lagoa do Jogo, dois na regional do Cariri, Canoa e Tamanduá e três na regional do Sertão, Liberdade, Margarida Maria Alves e Estreito Pimenta.

Um fato interessante para posterior análise seriam os nomes que são dados aos acampamentos e assentamentos como é o caso dos assentamentos Chico Mendes, Canudos e de alguns acampamentos como é o caso do Acampamento Margarida Maria Alves, acampamento João Pedro Teixeira, entres outros que evidencia uma preocupação em escolher nomes marcantes no cenário político.

Em janeiro de 2000 foi realizado o encontro nacional com aproximadamente 250 delegados onde foi eleita a nova direção estadual, além da direção das regionais organizadas.

Podemos observar no decorrer das entrevistas a ênfase que o MST dá as ocupações: a história contada é a história das ocupações, embora apareçam nos relatos outras formas de ação como as marchas, os encontros, o trabalho de base, ocupação de prefeituras, entre outros, essas atividades não são destacadas pelos participantes embora elas tenham grande importância na visibilização do movimento e na formação da opinião pública.

A história do movimento aqui na Paraíba é bastante fragmentada devido principalmente a ausência de registros escritos e ao próprio esquecimento dos participantes, parece que sua própria história foi marcada por interrupções. Os relatos geralmente são entrecortados por dúvidas quanto a datas ou mesmo questões mais específicas como o local das ocupações, como ocorreram e etc. Essa é uma grande dificuldade na organização da história provocando lacunas que poderão ser preenchidas com outras pesquisas que dêem continuidade a que foi realizada.

O MST na Paraíba teve inúmeras dificuldades para penetrar no Estado. Muitas delas ocorreram dentro do próprio movimento, que iniciou o processo de ocupações na Paraíba, a partir de determinações feitas pela direção nacional, sem levar em consideração as condições as condições econômicas, políticas e culturais locais resultando no fracasso dessas primeiras ocupações.

Além dessas dificuldades a relação conflituosa com a CPT, com as críticas feitas a forma de atuação do movimento e as disputas por áreas também influenciaram nesse processo, já que a Igreja possuía grande influência sobre a população rural.

Aspecto importante a ser levado em consideração é o autoritarismo e a violência da forma de dominação dos proprietários de terra, que buscavam através da força atuar de maneira exemplar inibindo novos conflitos por terra.

Referências Bibliográficas

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Notas

1) Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (campus I - João Pessoa).

2) Ver MOREIRA, Emília. (1997). Por um Pedaço de Chão. 2v. João Pessoa: Editora Universitária - UFPb.

3) Ver SILVA, Luciana Henrique da. (2000). O MST na Paraíba: a história contada por seus participantes. João Pessoa: Bacharelado em Ciências Sociais - CCHLA - UFPb (Monografia de Conclusão de Curso).

Fonte:

http://www.cchla.ufpb.br/caos/index.html

SUMÁRIO DAS ARMADAS

O documento que se segue, intitulado Sumário das Armadas que se fizeram e das guerras que se deram na conquista do Rio Paraíba é cópia fiel ipsis litera do original que se acha arquivado na Torre do Tombo, em Portugal. Escrito pelo padre Jesuita Christóvão de Ganvia,Visitador da Cia. de Jesus de toda a Provincia do Brasil, a partir de 1.583, até 1.587, narra com infinitos pormenores a saga dos primeiros colonos portugueses em suas guerras com índios - principalmente os Potiguares - e Franceses para o povoamento da Paraíba a partir da cidade de N. S. das Neves, atual João Pessoa. Pelo que se depreende do texto, o padre Ganvia acompanhou a maioria das expedições e delas participou ativamente. Não sendo um bom narrador como Caminha, às vezes se perde no texto e não consegue manter uma ortografia correta, escrevendo a mesma palavra de várias maneiras, o que demonstra também não ser ele bem versado na língua portuguesa. A falta ou a pouca pontuação também são dificuldades à sua compreensão. Pode-se atenuar as falhas do escriba se se considerar que à época do seu relato o português era ainda uma língua relativamente jovem e com poucos recursos a oferecer aos seus usuários. Registre-se que a primeira edição dos Lusíadas aparecera há apenas 11 anos (1.572) que foi quando a língua começou a ter uma identidade própria, desligando-se principalmente do latim e do espanhol. É possivel que também tenhamos cometido alguma falha, pois ao trabalho hercúleo de transcrever copiando um manuscrito tão antigo, com 70 páginas já bem castigadas pelo tempo, não poderia a Revista MUNICÍPIOS EM DESTAQUE (elaboradora do trabalho) ter a pretensão do perfeito. A transcrição que ora apresentamos foi calcada na preocupação de ser absolutamente fiel ao original que consultamos, sem o rigor científico de um trabalho de paleografia. Deste modo, foram respeitadas todas as falhas e imperfeições do texto e a sua forma arcaicista de se apresentar. Alguns trechos desse Sumário aparecem eventualmente aqui e ali, com sua autoria atribuida ora a um, ora a outro escritor, mas acreditamos que a sua íntegra nunca foi publicada nem sua paternidade real identificada e, se agora o fazemos, é para colocar ao alcance dos estudiosos e amadores do assunto um belo documento histórico que transporta para as letras as primeiras páginas dos feitos heróicos dos sempre heróis paraibanos. a Revista MUNICÍPIOS EM DESTAQUE sente-se orgulhosa por dar mais esta contribuição à tão maltratada memória brasileira que com certeza ainda há de ser resgatada.

Os Editores

Sumario das Armadas que si fizerão e guerras que se derão na conquista do Rio Parahiba escripta e feito por mandado do muito reverendo Padre em Christo o padre Cristóvão de Ganvia visitador da Companhia de Jesus de toda a Província do Brasil. Antes de entrar na relação das guerras e armadas que os reis deste reino mandarão dar e manter contra o gentio Pitiguar, senhor de mais de quatro centas léguas por costa deste Rio do Parahiba athe e do Maranhão que começarão no tempo de Luís de Brito d'Almeida Governador-Geral deste stado do Brasil e se acabarão no tempo do licenciado Martim Leitão Ouvidor-Geral do mesmo estado e que por mandado de El Rey Dom Philippe Nosso Senhor as conquistou e povoou o Rio Parahiba me pareceu fazer uha breve descripção delle e do estado em que estavão as Capitanias do Pernambuco e Tamaracá quando o doutor Martim Leitano entrou nellas para mais facilmente no decurso desta história se entenderem muitas cousas a qual he a seguinte

Capítulo Primeiro

O Rio Parahiba que nas cartas de marcar se chama S. Domingos está em seis graós da banda do Sul corre per uma água que os marcantes chamão Nornoroeste Susueste a barra a entrada corre pelo de Nordeste Susudoeste athe a ponta do Cabedelo que he já dentro. Tem de baixa mar no mais baixo em hum banco que faz de area quatro braças e dali para dentro pelo Rio asima tem seis e sete. A boca da barra que o Rio faz terá de largo ua legoa e o canal que vai pelo meio que he o que chamamos barra tem um quarto de legoa e todo mais de uha parte outra he muito apanelado o fundo he de area muito limpo e sem nenhua pedra e asim he muito maior porto e capaz de maiores embarcações que o de Pernambuco e Tamaracá, dos quais dista vinte e duas legoas do de Pernambuco, e de vinte do de Tamaracá por costa para a banda do Norte e os arrecifes que correm ao longo de toda estas quebrão ali mais. Pelo Rio acima uha lagoa da banda do Norte tem uha ilha fermosa de arvoredo de uha legoa de comprido e um terço de largo defronte da qual está o surgidouro o porto das Náos capaz de grande quantidade dellas e abrigado de todos os ventos. Da parte do Sul, faz hum fermoso canal pello qual acima duas legoas podem ir navios de cem tonéis e outras três mais asima grandes caravelões que he athe onde chega aspereza da maré. Da parte do Norte vai outro braço que desvia de a Ilha da terra firme e nella defronte da ponta da Ilha está parte desima onde o Rio se comunica a devedir e fazer a Ilha se fez o primeiro forte por ordem do General Diogo Paes de Valdes este Rio que torna depois sete ou oito legoas ao Sul tem uma varzea de mais de quatorze de comprido e de largo tem duas mil braças e seis centas no mais estreito toda retalhada de esteiros e rios caudaes de agua doce que podem dar mais de quarenta engenhos de asucar por toda a terra sem singular para a cana com o serviço do mar e de menos fábrica do Brasil por ser Rio morto e pelo menos inverno todo navegável e deverão mais de sete legoas por caravelões que entrão no Rio que nelle se metem que são muitos e proveitosos por abundarem de muitos pescados e mariscos com outras muitas terras para canas, mantimentos, pastos e lenha que só as dos mangues as fazem infinitas. Pois as outras varzeas que ha entre Pernambuco e a Parahiba e fazem ao longo dos Rios que entre estas duas Capitanias mais pegadas ao Parahiba entrão no mar e não prometem menos proveito antes muito grande, falo por varzeas por que esta he somente a boa terra do Brasil que os outeiros ou altos não dão cana, ao menos nessas Capitanias do Norte, enquanto nelles ha certa terra bem boa de mantimentos maz não cana que somente se dá nas varzeas que he a terra baixa ao longo dos Rios ou de grandes alagadios que no Brasil ha muito principalmente perto do mar onde os ha grandes e as matas das arvores são muito maiores e muito mais altas e grapas que no certão onde nem ha Rios nem lagoas senão de poças que com muita dificuldade se acha. Enfim todo o sertão do Brazil he muito steril e de pouco mato e terras desaventuradas que com trabalho da a mandioca que os negros plantão como bacellos e em dez doze meses se faz tão grosa como grandes nabos maz com raizes compridas com muitas pernas e tenras que no cada dão muita farinha que elles e os brancos se sustentão e depois do trigo he o melhor mantimento que se sabe principalmente deitada de molho faz singular farinha para se comer em fresca que se parece com o nosso cuzcuz, fazem também outros beijuís que são redondos como manguaes ou compridos como querem pouco mais groço que hostias he muito bom comer porque toma o gosto ou sabor natural daquilo com que o comemos, fazem mais outra farinha destas raízes a que também chamam mandioca mais cozida para darem a muitos......com que vem ao reino e hirão a India desta chamarão farinha de guerra porque nellas se servem os negros desta e como no Brasil um negro tem farinhas e redes arcos frechas logo se tem por ricos. O cabedal que todos os brasis ordinariamente levão a guerra não he outro senão mulher que lhe leva a rede e alguma pouca de farinha para os primeiros dias que depois os......, ratos, bichos e mais immundicia apaga e os susttenta que no Brasil nada disso he venenoso que he ua das maravilhas deles por a mesma verão as guerras que lhes fazemos aquelle que leva mais negros para lhe caçarem ou pescarem são mais regalados e vão milhor providos. São geralmente todos os brazis muito ciosos, ainda que tendo muitas mulheres, dez, vinte e quantas cada hum pode sustentar e os principais so niço amostrão serem cabeças na guerra que regularmente são os mais valentes que dos siumes que...uns dos outros tem por respeito dos quaes dão muito facil credito, a qualquer sospeita que lhe indicio procederão e procedem sempre todas as divisoes, guerras e diferenças que todo esse gentio do Brasil entre si tem e por aqui lhe urdem os portugueses muitas brigas com que se desavem uhas Nações com outras com o qual ardiu os entramos e desbaratamos que todos juntos nunca ninguém poderá com elles nem os dumará. Este ardil nos não val com os Pitiguares que sendo o maior e mais guerreiro gentio do Brazil que ocupão do Parahiba athe o Maranhão que são seis sentas legoas estão unidos e conformes estão huns com os outros que de indústria apontarão entre si entregavam-se a nós os delinquentes huns aos outros e castigavam-nos sem ...nem si desavirem nunca por isto e assim o dizemos sempre nas pulhas aos brancos quando nas guerras vem a fala; outras cousas maravilhosas tratarei aqui de gentio do Brasil já que me alarguei tanto fora do primitivo entento, como lhes todos são muito ciosos são também muito amigos das mulheres e mui brandos para ellas e gente que por seus respeitos servem e obedecem aos sogros como a pais mas quando ellas parem os maridos se fingem doentes e se deitão de mimosos nas redes e ali são melhor servidos dous ou três dias e visitados. Ellas em parindo se vão lavar com as crianças na fonte. Tem mais outra propriedade não...herdarem do estado da inocência que nelles esta tão corrupta e danada que contra toda a ordem da natureza por mera sensualidade folgão de andarem nus sem nunhuma cobertura athe em suas vergonhas couza que parece os próprios animais brutos estranhos. São menos cobiçosos sendo em extremo mais apetitosos que todas as outras nações do mundo e por isso todo o que vêem nos brancos desejão esperão e querem que lhes demo a esse lho dando o dão logo aos outros e com qualquer cascavel lhe hão o vestido porque destes morrerão. He gente que sempre se tem vagar corre como brutos e niso em suas sugidades ou desonestidades entendemos somente como não andão em guerras, porque se dão pouco ao travalho e naturalmente são folgazões como o são todas as outras nações fora da nossa Europa.

Ajuda muito a iso a fertilidade da terra em produzir este mantimento que chamamo mandioca que he o pão de todo o Brasil porque cada pessoa com a planta de um só dia faz mantimento que lhe abasta todo o anno maz varião as folhas por não cansarem a terra e com serem tão comilhões tendem mais a fome que todas as nações do mundo que andarão dous dias inteiros sem comer nem beber. São mui afeiçoados e naturalmente amigos de quem o he seu maz mui vários e mudáveis em extremo e por poucas couzas assombrão e perdem tudo e se alevantão e assim em nada tem constância nem firmeza. São muito falços inclinados a enganos e aleivos e he tão próprio e natural iso do clima e terra do Brasil que logo se pega e tem já pegado a quase todos os brancos naturais do Brasil, antes a todos que asim desmente que lhe a principio lançarão do Limoeiro de Lisboa e das outras cadeias do reino peiorou ainda mais esta natureza a que já conhece roim e asim se deve fazer pouco fundamento dos ditos do Brazil como não fazem de peçoas mui católicas nas virtudes. E tornando pois as varzeas que dizia ser a milhor terra porque nellas ha mais vella que asim chamão a terra forte e boa e na que he tão dura a roça ou planta de cana trinta e quarenta anos sem cansar nem de replantar que he muito sustentaremse estas varzeas como se alagarem todos os annos porque ao longo do mar terra baixa e muito retalhada de Rios e esteios: toda aterra do Brasil não tem mais que só dous athe três palmos de boa terra com a nativa por sima que logo dali para baixo he roim tem...alta sem prestar para nada e por esta causa todas as arvores no Brasil tem as raizes a felor da terra e com qualquer vento se arrancão e deve que não tem as raizes lançadas para baixo. Com isso, e por não haver na própria lingua dos brasis três letras principais que temos he a saber F.L.R., cuja falta nos mostrão faltarem-lhe a elles três fundamentos em que o gênero humano se sustenta e norte porque de governo que são Fé, Lei e Rey, nos quais o autor da natureza avisa a não fazermos fundamento de cousa algua do Brasil porque rialmente estas três couzas entre o gentio e não deixem estenda aos brancos...mas o Brasil que de todos porque nada adorão nem tem reys nem califas, como as outras nações senão aquelles a que chamão cabeças para suas guerras e fora delas nas Aldeas onde vivem tão pouco por elles nem os estimão nem guardão fé nem entre si nem com os brancos nem verdade mas que enquanto se lhes antolha. São mui dados a feitiços e o feiticeiro que ha em cada Aldea he o seu oraculo tem muita comonicação com o demonio e acontese-lhes com elle muitas couzas graciosas e as vezes espantosas; mas tornando já ao ponto donde me deverti por dar uha breve relação de couzas que nos livros que falão do Brazil não achei escritas, as várzeas que se estendem ao longo daquelles grandes Rios que vão de Pernambuco para o Parahiba que todos se vadeão de duas athe sete e mais legoas dão mostra bem clara e dianteras após evidente de serem muito rendosas aquem as aproveitar como são as do caudaloso garamane e as dos Rios Copecuras, e Habias, Puajana, Capibatibe, que chegão athe as serras de Capaoboa e além do Parahiba ao Norte sinco legoas por mar e dez pelo sertão está outro grande Rio que chamão Mangoape, que entra no mar da Bahia da Traição o qual Rio tem ao longo de si muitas e boas várzeas athe Capaoboas por onde está a Capitania do Parahiba possuindo mais várzeas que como já provamos he o melhor do Brazil que todas as outras capitanias e com iso e com ter mais pao brazil que Pernambuco he muito milhor porque quanto mais para o Norte tanto milhor, e com todo o de Pernambuco estas de Pernambuco para a Parahiba se tirarmos muito milhor pela Parahiba com ajuda daquelles Rios no inverno que em Pernambuco, aonde o carreto delle fica muito longe e muito custoso e dificultoso. Fica também o Parahiba mais perto do Reino sem dobrar cabos e relativamente he a milhor Capitania do Brasil e tal que sabido bem o porto de guerra não arribar Navio às Antilhas, que grande terço e mui importante ao commercio e navegação deste grande Estado. Deixo a ladroeira e colheita de vinte e trinta Naos Francesas que todos os Annos antes de ser moção ali carregavão tendo suas feitorias sobre si cada Nação fazendo de cada para o outro a cargo cada hum para as suas Naos com cuja ajuda os negros Pitiguaras/ o maior em número e mais como já disse guerreiro gentio do Brasil/ de vinte annos a estas partes corrião todas as fronteiras de Tamaracá que só com trinta e dous moradores acumulados na Ilha piedosamente sustentavão a Capitania e nas de Pernambuco já não moião três engenhos e em condição de pesagem outros, por tudo estes Pitiguares irem adulando, porque mais facilmente produzem acarretar e carregar o pao aos Franceses, e de tal maneira se forão apercebendo e apelidando os franceses em sua ajuda que se virão a fortificar a seu modo mesmo o Rio Parahiba com os Franceses, evitando-se grande quantidade de Aldeas dos Índios pelo Rio asima de uha e de outra parte por ser a mais forte cousa de todo o Brasil e como ficarão a dez, doze legoas das tropas fronteiras encarerão o juizo de Deus provocando aos índios o rompimento com o mao tratamento e respostas que seus serviços davão sendo elles niso mui sextos e proveitosos como os captiveiros que/ quebrando-lhes a fé contra todo o direito natural e das gentes/ lhes davão porque no tempo das pazes erão estes Pitiguares o melhor gentio desta terra e costas mas a cobiça dos maiores principalmente das misturas do Brazil da Nação mameluca e degradados costumados a se vestir e banquetear das suas peles que todos por todas as vias sem exccesão recolhem as bolças vendendo-as sem temor de Deus nem medo do castigo que realmente como essas culpas são das cabeças nunca por essas cousas se deu no Brasil esta tirania tam impiamente uzada no Brasil estragou, asulou, dannou tudo nem deixarão por estas injustiças avexações que se fazem aos Indios de vir grandes açoutes ao Brasil senão provêm com grande ordem e vigorosos castigos contra estas cabeças ainda que pareceo que todos os castigos que Deus lhe dá e os que continuão o sertão he por esta cauza porque he pasmar o atrevimento e sultura com que a tanto custo os homens se deixão andar naquelle grande sertão por espaço de dous, três ou quatro e muitos annos sem Deus, sem mantimento, nus como selvagens e sujeitos a todas as persiguições e misérias do mundo se metem os homens duzentas, trezentas e quinhentas legoas pelo sertão dentro servindo ao diabo com tanta coriosidade de martírio por resgatar o juntar peçoa como os padres antigos do exmo o fazião por Christo: isso são cousas tão notórias e molestão sem remédio que como Christão me forçarão a fazer esta lembrança. O pao desta Capitania he o mais e o milhor que se sabe por ser a derradeira deste estado da banda do Norte do qual pao ha nella grandes matas e por ser a milhor mercadoria deste Estado deu nome a toda a Província sendo o seu próprio nome terra de Santa Crus se chama vulgarmente no Brasil o qual he um pao feio avista tem a casca grossa e espinhosa a folha do qual quer parecer de Amieiro he demais importância que o pastel para todas as tintas se darem com elle quase e um só pao dar sinco de que a primeira e a segunda são muito escuras a terceira e quarta são as milhores, e assim pela experiência que diso se tem se da que são necesários todos os anos e bastão deste trinta mil quintaes para a nossa Europa das outras Capitanias o pao não dá mais que duas tintas. Todo o pao brazil cortando-se arebenta e creçe devagar que pelo menos a mister mais de vinte Annos e ainda não é groço dizem que o pao da Capitania do Parahiba he a mercadoria mais de lei que por todas as outras por não padecer corrução de tempo nem de água antes a do mar ou a fina. Na boca he doce quase como o alcaçuz, por respeito deste pao tratarão e procurarão tanto os franceses permanecer nella o dito parece que basta por hora quanto a esta Capitania do Parahiba, e do Estado em que ella e a de Pernambuco e de Tamaracá estavão com o que me paçarei atratar das armadas que para a conquista se fizerão e guerras que nella houve.

Da ida do douptor Fernão da Silva a Parahiba e do Governador Luís de Brito de Almeida

Capítulo 2º

El Rey Dom Sebastião que Deus tem informado de todas essas cousas receoso de os Franceses se situarem e se fortificarem no Rio Parahiba mandou ao Governador Luís de Brito de Almeida afose ver e elegesse sítio para povoação e por elle não poder ir indo o Doutor Fernão da Silva Ouvidor-Geral e Provedor-Mor da fazenda deste estado a Pernambuco lhe cometeo: o qual com todo o poder de gente depé e decavallo da dita capitania e muitos índios que ainda antão havia foi no anno de setenta e quatro a vê-lo e castigar os Índios Pitiguares que naquelles dias havião asolado hum que hum Diogo Dias lavrador muito rico começava com grande fabrico no Rio Recumzaem três legoas do Parahiba e como hia tão poderozo correos e não lhe ousarão a esperar mas refazendo-se a fizerão voltar pela praia tão depresa que não houve vagar para nada o qual acabados os negócios aqui foi a Pernambuco se tornou para a Baya donde enformado o Governador Luís de Brito d'Almeida do que pasava e da importância do negócio conformando-se com ordem que tinha de El Rei se resolveu e determinou de hir em pessoa conquistar e povoar o Parahiba para qual effeito na Cidade da Baya mandou apreceber uha Armada de doze vellas com toda a gente que pode ajuntar, levando toda a nobreza da cidade, officiaes da justiça e fazenda com todos os petrechos e mantimentos necessários enfim com o maior aparato de Capitães soldados e recado das mais couzas que lhe a elle foi pocível ajuntar. Partio no mês de setembro de mil e quinhentos setenta e cinco, e com tempos contrários a cabo de alguns dias andar espancando o mar tornou arribar a Baya com alguns navios e Bernrado Pimentel d'Almeida seu Sobrinho que ia por Capitão-Mor de Mar com outro seguio avante e fez viagem e foi a Pernambuco, donde pelo Tio não ir se tornou a Baya onde a achou enfadado e cansado da arribada todos os homens com suas matalotagens gastadas, e gastado muito cabidal que da fazenda de el rei nosso senhor si meteu na armada que se afirma que foi de muitos mil cruzados desfeita em Ar, sem mais lembrança do Parahiba que não causou pouca adimiração por o geral conhecimento que em toda a parte se tinha da importância desta empresa e mais pelo fruto que della se esperava como das outras e muitos bens que povoada em logo se fizerão e a de Pernambuco e Tamaracá, depois vindo o Governador Lourenço da Veiga no Anno de setenta e oito e querendo prosseguir esta empreza mandando ao Ouvidor-Geral e Christóvão de Barros Provedor-Mor lha encomendou cujo era Cosme Rangel de Macedo e pos-que no tempo que nelle estive houve muitos rebates de Pitiguares de todos fizerão recolher os moradores a Ilha de Tamaracá avizando sempre e procurando fazer formação mas não houve efeito e parece que Noso Senhor a tinha guardada para o tempo no qual havia de haver guerra a procurar-se de toda a força e coração e se concluise e escusase muito cabedal e excesivos gastos que os officiaes da fazenda de sua Magestade nesta empresa sempre fizerão e davão em despesa e seguirão para ostentação e seus intentos mas para ella alcançar e conseguir effeito e com isto pasemos ao tempo de El Rei Dom Henrique.

Como Furtuoso Barbosa foi encarregado do Parahiba

Capítulo 3º

El Rei Dom Henrique que Deus tenha em glória movido dos clamores que desas Capitanias lhe fazião e do dano que fortificados os Franceses com tanta multidão de gente Pitiguar encarniçados com tantas mortes podião fazer a instância de hum Furtuoso Barbosa que havia hido de Pernambuco, que por haver já no Parahiba carregado navios de pao por alguhas vezes no tempo das pazes que lhe os Pitiguares fizerão e por ter conhecimento da terra que delles e ter prasa e muitas palavras o encarregou da conquista de povoações do Parahiba por contrato que fez em sua fazenda dando-lhe para isso as provisões necesarias Náos e mantimentos e conquistando e povoando o Parahiba a Capitania delle por dez anos. Chegou Furtuoso Barbosa a Pernambuco creio no Anno de setenta e nove em hum formoso Galião e ua zaura e outros dous Navios com muita gente portugueza assim soldados como povoadores cercados com muitos resgates monições e petrechos e cousas do Almazém necesárias asim conquista como a povoação que logo havia de fazer e trazendo um vigário aquem El Rei dava quatro sentos cruzados de ordenado e religiosos de São Francisco e de São Bento com toda ordem e recado necesário /como digo a empresa a fazenda de El Rei devia de montar um mui grande pedaço com que vendo-se enfunado e cheo de Senhoria e sabido a tal estado se varou todo por ali esquecendo-se da obrigação que traria em sete ou oito dias que esteve surto sobre Pernambuco sem querer desembarcar nem tratar o negócio lhe deu um tempo com que arribou as Índias na qual arribada lhe morreu a molhre sem ter acordo por não dizer outra escuza para entrar o Parahiba donde tornando ao Reino partio delle no Anno de oitenta e dous por mandado de el Rei Dom Phelipe noso senhor já com menos arrogância por que chegando ao Porto de Pernambuco se concertou-a com os da villa de Olinda que he a cabeça da Capitania de Pernambuco como pode que não desejavam outra cousa ordenando-lhes com o lecenciado Simão Rodrigues Cardoso, Capitão e Ouvidor de Pernambuco fose por terra com agente delle.

Assim chegarão a barra do Rio da banda do Norte com esta viptória com que consularão os da Armada e animados uns com os outros e tratados em sete ou oito dias que ali estiverão os meios de se fortificarem e povoarem da banda do Norte porque pareceo imposivel da banda do Sul do cabedello por ser mao sítio e não ter água e feita experiência em alguha que se abriu na praia e tudo muito praticado e não sei como feito pellos enconvenientes e emposibilidades que a tudo a tudo achava Furtuoso Barbosa fogirão a maior preça que o medo a cada hum ensinou por verem da banda dalém junto com muito gentio Potiguar mandando dali o galleão com aviso a sua Magestade do que pasava. Desesperado já Frutuoso Barbosa de suas vaidades se veio lograr um novo casamento que a sombra da governança de caminho em Pernambuco havia conseguido contando das perdas da outra Molher e filhos que nesta jornada havia perecido, e infortúnios que pela Parahiba havia padecido enfim ficarão ambos em calma e os inimigos mais soberbos e estas Capitanias peor que nunca e a de Tamaracá de todo desesperada e para se despovoar só o detinhão alguns poucos as esperanças que lhe durou hum Antônio Raposo que por procurador mandarão a Baya a pedir socorro com grandes requerimentos e protestos de encampações asim Tamaracá com Pernambuco, no outubro de oitenta e trez andando-se iso já traçando por ordem do General Diogo Flores de Valdes, do que he bem que se dê contas e como veio ter a Baya e partes do Brasil.

Como chegando Diogo Flores a Bahia de ordenou vir ao Parahiba

Capítulo 4º

No prencípio do mez de Julho do Anno de mil e quinhentos oitenta e tres chegou a Cidade do Salvador Bahia de todos os Santos metropol deste Estado do Brasil com oito náos Diogo Flores de Valdes resto da Armada das vinte e tantas que el Rei nosso senhor o mandou por General conquistar e povoar o estreito de Magalhães, donde vinha de arribada havendo deixado no Rio de Janeiro Diogo De La Ribeira seu almirante ao qual da Baya se mandou fornecimento de alguhas coisas para proseguimento da jornada como com efeito fez levando o Pedro Sarmento de Gamboa que por sua Magestade vinha provido da Capitania e governança do estreito de Magalhães onde o deixou e por o General Diogo Flores trazendo muito encarregado ajudase por todas as vias a conquista de povoação do Parahiba. Tanto que chegou tratou logo prover-se a iso como convinha e asim se asentou se fizese e se lha mandarão apresentar os mantimentos necesarios para prover a Armada em fazendo tempo de partir a Capitania de Pernambuco maz movido de tantas esplanações como aquellas duas Capitanias faziam se resolveo partir logo ainda que contra monsão no Janeiro que vinha de oitenta e quatro: daqui por diante como testemunha de vista por cumprir com a obediência serei mais largo nesta relação para a qual houvera mister nova língua e outra cópia para dizer os muitos trabalhos e variedades com que se procedem nas couzas desta empresa do Parahiba depois que o General Diogo Flores acomesou com o trabalho e ajuda do Ouvidor-Geral Martim Leitam que Deus parece para iso o trouxe a terra com as ajudas que lhe sempre dos moradores procurou e grandes diligências e estranhas indústrias que para iso buscou e asim comesarei deste princípio em que se asentou em concelho geral na Cidade da Bahia em casa do Governador Manoel Telles Barreto foçe o General Diogo Fores e em sua companhia o licenciado Martim Leitam Ouvidor-Geral de todo este Estado do Brasil com todos os poderes bastantes para effeito da conquista e povoação do Parahiba ainda que depois diso por particular ordem do Governador Manuel Flores foi por Provedor da fazenda e mantimento da Armada do Parahiba e do mesmo Parahiba Martim Carvalho morador na Baya que fora melhor por todas as vias não ter la ido que tão aveso foi sempre em todas suas eleições. Manoel Telles por que como nas cousas o zelo do serviço de Deus e do Rei não vai adante não ha que tratar dellas. Partio o General Diogo Flores de Valdes e o Ouvidor-Geral Martim Leitam da Cidade do Salvador Bahia de todos os Santos para o Parahiba aa primeiro dia do Mez de Março do Anno de mil e quinhentos oitenta e quatro com uha Armada de nove náos sete suas e duas Portuguesas e por máos aviamentos não partirão mais cedo chegarão a Pernambuco a vinte do mesmo e nesse próprio dia desembarcou o Ouvidor-Geral ficando de fora toda a Armada e aos vinte e hum fez juntar em Camará dom Phelipe de Moura Capitão e logo Tenente da Capitania de Pernambuco por Jorge de Albuquerque com os que antão se acharão na vela e juntar a jornada e chamar todos pelo termo per si e com rogos para aos vinte e quatro se juntarem no arrecife e se dar pressas e ordem a tudo como se fez que foi véspera de Ramos em que se também achou Dom Antonio Barreiros bispo deste estado que havia hido na Armada a visitar a Capitania de Pernambuco e Tamaracá e asim estava pousado com o provedor Martim Carvalho e ficou...se aprestase tudo para o domingo de Pascoa e lá partirem por terra Dom Phelipe de Moura por cabeça com a gente que o Ouvidor-Geral havia de fazer e aviar dahi e Tamaracá e ordenar tudo como logo começou mostrar naquela semana hum e hum e compondo-lhe suas cousas todas se aviarão muita parte dos moradores que ajuntou e Igaraçu que he hua, sinco legoas da de Olinda no dia asignado donde obrigado hir Dom Phelipe que arrependido receava de hir lhe juntou os da Ilha no engenho de Philipe Cavalcante athe onde Martim Leitam acompanhou o arraial que bem guiado se tornou athe havia mais gente e naquelles dous outros dias fez alguns quarenta homens com muita diligência e trabalho que entregues a hum Álvaro Bastardo lhos enviou e se juntarão comelle preto do Rio Parahiba aonde tiverão um recontro com os Pitiguares, e asim paçarão a Rio por sima por onde as outras vezes epasados a banda do Norte por elle abaixo forão de mandar a barra aonde achavão Diogo Flores que ahi achou juntas e varadas em terra sinco náos Francesas que já tinha queimadas e uha lhe fugio aonde da terra ao subir para uha náo lhe derão uha frechada nos peitos que lhe não fez nojo pelas boas Armas que trazia e asim juntos todas se procedeu na forma seguinte, porque o principal que se pretendia e verdadeiro feito era povoar-se a terra. Chegado e alojado ao arraial sahio em terra Diogo Flores e em conselho asentarão fazer-se hum forte para que sua sombra se povoase a terra, asentouçe mais a forma e ordem que se teria no situar delle e gente que nelle havia de residir para o qual nomeou o General por Alcaide o Capitão das Infantarias Francisco Castrejon o de mais confiança que trazia com cento e dez soldados Espanhoes todos arcabuzeiros muito boa gente dos Portugueses mamelucos e outra gente e ainda mais de sincoenta os quais porque havião mister cabeça quisera Fortuoso Barbosa a que o declara o General dor digo o General por Capitão e Governador conforme as provisões que lhe apresentou maz o ve-lo hir na Armada como pesoa privada com pouca conta e respeito e por outras resões que lhe parecerão e suas provisões dizerem que el Rei o fazia Capitão quando elle a conquistasse o que elle não fizera lhas não guardou remetendo ao exército Português elegese cabeça para os Portugueses que tratado o negócio por a maior parte dos mercadores de Pernambuco serem vianeses donde elle he e parecem fiarem o negócio daquelle a que sua Magestade o encomendava o elegerão e declararão por Capitão dos Portugueses e Governador da Povoação quando se fisece athe sua Magestade prover porque por ora todos havião estar no forte que tanto que se elegeu sítio se trasou logo e comesou de que Francisco de Castrejon ficou por Alcaide e Capitão e delle deu homenagens ao General Diogo Flores de Valdes e se lhe poz o nome de São Phelipe e São Thiago no dia dos quais apóstolos que he o primeiro de Maio Diogo Flores de Valdes se fez a vela caminho de Espanha onde chegou a salvamento. No forte trabalhou toda a gente do exército e gentio até se acabar que foi no fim de Maio o qual forte se pelantou uha legoa da barra da parte do Norte defronte da ponta da Ilha. Lugar a poder baixo e de roim água a muitos não pareceo bem mas foi forçado por não fugir a gente com o largo rio que lhes ficava em meio e atravesar por sima por o sertão ser perigoso e muito comprido por este e outros respeitos por sima de todos os inconvenientes se acabou e situou ali ficando-lhe de presídio e guarnição perto de sento e setenta homens e alguns de cavallo.

Salto do Capitão Falcão e fugida dos nosos

Capítulo 5º

O noso exercito Português por ver que sua estada ali ja não era de efeito se partio levando a via do sertão em busca do gentio inimigo onde o Capitão Simão Falcão enquanto asistiam na obra do forte espiava uha Aldea a salteou em uha madrugada com boa mão e felicidade matando alguha gente e captivando quatro pessoas com cuja lingua foi o exército pelo mesmo rumo buscar os inimigos athe uha campina que agora chama das outras três legoas do forte aonde se alojou o arraial e por ser a festa do espiritu santo e a gente ser dada a folgar se puserão a festejar com demasiado descuido o dia e oitavas havendo sinco dias que ali mal estavão e devia Dom Phelipe por descarga de sua dezordem que esperava seu sogro Phelipe Cavalcante que não andou bem em ficar no forte com achaque se veio ter com elles pelo Rio asima.

Uha tarde ouvindo uha trombeta e outro rumor apontarão se fose descobrir o campo por haver muito que ali estavão em ordem e indo asim athe dez de cavallo e alguns quarenta depé com alguha quantidade de Indios a ordem de hum Antonio Leitão de Vão em uha visitada menos de três tiros de espingarda que os começão açacodir de maneira que os desbaratavão de todo mando o Capitão e mais de trinta e muitos Indios e foi um desbarate tamanho e nosa dezordem que athe avista do arraial os vierão matando sem haver acordo para lhes acodirem antes se por todo em tamanha confusão que seos poucos inimigos que ali estavão o cometerão o desbaratarão que todos andavão pasmados e a frouxidão do Capitão Dom Phelipe que como foi noute com dobrada dezordem se deitarão a hum alagadiço que estava junto onde havião de tornar para o forte e sendo elle mais de tiro de espingarda que em partes sorvia lanças com pouco entulho que quando por elle passarão uns por sima dos outros como se fora por uha boa ponte, e foi cousa milagrosa ou milagre de medo a quem não sabe estes pasos: com este medo forão todos bater as portas do forte aonde o Alcaide enfadado de os ver tal os teve athe alto dia a chuva sem lhes querer mandar abrir que foi leve castigo para o que merecião. Pasado aquelle dia que todo o Alcaide e gente que ficarão no forte gostarão asim os perçoadem tornarsem em busca do inimigo com mais sincoenta arcabuzeiros Espanhoes que lhe o Alcaide dava dos do presídio tais estavam que nem com iso nem com e acharem ainda alguns noventa homens de cavallo e mais dusentos e quarenta de pés que quase farião trezentos que havia o maior respeito que athe aquelles tempos se juntou no Brasil se quiserão nunca abalar senão voltar para casa com deixarem mais e quatro centos Índios dos nosos mortos e mais de sincoenta homens brancos que a maior perda que estas Capitanias athe agora receberão por que quase tudo erão escravos, afora mais de sento de guiné e asim a maior fugido e sem nenhuha ordem se virão todos pasando o Rio deffronte do forte em barcos com bem de travalho por ser força do inverno que os tratou mal todo o caminho aonde també morrerão muitos cavallos e gentio a mingua por nenhum se guardarem huns aos outros e tais chegarão a Pernambuco de todo desbaratados no mês de Junho.

Do primeiro socorro que por diligência e indústria do Ouvidor-Geral se mandou a Parahiba

Capítulo 6º

Chegados desta maneira a Pernambuco logo naquelle mez começarão os requerimentos do Alcaide do forte e Furtuoso Barbosa por ficarem faltos de mantimentos e esta foi a maior que noso exército padeceo tudo por dezordens das cabeças que havendo farinhas a repartirão mal e por ficarem os inimigos victoriosos molestavão de continuo o forte porque esta nação de gentio victorioso não há quem a sofra porque são esforçados de sua pesoa mais que todos os outros e tão ouzados que não temem morrer porque tudo entre elles he opinião de valentes e so os detinha não levarem a fortaleza nas unhas a furia da artilharia que cruamente achando-os em descoberto os despedaçava a cuja sombra o Alcaide Francisco de Castejon em alguhas escaramuças que com elle esteve lhe mostrou o valor de sua pesoa e dos Espanhoes e de alguns Portugueses apesar de seu Capitão Furtuoso Barbosa que não tinha paçiencia com estas escaramuças e com requerimentos de medo as estrovava o quanto podia e dentro de sua casa que tinha no forte no meio dele e além encontrados elle e o Alcaide nos humores tudo herão brigas e maz palavras no que maz sofreu Furtuoso Barbosa e já que não tinha ninguém ao menos niso e sua paciência bem padeçeu e asim com medo uns e outros a fraca nação que havia do Rei ao som das brigas domésticas e da dos inimigos que todas as semanas corrião pasarão aquelles Mezes de Junho e de Julho sempre com muitas papeladas uns dos outros e requerimentos de socorro ao Ouvidor-Geral que como encarregado para iso do Governador e General Diogo Flores reconhecido por mais zeloso do serviço de el rei, tudo batia nelle athe os mantimentos que havia de dar Martim Carvalho que parece que por particular infloencia começou logo a correr pesadamente neste negóçio do Parahiba e a esa conta se comesarão desavenças entre elle e o Ouvidor-Geral o qual como fragueiro e impaciente dos vagares de Martim Carvalho brania e metia os officiaes da Câmara niso por pairar com o bispo compadre fugiam e grande amigo do provedor Martim Carvalho porquanto o mesmo bispo fizera com o Governador Manuel Telles que o mandase com aquelle cargo com o que ficou a villa quase dividida o Ouvidor-Geral com a Câmara que sober iso os apertava contínuo com requerimentos para os espetarem e as vezes nada abastava se via infinito e enfadonho contar aqui as particularidades que nisto pasarão, basta que noso algum pouco provimento se deu se não a força de grandes requerimentos e feros que ainda as vezes niso metia o Ouvidor-Geral com todas as superabundancias por outra via se mostrava zeloso e deligente que em verdade foi demasiado affeição a que nestas matérias teve ao diante muito mais mostrou maz por atalhos evitar ódios e não descobrir faltas paso brevemente por estas couzas.

No Agosto logo seguinte que do forte cresciam os requerimentos apertados os da guerra e fome que athe os cavallos tinham comido mandou Martim Leitão por mar vinte e quatro homens brancos a carrego de hum Nicolau Nunes com algum mantimento que no Navio mandou o provedor com tudo vendo-se o Alcaide Francisco de Castejon muito perseguido dos contínuos rebates dos Indios e tanto descuido do provedor si veo em Setembro a Olinda aonde achou Pedro Sarmento de Gamboa Governador do estreito de Magalhães que Martim Leitão tinha agasalhado chegando ahi destroçado e ambos por suas vias pedio mantimentos que o Sarmento houve pela do Ouvidor -Geral e foi maz para o Alcaide tão devagar se aviarão que andava impaciente pelo que achando-se um dia além de outros muitos em casa de Martim Carvalho com os juizes e officiaes da Câmara a portestar-lhe mantimentos em presença do bispo vierão muito roins palavras as quaes alguha gente de casa arrancou com os soldados do Alcaide em sima onde todos estavão e batalhada asim a casa sairão a rua com grande que se ordenou de muita gente por os do bispo viram chamando a que da Igreja e aos officiaes da Câmara acodem toda a villa e asim avolta e ódio o Ouvidor Geral de sua casa e os apaziguou como podia ficando disso Martim Carvalho muito peor por isso se tornou o Alcaide para o Parahiba em o Mez de Outubro maz provido e com claras mostras de o ser cada vez peor pelo ódio que com elle ficavam o bispo e o procurador mas consolava-se esperando proveria sua Magestade athe Janeiro com que se sahião seus travalhos.

O segundo socorro que se mandou ao Parahiba e destruição das náos Francesas

Capítulo 7º

No Novembro seguinte entrarão duas náos Francesas no Parahiba e reconhecendo o forte e uha grande náo Portugueza com dous atachos que lhe Diogo Flores deixarão se sahirão e foram surgir trez legoas abaixo da boca da Bahia da Traição e começando o trato com os Pitiguares que sempre forão amigos vierão correr ao forte trazendo alguns brancos que grandemente apertaram com grandes cavas que em voltas farião pellos não pescar a artilharia com as quais cobertas e outros ardis como práticos nas nosas guerras e ordem ajudados dos Franceses puseram o Alcaide em termos de desesperar de poder defender-se e logo diso avisou ao Ouvidor Geral com grandes requerimentos asim seos como de Furtuoso Barbosa asignados por Espanhoes e Portugueses; o Ouvidor no próprio dia que lhos davam se foi dormir ao arrecife que he o Porto de Pernambuco uha legoa da Villa onde a prestou hum navio de setenta toneladas a sua custa com artilharia munições e mantimentos e quarenta e tantos homens brancos escolhidos todos e de opinião e os mais delles de sua obrigação que todos folgarão de hir a seu rogo e sesenta Índios dos nosos de paz e em quatro dias ahi dando em uha rede portando doente os deitou pela barra fora que foi espantosa diligência e este navio com a gale de Pedro Lopes Capitão da Ilha Tamaraca que também juntamente o Ouvidor-Geral forneceu em que o mesmo Pedro Lopes foi por Capitão com quinze ou vinte homens e alguns Indios se juntou na Parahiba onde foram recebidos e estimados como a própria vida e salvação, os franceses vendo o socorro os quais pelo muito tirar do navio lhe chamando botafogo se recolherão a suas naos e asim dado ordens e consultado o caso o Alcaide com os Capitães do socorro que do navio era hum Gaspar Dias de Moraes soldado antigo de frandes que a rogo do Ouvidor-Geral aceitou sello asentavão ficase Pedro Lopes Capitão da galé no forte para respeito do muito gentio que dirião pasar de dez mil os que os tinham servido com suas covas e trincheiras que o Alcaide na sua galé e não que lá tinhão, e a do socorro foce buscar os franceses, a que tomarão o mar e varadas inteira lhe queimarão as naos e matarão alguns que foi hum honrado feito por serem as naos grandes e estarem avisados e com iso voltando a galé e navio, o que a nao por ser muito grande não pode fazer lhe foi forçado arribar as antilhas e malta foi a maior parte da artilharia que aqui tomarão. Chegados o navio e galeão forte desembarcando de subito e com a gente de dentro deram nos inimigos com tanto impetu que lhe ganharão as suas instâncias matando muitos com que se afastarão bem longe e os nobres cobrarão a agua que lhe tinham tomada os inimigos com isto desesperados se forão de todo e asim ficando os do forte mais largos que nunca a todos muito contentes com grandes Louvores ao Ouvidor Geral Martim Leitão se tornarão a Pernambuco a lhe dar neção de tudo e receber os parabéns da jornada que sento foi de muito effeito para desengano dos franceses e entenderem que mesmo na Bahia da Traição haviam de ter colheitas como prova que se tinha athe este tempo por impocivel os navios que de cado Sul focem a Paraiba tornarem a Pernambuco sem arribarem as Indias por a costa ja vir muito voltando e nem se parando vir de lá senão com nortes e nordeste pelo menos com qu etambém os pitiguaras se desenganarão de poderem do commercio com os Franceses lançados do Parahiba e com esta magoa e desejo de vingança ordenarão o que ao diante se segue.

Em como o Ouvidor Geral Martim Leitão foi ao Parahiba a primeira vez

Capítulo 8º

No fim de Janeiro de oitenta e sinco avisou o Alcaide ao Ouvidor Geral e Camara se juntava mais gentio que nunca e tinha feito tres sercas muito fortes ao longo do forte ativo depeobreiro de pés de palmeiras que por estupentas e groças de que naquellas partes há muitas os defendia da artilharia e todas as noutes os iam chegando e ganhando terra pela qual causa estava muito nervoso que por aquella via com as próprias cercas os haviam abambamdo athe se abraçarem e igualarem com o forte sem se poderem haver da artilharia nem as mãos se poderiam defender por no forte haver muitas doenças por respeito ao roim sítio água fomes com que muita principalmente dos Espanhoes que nos tempos pasados lhe era morta e asim estava em muito prigo e dependeria sem falta indo os inimigos avante aos oito de Fevereiro dobrou com maiores requerimentos e encampações de logo despejarem todos como sem falta por particulares avisos de lá de sobre athe terem o melhor embarcado em uha náo que lá tinham o respeito da qual nova toda a villa e Capitania se meterão em grande revolta e muito mais com se saber esta determinação dos do forte do Parahiba e por juntamente ser chegado em socorro aos Pitiguares o famoso /entre o gentio/ braço de peixe logo o Ouvidor Geral em lhe dando os requerimentos os mandou ao Capitão Dom Phelipe que por estas deligências do Ouvidor estava já liado com Martim Carvalho ao qual também se levaram outros sobre mantimentos vindo a iso o temedor deles do forte e com os da guerra ao Ouvidor Geral e Camara o Tenente no que estando todos concordarão juntamente o bispo, Capitão Dom Philipe, o Provedor Martim Carvalho, e Camara com todos os da governança e mais povo requerem ao Ouvidor Geral Martim Leitão em particularmente escrever a todos muitas cartas considerando- os com versões a que ninguém pode fugir para a jornada e avisando a muitos porque como no Brasil tudo he fiado e a maior parte dos nobres nessas cousas querem superabundâncias a que os mercadores já não acudirão era forçado fazel-os ele provém e aviar uns e outros e num infinito iso e ordenar o necesário, fez também duas Capitanias para sua guarda que depois mandou vanguarda pela confiança que nellas tinha por ser tudo gente solta e muitos e memalucos e filhos da terra porque estes nisto são de mais effeitos da terra, e estas duas companhias deu sempre a sua custa de comer e tudo necessário, e proveu de armas ainda que nos requerimentos que lhe fizerão para lhe haver de hir diria o Provedor Martim Carvalho que foi que elle aprovia a custa da fazenda de sua Magestade. Além dos dous Capitães da guarda que hum era Gaspar Dias de Moraes que de socorro antes havia ido ao Parahiba e Mice Hipólito antigo e mui prático Capitão da terra se elegerão mais de novo por Capitães Ambrósio Fernandes e Fernão Soares que se chamarão Capitães dos Mereadores foram mais os Capitães das companhias da ordenança da terra Simão Falcão, Jorge Camello, João Paes, Capitão do Cabo de Santo Agostinho muito rico que fez nestas jornadas por sim de todos em tudo com muitas avantagnes levando sempre a retaguarda e João Velho Rego, Capitão de Igaraçú e todos os da Ilha Tamaracá com seu Capitão Pedro Lopes e porque havia muita e boa gente de cavallo que foram sento e noventa e sinco ordenou três guiões de trinta cavallos cada hum dos milhores para acodirem ao que com presa hia mais um filho do Capitão Antonio Barbosa com a sua bandeira por elle ficar doente que em todas as jornadas o fez muito bem, leva a segunda deste exército sobre quem carregava o peso delle Francisco Barreto cunhado do Ouvidor Geral Martim Leitão a quem chamavam mestre do corpo e elle o pudera ser de outro de muitos milhares de soldados por sem esforço, aviso e destreza, e assim era estranho o cuidado e deligência com que a tudo ao dia se provia elle era a esperança de todo o arraial e a gosto de seu cunhado Martim Leitão ao qual Francisco Barreto sempre ajudou em tudo e acompanhou de maneira que se pode dizer por elle ser o fiel achates o qual com os que se ajuntarão a sua porta que foi a mais fermosa cousa que nunca Pernambuco vio nem sei se verão foi dormir no campo de garaçu no meio do qual mandou armar sua tenda de campo com outras duas pegadas, uha dos nosos dous padres e outra de sua despença, onde se agasalhava a gente de seu serviço que eram com as duas companhias cem homens. Aqui mandou o Governador Martim leitão ao General porque asim lhe chamaremos esta jornada deitar grandes bandos pondo graves penas contra todos aquelles que brigasem ou ransasem encomendando muito particularmente que houvese entre todos muita amizade e conformidade e outras boas ordens e necesárias que se se cá costumaram no Brasil não houvera os desconcertos e perdas que tivemos nos tempos pasados ali estive três dias esperando se juntarem todos os do termo que era cousa dever naquelle campo todos armados onde fez apasentador e mais officiaes de campo e tanto mais para ver quanto se menos via outro tal no Brasil de tantas nem tão boa e lusida gente, e até de todos os navios lhe derão de cada hum, hum, e dois soldados.

Da ordem da jornada e do primeiro rompimento e serca tomada

Capítulo 9º

Ao quarto dia que foi o primeiro de Março daquelle alojamento e foram dali deças legoas além do engenho de Phelipe Cavalcante com muita água e receio de os impedir o em mesmo...cabo deverão foi feita resenha e acharam-se quinhentos e tantos homens brancos dali foram dormir ao outro dia além do Rio de Tapurema aonde o General deu regimento a todos e ordem do que haviam de fazer repartir as companhias e ordenou que hum dos guiães de cavallo aos dias por evitar competencias foce sempre na vanguarda o outro na retaguarda e o terceiro na batalha onde elle hia porque da gente de cavallo escolheu noventa os melhores de que fez três guiões cada hum de trinta cavallos de que eram Capitães Christóvão Paes, Antonio Cavalcante, filho de Phelipe Cavalcante, e Baltazar de Barros, e ao Capitão que no dia tocava a retaguarda tivese obrigação de mais uha hora ante manhã com alguns Indios comerem e descobrirem o campo e asim com toda ordem pocivel e de conterem irem alguns homens de confiança com mamelucos e Indios por descobridores diante e pellas Ilhargas do exército metidos pello mato levando por cabeça hum Manoel Leitão com mais sete ou oito de cavallo e alguns arcabuzeiros que são doze aos quaes seguiram os nosos Indios forros e a elles as companhias da vanguarda em sua ordenança com ordem de nenhum butim a pé donde os cometesem e se derem signal uns aos outros e pasarem palavra ou correr nem como cá devemos de official em official sem embargo do caminho ser muito roim e tão cheo de mato que era necesário irem os gastadores diante fazendo encaminhar o arraial, enfiados huns tras outros e com a gente sem tanto que tomava mais de meia legoa ao comprido em um momento se sabia em todo o exercito tudo o que em alguha parte delle sucedia, e asim forão por suas jornadas em sinco dias athe entrarem na grande campina antes do Parahiba aonde pela lembrança do que ali em outras jornadas alguns tinhão visto iha a gente tão apertada que sendo ali tão bom caminho não andavam por mais recados se pasavam a vanguarda em que naquelle dia por ser demais importância iha Francisco Barreto mais pelo vagar tomando o General um galope em um cavallo que havia pouco tomava folgado foi ver o que era e achando ir iso já pelo mato os que tinhão o nome de gastado ves e que também hião a cargo de Manuel Leitão abrindo, com as fouces caminho por a fazerem de vagar os reprendem Martim Leitão e pos ali seu cunhado que por ser tarde avreviase para os não estorvar andando a noute, Francisco Barreto fez marchar avante a vanguarda com presteza enleado e o General esperou ali athe se meter em seu logar aonde hindo já quase sol posto se sentiu dar a vanguarda em uha grande serca e que alojava o Braço de peixe pegado com o Rio Taibore com mais de tres mil almas onde o açodamento no acometer de Francisco Barreto e de alguns Capitães e com sobrevir logo a noute escura e estar da outra banda da serca um grande alagadiso que asim se situa sempre o gentio para se acolher quando comprir foi causa de não se fazer grande proeza maz matarão muitos dos inimigos que o grande odio não consentia neste primeiro impetu captivar estes emprendimentos com o guião daquelle dia se embaraçar de maneira que lhe foi forçado mudar as adargas a mão direita por causa da serca foi também causa de se não fazer muito mais, se mais há que em devendo uha serca muito forte com sua rede por fora e grande que prometia mais de três mil homens se lançando a ella como leons e a levarem logo nas unhas ainda que com alguhas poucas frechadas por que foi tal apreço que lhe não dera logo lugar nem tempo para desprenderem muitas, o que sentindo o corpo do exercito e retaguarda que ficava atras rebentavam todos por chegar com os dianteiros a briga e por pesa que se derão quando já chegarão era acabada entrando pois todo o exercito na serca que Francico Barreto detinha franqueada com a gente da vanguarda e alojados todos nella com alguns rebates e repiques que tiverão dos inimigos que com presteza e animosamente se baterão repousarão todos ali aquella noute e a sua vontade onde acharão muitas farinha feita e armas e pólvora para hirem sercar o forte segundo os captivos dicceram.

Como se tentarão as pazes com Braço de Peixe que não sortirão effeito

Capítulo 10º

Ao outro dia pela manhã sedo logo os Indios se puzerão as pulhas como he seu costume em hum teso alto defronte da nosa cerca alem do alagadiso com os quais por se entender serem da gente do Braço de Peixe o General que desejava ter paz com elles e apartal-os dos Pitiguares e reconciliarem-se do mao que morte de sento e tantos homens de Gaspar Dias de Ataide e Francisco de Caldas na serra havia pouco converzão tinham feito mandou descer todos da cerca e por línguas travar práticas com elles que estivesem seguros e reprendendo os de fugirem pois so buscavamos os Pitiguares com os quais nunca queriamos paz, mas com elles sim dizendo-lhe maz que o General era homem do Reino fora das malicias do Brasil e estava muito bem enformado da sua amizade com os brancos pellos quaes sabia quebrara a paz e que se os Capitães forão vivos os mandara el Rei por elle castigar, e com resto vierão em práticas por via de Indios e bons linguas principalmente pello padre Jeronimo Machado que no alagadiso com resguardo estiverão todos mandando-lhes dar vinho de que todos beberão onde concentrarão dados arrefens mandar já o Braço seus embaixadores depois de jantar asentar pazes com o General, o qual neste meio tempo trabalhou com boa desimulação por Indios linguas descobrirem o alagadiço se por sima ou por baixo daria vao a gente que sucedendo fazia conta mandar por entre o mato tomando-lhe as costas no oiteiro, mas não havendo nisto remedio pella grandeza do alagadiso e espesura do mato a roda e por pouca vontade dos nosos ao meio dia vierão tres indios do Braço a tratar das pazes que forão ouvidos na tenda do General que examinados por linguas pello Capitão Simão Falcão e feitas todas as diligencias e ostentações e artifícios que parecerão neseçarios por o Braço e os seus terem consigo muitos Pitiguares juntamente com o medo de suas proprias culpas nada bastou para o asegurar e asim tornando-se a tarde quiserão lá matar os de fora ficou a guerra rota que os inimigos estimando pouco esquentarão toda aquella tarde com trinta e tantas espingardas e muitas frechas, ao que ainda querendo atalhar o General vierão os desenganar mandou sahir por sua ordem todas as companhias e gente por uha campina entre a cerca e o alagadiso que naquella manhaã para o que sucede já tinha mandado notar estendidos por alli todos os Indios por se me mandou mostrar de dous berços que trazia em

carro, e bem varejados em hua caiçara tranqua donde os negros pelejão e se defendem que no cume de hum pico no cavo hua queimada os inimigos haviam feito e com outros muitos asombros nada bastou para quererem paz , com isto se resolveu o General em lhe darem ao outro dia batalha mandando aquella tarde fazer muitos feixes de farinhas que ao longo da serca havião contado para que com as pontes que o gentio no algadiço havião feito pasarem da outra banda, e asim anciosos muitos no arraial, ou medrosos de por todas as partes naquella tarde e noute sentirem gentio trabalhar cortando nos matos para seus repairos e continuas rebularias de que muito usão não foi nada trazido ao arraial esta determinação do General o que se vio melhor no conselho que esteve aquella noute na tenda do General que foi asas vario e confuso e a seus lados se asentou ficasem ali as duas partes do arraial e a petição de todos Francisco Barreto ficou ali com elles e elle athe com o terço logo nomeado iha dar nos inimigos no pico ficando ca tudo provido para o que secedese e asim foi a muitos bem triste e espantosa noute aquella quanto o dia seguinte fermoso e alegre que tal he o mundo.

Como foi desbaratado o pico do Braço de Peixe

Capítulo 11º

Ouvindo misa ao outro dia pella manhaã muito sedo partio o General com as companhias da vanguarda somente e o guião de cavallo de Antonio Cavalcante que mandou o roçado e em uha queimada nadar da nova parte do alagadiço por alli não arrebentar alguha sillada e nos tomarem as costas e levando o padre Jeronimo Machado um crucifixo diante, acharão no algadiço muito estravo por de noute os inimigos cortarem muitas arvores com que atravesarão e embarcarão todo com isto e com andarem muito soltos pella queimada da outra banda as frechadas, e arcabuzadas se pasava devagar e havia muito nesa e com a presa e pero da gente se não ajudarem das foices os gastadores e machados nem ordenarem bem a faxina que cada hum trazia chegou a cousa a tanto que foi necesario ao General agastar-se com alguns e mandando ficar a companhia de Ambrosio Fernandes que subindo houvera de tomar a parte direita e ficando com ordem de não bolirem do alagadiço athe todos serem emsima arrancou da espada jurando havi ade escalra o primeiro que falaçe senão obrarem todos como esforçados histo he meteu-se apreçado ao paso carregando nas costas dos genteiros fez pasar uns as vezes por sima dos outros e tomar a ladeira asima bem depresa muitos pella aspereza da costa e pedras com que tambem lhes tiravão se detiverão mais de hum grande quarto depois de recolherem os inimigos no forte que por arte e por natureza lhe estava após sabião os moços em pes e mãos e aferrando todos a cerca não na acabavão de render o que sendo o General tomou hum ingres que levava consigo armado e sobindo as costas em sima da cerca com uha fermosa lança ingresa de fogo acesa fez tais terramotos deitando infinidade de peladuras que dentro em si tinha despejarão os inimigos por ali e derribando as nosas duas ou tres lanças derça (sic) que todos tinhão contado caso de romanja tornando alguns de baixo mas sem perigo e os foram seguindo hum pedaço ainda que o roim caminho e empedimento que para este tempo os inimigos tinhão feito que para nos era muito que elles são bichos do mato foi causa de escaparem muitos o que ordenou asim Deus para nos ficarem como agora os temos por amigos: corridos asim mais que os nosos o puderão mandou o General queimar toda a caiçara e madeira e asolado tudo se tornou para seus companheiros a cerca que o vierão subir fora com grandisisima e demasiada alegria parecendo a todos seria o negocio concluido, e asim com o fé deu saudamos o levarão a uha jamida de rama no meio da cerca onde dirião misa e no mesmo dia a tarde houve um rebate da banda do Tibere a que alguns Capitães acodiram desordenadamente e por ser a revolta grande mandou o General a Francisco Barreto os foce recolher o que fez muito bem e com muito acordo por que em a escaramuça que se travou forão mortos alguns Pitiguares sem dos nosos haver ferido e por não ser já de effeito a estada ali ao outro dia mandou por fogo a serca que toda ardeu e com todo o exercito pello Rio Tibóre abaixo foi seguindo os inimigos e forão dormir dalli duas legoas aonde se agora chama as mares e descansado ali tudo por se entender haverem dado volta os inimigos pella campina juntando-se com os Pitiguares arrancados todos os mantimentos que ali foi pocivel que foi a maior guerra que se lhes pode dar nos tornamos asima deixando queimada duas Aldeas que ali tinham a buscar outra cerca que asima do Tibere tinham nova e do gentio principal por nome asento de pasar o aonde antes de chegarmos ao terceiro dia pela manhaã com o embaraço do roim caminho que se iha abrindo pello mato e brejos se embaraçou e deteve tanto a vanguarda que depois de muitos recados foi forçado ao General com o Ouvidor da Capitania Francisco do Amaral que sempre os seguia contara gente apiando-se para poder melhor pasar avante e ir rompendo a ver o que era chegou aos dianteiros que com hum roim paso e inimigos corredores que se atravesarão diante se detinhão, vendo isto o General com persteza pos alem de hum brejo seus arcabuzeiros e alguns Indios por força por todos temerem e pasando elle empesou da outra banda do brejo fez a presa eitar grandes ramos de arvores e alguhas inteiras com que em breve entretendo os inimigos com alguhas arcabuzadas e levando-se sempre de gente que continuo hia paçando segurou o paso e mandando logo recado ao exercito marchase depresa por elle entender ser aquilo detença dos inimigos para melhor os despejarem entretanto aserca do molherio e filhos com defeito hera e ainda que o General com toda presa com a vanguarda marchase e se adiantou aos seguir já achava a serca que era grande e forte despejada ainda que em alguns velhos, e femeas que não puderam fugir se vingou o noso gentio e ali separarão aquelle dia com outro por que com os muitos alagadiços e diversidade de opiniões dos caminhos que ninguem sabia (e não se espante alguem pois athe esta jornada as de antes foram estrada de cegos em que era forçado ir por sima e fugir pella praia) e asim com estas duvidas e informaçoes se resolveram tornar o Parahiba abaixo buscar o paso para o forte aonde se asentaria o que compria ali vimos huns grandes labarentos certo que ainda que barbaros muito para notar que os nossos inimigos tinham animado pello outro caminho que ia ter a esta area que era a estrada e certo que farião adimiração os fogos que chamão mondes, trincheiras intulhadas de terra cegas de rama e muitas uhas com as outras ao longo do caminho pello mato e tão cortado e embaraçado desas cousas que a não haver grande cautela sincoenta bastavam a sinco mil maz de tudo noso Senhor nos guardou e desviou: Pasado embaixo o Parahiba dali tres dias chegamos ao forte que era cousa piadosa de ver asim o dannificamento com as peçoas dos salvados que bem mostravão a fome e mizerias que tinhão pasado com as roinas que por ser de taipa havia tudo mister reparado e logo na tarde que aqui chegamos procurou muito o General com Furtuoso Barbosa fisese ir duas legoas acima junto das mares aonde havia muitos mantimentos da parte do Sul do Parahiba aonde agora está a çidade de Nosa Senhora das Neves fazer povoação para o que lhe juntava oitenta homens e Indio os mais que pudese e se oferecia estar com elle dois meses e os outros seis seu cunhado Francisco Barreto maz nunca se pode acabar com elle e por autos que diso se fizerão dezestio de tudo dizendo que não estaria mais uha hora no Parahiba por sima de tudo isto determinou o General fazer seo deste sitio que logo a todos pareceo bem a povoação aguentada com forte e era cousa facil sustental-a para o que cometeo a Pedro Lopes e outros maz não pode concluir e por não poder tempo mandou ao Capitão João Paes com tresentos homens de pe e de cavallo correr a Bahia da Traeção que no mesmo dia partirão, não continuei aqui as diferenças que teve aqui o Capitão Simão Falcão sobre os generalados destas idas que depois de muito sofrimento do General lhe costou deixado preso no forte, e outra que teve com o Alcaide Fernão Soares Capitão dos moradores e outras muitas graciosas de que o muito refresco que ali acharão nos barcos de mar que não são de minha obrigação com cada hum ahi ter os seus mimos e provimento nos barcos que eram chegados.

Como o Capitão Castejon fugio e largou o forte e o Ouvidor Geral compreendeu e agasalhou os soldados

Capítulo 13º

O primeiro de Junho do mesmo anno de oitenta e sinco chegou nova a Pernambuco hera chegado a Tamaracá o Capitão Pedro Lopes que o Ouvidor Geral Martim Leitão deixara com alguns Portugueses no forte do Parahiba em companhia do Alcaide e que trazia algum facto e que todos publicavam desejarem-no de todo logo e que era cecreto buscavam piloto para de lá os levarem com os Espanhoes as Indias e como o Ouvidor Geral andava tão pronto e receoso destas cousas logo pela posta mandou buscar Pedro Lopes do qual enformado em quatro dias concluiu com elle se tornase asistir no forte como o deixara com alguns da terra e gente no qual estivese athe Janeiro com obrigação de lhe darem cada mez sincoenta cruzados porque não seria posivel deixar el Rei de athe então de avisar e prover por cuja falta se despovoava isto dificultosamente aceitou Pedro Lopes maz com promesas de qualquer achaque com que o Castrejon viese o deterem por sua ma condição fogiam também della, e feitos altos com a Camara e aceitado sahio nesta materia e outro maior incoveniente de todos que foi resolver-se o Provedor Martim Carvalho que então mal provia o forte o não querer mais fazer por nenhua via nem iso entender e asim respondeu por altos públicos, que asas niso repetiu o Ouvidor Geral e asim ficou tudo desarmado e se concluira peior se o Ouvidor Geral não tratava este negócios por via de emprestimo com que logo mandou ao Capitão Pedro Lopes fizese rol do que havia mister para provimento de cem homens em seis meses e feito e somado em tres mil cruzados os mandou logo tomar e repartir pelos mrecadores que tinhão as cousas necesarias aos que tais se satisfazia com creditos de João Nunes mercador e tomando navio e aviados por não suceder no forte fazerem do Alcaide com os Espanhoes aballo lhe fez escrever da Camara com muitos mimos e certeza de serem agora muito melhor providos pois haviam de correr por elles livres de Martim Carvalho que muito deviam estimar o mesmo lhe escreveo o Ouvidor Geral e com estas cartas se foi Pedro Lopes aviar a sua casa na ilha Tamaracá aonde o havia o navio e gente de hir buscar de caminho e elle entretanto avisaria o Alcaide, e ou o diabo atecese ou tivesem com amigos e com Espanhoes já tratase Pedro Lopes não avisou ao forte nem mandou as cartas indo iso tao encarregado e as teve em seu poder sem as mandar, se fala venda de Pedro Lopes des de oito de Junho athe vinte e quatro que estando tudo a pique para outro dia partir o navio e de caminho hir pella Ilha se começou a dizer serem chegados castellanos do forte à Ilha dizendo vinha o Alcaide atrás e deixava tudo arrasado, a isto que em breve concluiu a terra se juntou toda a Villa as ave marias em casa do Ouvidor Geral causou lastimosa porque os homens costumados já com o forte principalmente os fronteiros algum repouso andavam pasmados o Ouvidor Geral que nestas cousas não dormia aventou se juntasem logo pela manhaã no collégio, Bispo, Capitão Dom Phelipe, Camara, Provedor Martim Carvalho e na mesma noute espedio os seus officiaes que façam buscar a Castrejano e lhe trouxesem pureza a bom recado como fizeram, e nas preguntas não deu outra visão senão da fome e não ter aviso que era asas fraca pois para a fome confesava com muita seguridade depois da guerra que havia dado o Ouvidor Geral não aparecer mais inimigo e hirem ahi brancos que lhe havia deixado pello Rio acima buscar mantimentos que era asas provimento e a tardança foi pouca, maz devião de estar enfadados e vingarão-se em deitar a artilharia ao mar e uha náo que lá estava ao fundo a por fogo ao forte e quebrar o sino e com iso se vierão a Villa como quem não tinha feito nada e por nosos pecados que sempre desfazem o bem e ajudam o mal asim lhe sucedeu depois, por que no Reino ao Castrejano aonde o Ouvidor Geral o mandou por mandado de el Rei preso, sahio elle bem pello Ouvidor Geral não sei como, são frutos do tempo que jaz em officio em execução dar rezão: ao outro dia pela manhaã juntos em modo de conselho no collegio houve alguhas duvidas com que o bispo e outros movidos de quam maldade do reino respondia a tanta importância dificultavam a empresa que a verdade estava mais duvidosa que nunca por ser sobre tantas guerras e lá se consumirem tantas vezes os nosos e se recearem Franceses que nunca ali faltavão e os Pitiguares se refazerrem no noso forte pelas quais causas todos dirião que nunca na terra sem groça mão do Rei haveria força para os deitaram delle do que em ninguém havia confiança por serem iguaes em o mundo antes em todos desmaio grandisimo e maiormente pello desamparo com que os officiaes de fazenda haviam largado de todo o negocio de tanta emportancia se o Ouvidor Geral Martim Leitão todo aecso em colera e fervor com que andava e com muitas rezões os não persuadia a de entre si elegerem hum homem que com cento e sincoenta que se oferecia a buscar-lhe, e gentio com despesa e velualha que estava buscada tornase logo recuperar o perdido e senão que elle com os seus e amigo que pudese estava determinado meter no noso forte arruinado por os que tinhão obrigação de o defender e isto com tanta veemencia e requerimento protestos e ameasas da parte de sua Magestade que os espentou e aviventou e asim elegeram ao Capitão Simão Falcão, que pareceo pesou para iso por Furtuoso Barbosa em nehuha maneira querer aseitar esta empresa com estar a tudo presente de que Simão Falcão foi logo avisado e o Ouvidor Geral com pregões indústria e suma deligência juntou todos os Espanhoes que do forte vierão,e a presente na terra haviam dos quais e fez duas esquadras de quarenta e dous que ajuntou em uhas casas a que cada dia faria prover de nação ordinária de sua casa e a sua custa não se esquecendo por via dos padres da Companhia a encomendar este negocio muito particularmente a Deus esperando ainda alguas boas novas da inteligencia do Braço de Peixe/ como atras dise/ que Deus acode e aprove tudo.

Novas do Braço de Peixe princípio das amizades

Capítulo 14º

Havendo neste mez de Julho alguha dilação pelo juntar da gente a qual nestas partes he muito dificultosa com da de juntar para guerra mormente para esta tão cançada e por adoecer Simão Falcão tanto ao cabo como esteve e no fim deste mez chegarão dous Indios do aviso de Braço de Peixe ao Ouvidor Geral pedindo-lhe socorro contra os Pitiguares que tornando-se pello seu recado para baixo ao mar o sercarão por mezes e tinhão quase desbaratado, neste própio dia vestio Martim Leitão os Indios e se foi ao arricife com João Tavares Escrivão da Camara e Joiz dos Órfãos e apareser de todos pareceu mais conveniente e por serviço del Rei e por lho elle rogar aseitou socorrese, como havia annos ao mesmo Braço no sertão havia feito e asim com doze Espanhoes bem concertados e satisfeitos e oito Portugueses com uha caravela equipada e concertada para tudo com alguhas dadivas e bom regimento partio do porto de Pernambuco a dous de Agosto de mil e quinhentos oitenta e sinco aos taes chegou pello Rio asima em fala do gentio...veio com seu resguardo e bom recado conforme ao regimento que levava com o Braço de Peixe e mais principaes no porto que agora he a nosa cidade e os antigos chamarão de Cananéia asombrado os Pitiguares primeiro com alguns tiros que presumindo mais forças fugirão. asentaram as pazes dadas suas dadivas e arrefens sahio o Capitão João Tavares dia de Nosa Senhora das Neves por cujo respeito depois se pos ese nome a povoação e tomarão por patrona e adevogada debaixo de cujo amparo se sustenta e ordenarão um forte de madeira com as costas no Rio onde se recolherão, avisado logo o Ouvidor Geral se alvoraçou logo toda a Villa e moradores destas Capitanias parecendo-lhes e com razão e não já todos seus travalhos acabados e depois de muitas graças a Deus sobre iso chegaram os linguas por terra com obra de quarenta Indios com embaixada do Braço de Peixe e dos principais aos quaes todos o Ouvidor Geral em sua casa agasalhou e vestiu e festejou vestindo os cabeças e avisando o Capitão João Tavares do que devia fazer mandando-lhe mais vinte e sinco homens deitada a sorte por os Espanhoes estarem ainda muito enfermos e mandando-lhe vestidos finos para os principaes grandes minaos e todos muito contentes os tornou a mandar e com grandes defesas não houvese nenhum genero de resgate e de que o Ouvidor como experimentado he muito inimigo e com razão que iso he o que dana e estraga o Brasil.

A segunda jornada do Ouvidor-Geral e como se fez o forte

Capítulo 15º

Para se prefeiçoarem estas pazes com os Indios e que Deus por indústria do Ouvidor Geral Martim Leitão nos tinham feito me pareçeo necesario não se perder tempo antes importava ato da afiaria irse fazer um forte e recuperar artilharia e asentar a povoação por se os Franceses neste verão não virem fortificarem-no que Francisco de Castrejon deixara para o que por todos asentados que ninguem podia fazer todas esas cousas senão o Ouvidor Geral Martim Leitão ao qual o pediram e requereram todos e elle aceitou por serviço de Deus e del Rei, e por bem destas Capitanias e asim se partio para o Parahiba a quinze do mez de Outubro do mesmo Anno com alguns amigos e seus officiaes e criados que fariam numero de vinte e sinco de cavallo e quarenta de pe levando pedreiros e carpinteiros e todo o recado necesario para fazer forte e o que mais cumprisse e chegou aos vinte e nove onde foi grandemente recebido dos Indios e brancos que ahi estavam e a os principaes que vierão uha legoa recebel-o abraçou hum, e hum com grande festa e fazendo apiar os de sua casa os fez hir a cavallo e alguns pello que tinham pasado com os brancos tremiam de maneira que era necesário illos sustentando na cella com este triunfo os levou pelo meio de suas aldeas bem vestidos com que lhes havia dado, com o que uns choravam e outros riam cousa muita para ver e logo em esa noute se enformou dos sitios e particularmente em segredo tinha incomendado lhe buscasem com todas as comodidades necesárias para a povoação a Manuel Fernandes mestre das obras del Rei, Duarte Gomes, João Queizada e outros, e o Capitão que todos estavam para iso delle prevenidos em segredo maz encontrados nos pareceres dos sitios ao outro dia o Ouvidor Geral ouvindo misa antes de sahir o sol, que caminhando e onde nestas jornadas sempre lhe dicemos foi logo a pé ver alguns sitios e a tarde a cavallo athe o Ribeiro de Jaguarippe para o Cabo Branco e outras partes com que se recolheu a noute enfadado encomendando iso na manhaã que vinha a nosa senhora devotamente foi Deus servido a sua interseção como padroeira de aquella nova planta concluise que acentase naquella parte sobre o porto aonde agora está a cidade planicie de mais de meia legoa muito chã de todas as partes cercada de água senhora do porto que com hum Falcão se pasa além he ribeira de água doçe entre elle e o porto que he singular e tão alcantilado que da proa de navios de sesenta toneis se salta em terra donde sahe hum poderoso torno de água para provimento das embarcações que a natureza ali pos com maravilhosa arte e muita pedra de cal onde logo mandou fazer hum forno della e tirar pedra hum pouco mais asima, maz perto com que visto tudo muito bem e buscando mato daquelle sitio e tudo ruçado e limpo, a quatro de Novembro se marcou o forte de sento e sinquenta palmos de vao em quadra com duas guaritas que jogão oito peças groças uha arreves da outra e alicerces de pedra e cal para cujo principio se fez ostra de pedra com duas juntas de bois e com uha duzia de vacas que levou para insar a terra alem de muitas porcas cabras e todas as creações com que procuravam afeiçoar os homens a terra e certo que athe as galinhas que levava para si e doentes dos quais sua casa era a botica repartio por todos e com os carros e trabalharem maus e bons com seu exemplo que hum e hum os chamava de madrugada e apelidava a obra e repartia huns na cal outros no mato com os carpinteiros outros nas pedreiras e com os serradores barro e taipas porque os alicerces e cunhaes só o heram de pedra e cal e o mais de taipa de pita de quatro palmos de largo para o que mandou logo fazer oito taipais para todos trabalharem e era para ver a profia e enveja em que os metia cevando-os com sua afavilidade e com trabalhar mais que todos com o que duravam na obra de sol sem descansar mais que a hora de comer em que o trabalho e continuação veio a ser tanto que todos desejava adoecer como muitos fizeram para ter repouso chegando pois a obra em duas semanas de serviço a estado defencivo logo lhe mandou por artilharia que neste meio tempo com espantoso travalho e indústria por os búzios que para iso levou se havia tirado do mar cem se perder peça que foi cousa milagrosa só as camaras faltaram, mas com seis que ajuntou em Pernambuco e levava já com este pretexto com dous falcões que foram por mar com os caravelões da matalotagem se remediou o negocio, e depois por desastre se acharam lá mais duas camaras e asim asentada a artilharia e feito o posivel ordenou por se não perder tempo de que he muito inimigo, e o noso gentio senão apoiar como já começava fose João Tavares e Pedro Lopes com toda a gente dar uha boa guerra as fraldas de Capaoba e asim ficando-lhe somente ahi os seus moços e officiaes da obra e Christóvão Luiz, e Gregório Lopes de Abreu; foram todos os mais aonde andaram treze ou quatorze dias somente e tornarão com destruirem somente quatro ou sinco Aldeas cuja vinda tão apresada o Ouvidor Geral sentiu muito e logo determinou concluir o mais breve lhe foce posivel pelo que em respeito tinha determinar-a saber- a obra e torre que fazia para o Capitão sobre a porta do forte com duas varandas cousa nobre e uha grande casa para almazem sobradado para agasalhado do Almoxarife.

Como o Ouvidor Geral foi a Bahia da Treição

Capítulo 16º

Asim posto esto em boa ordem athe vinte de Novembro deixou ahi Christovão Luis com os officiaes e gente necesaria que foi mais da que convinha que João Tavares quando os dias atras foi levou mais de cem homens, e elle se partio com oitenta e sinco, e sento e oitenta Indios de noso gentio cousa asas temeraria o que todos lhe procuravam estorbar por todas as vias com roncas de estarem decerto náos Francesas na Bahia de Treição e com se fazerem muitos doentes e alguns de tantos trabalhos e maos comeres o estavam desiso e com isto e com lhe amotinarem huns trinta e sinco soldados Espanhoes que havia os quaes lhe chegarão a fazer requerimentos sobre iso com o que se acendeo tanto o Ouvidor Geral de cólera por também lhe não guardarem o devido respeito e se soltar hum de alcunha Paes mas do necesario que já também ahi havia posto o arcabuz nos peitos ao Capitão João Tavares por que o Ouvidor Geral o mandou tomar a ponta do forte em presença de todos lhe mandou dar alguns açoutes athe nos acodirmos, porque sabiamos quanto elle folgava de entonçe dermos e prometo a Vosa Reverendisima que nese dia partimos e foi gentil mezinha porque não houve quem mais boquejase fomos do forte dormir ao Tibere e dahi ao campo das ostras donde nos ajuntamos com o noso gentio metendo-nos o Ouvidor Geral em cabeça que era dobrada, e com seis alqueires de farinha de guerra que todos não levavamos de comer para dous dias do que respondia com muita festa que o fosemos buscar entre os inimigos pois niso e no forte o havia e para terra de gente viva hiamos, e asim fomos dahi asas descontentes todos e pellos cabellos a agua que chamão de camello e depois do sol posto chegamos ao Rio Mangape que são grandes oito legoas com o que nós e os negros da fradagem hiamos muitos e por respeito da mare ser chea e havermos de hir dar de noute com uhas Aldeas que estavam perto da outra parte do Rio esperamo se convinha dar aquella presa por os inimigos que haviamos achados atras na campina lhes não darem primeiro aviso e asim pasamos sem sear imoídos do travalho do dia com os cavallos pela redia e as mãos na boca por não soarmos como a mare deu lugar depois da meia noute paçamos todos e por não nos podermos ver as Aldeas com a noute nos deitamos ao som de um grande chuveiro que nos veio para de todo ninguém ter repouso e com a presa de somente cobrirmos as çelas e a Largas esperamos a manhaã e recado, e as dez horas demos em hum grande golpe de gentio que com o seu medonho e apostumado hurro atroou aquella ribeira bastante a fazer pasaram outros exercitos, e não oitenta e tantos homens em que entravão dezoito de roins cavallos e ese pouco entio que todos não faziamos trezentos de peleja e asim era para dar graças a Deus a confiança de Martim Leitão o gesto com que ao hurro tornou dizendo temos o que buscavamos, a elles o qual asim queria cobrir a cada hum como se todos forão filho se pasada aquela primeira nuvem de frechas que Deus desviou de nos todos nos serramos em esquadrão bem cobertos os poucos arcabuzeiros que havia com os vodeleiros por sermos todos tão poucos que tudo se podia bem ordenar e asim remetendo o Ouvidor Geral com os de cavallo que andavão a roda por o sitio dar lugar a tudo e pasada aquella estropiada com alguns quinze arcabuzeiros que o seguiram dando nos inimigos se espalharam elles pello mato e só obra de secenta foram fazendo animosamente rosto diante de uha poderosa cerca que estava a vista que era tao que certo nos asombrou a todos e a senão ver no meio da briga em tempo que já a fumasa da continua arcabuzaria e grita, e frechas não dava lugar a cuidar, fizera em todos maior aballo e começando o Ouvidor Geral a repartir a gente em duas partes a tiro de arcabuz para logo cometermos vimos alguns da vanguarda entrar pellas portas, ao que acodimos todos vendo as abertas, e os inimigos vardos pela outra parte aonde uhas grandes rebanceiras e brejos lhe seguravão as costas com o que se salvarão, seguindo-os somente alguns do noso gentio e corredores brancos que todavia sempre forão matando afora os que atras no recontro ficarão mortos, que não foram poucos, nem é poçivel serem aqui lembranças do que cada hum fez porque todos o fizerão honradamente ainda que nestes sobresaltos não faltam bons entremeses, e as vozes dos roncadores com que ficão mais graciosos aqui repousamos aquelle dia que todo se gastou em festas e contentamento de nos vermos tão poucos e tão valentes com o que cada hum se prometia bastar para todos os Pitiguares e certo que aqui esperimentamos como hum bom capitão de ovelhas faz leõis e asim curamos os feridos noso gentio de que para melhor nenhum morreu posto que muitos seguiram o alcance dos inimigos athe alta noute que tornarão e nos acharão as portas da serca que era muito grande repartidos vigiando por haver maos inimigos na Bahia da treição que estava perto, e pello Rio Manguape em duas horas podia vir aos inimigos socorro de Franceses e vendo nos tão poucos refazerem-se, maz recolhidos já todos repousavamos que se hade entender sempre com boa vigia que niso foi o Ouvidor Geral sempre mais prompto cobrindo de noute muitas vezes todas as estancias e tão severo que nada lhe escapava, e por iso dizia elle muitas vezes que antes queria poucos que em toda a hora os via que muitos e mais muitas partes onde a soldadesca não he deciplinada e nem tem as partes necesárias.

De como chegamos a Bahia da Treição e paso de noute milagroso

Capítulo 17º

Todo o outro dia gastamos em ver esta cerca que era uha fortaleza muito forte que cuido nunca se fez outra tal no Brasil e bem mostrava ser obra de Franceses porque tinha tres muito grandes guaritas de quarenta palmos de alto de cima das quaes de cada uha podiam pelejar quarenta homens e asim apapiavamos o padre Francisco Fernandes

e eu muito a vontade fora tinha sete cercas de rede uhas sobre outras em mil voltas em caracol que era um labarito que se perdia homem nelle e armadas muitas aboizes de grandes arvores que tocando-lhe um pasaro desarmavam e arrastariam vinte homens tinha alguhas seis ou sete tranqueiras para berços, mas Deus lhe tirou o animo e nos ajudava que então tudo não devia pois a christandade houve aqui diferentes pareceres por ninguem querer chegar a baixo a Bahia da Traição dizendo estarem lá duas náos e que com Franceses e gentio que já estaria muito mais junto se não devia cometer que era tentar a Deus que desemos volta com o feito e bastava tomarmos-lhe na barba a mais poderosa cerca que se nunca vio, e nisto estavam todos maz o Ouvidor Geral vendo que se não armavam a outra causa não quiz concluir e logo pela manhaã com desimulação e achaque de correr o campo mandou a Duarte Gomes com sinco homens de cavallo e outros tantos arcabuzeiros para os tomarem ancas comprindo e alguns quarenta Indios aos quaes em segredo deu ordem lhe fosem descobrir a Bahia da Treição que por lema hera dali quatro legoas e sucedendo qualquer cousa se recolhesem em posto seguro e avisasem correndo, que logo lá iria e asim forão e no caminho tomarão dous Indios e por se temerem de um que lhe fogio e lhes poderem também sahir de uha não que com sua lancha viam somente se recolheram debaixo de uha grande arvore e Duarte Gomes a redea solta tornou a avisar e chegar a nos com duas horas de sol e como o Ouvidor Geral parece o esperava em breve nos fez a todos partir dizendo que lhe acodisemos ou foçemos morrer com elles e mais pois lá não havia mais que uha só não como se della por roim que fose não poderá sahir tanta e melhor gente da que levavamos e com tanta multidão de gentio basta não houvese senão encomendar a Deus por ao caminho com a cada hum pode e tendo andado athe a meia noute com asas blasfemias contra elle de quem todos a uha a renegavam porque qual chorava os filhos, qual a mulher e elle que o ouvia, maz como fazia escuro mandava-se de uha parte para outra pello não verem e outras vezes falava alto com outras para lhes fazer vergonha e asim bem moidos do roim caminho que elle e todos fomos a maior parte a pé chegamos aos companheiros onde tudo se gastou em nos fazer calar e saber da mare porque haviamos de pasar o Rio Manguape da outra parte da qual nos ou que a iso forão por vezes o medo cegava para não verem ou todos estavamos arejados e contados do pouco sono e comida que neste tempo já era farinha de guerra somente e pouca, e do muito travalho ninguém atinou com as horas da mare estando hum tiro da pedra della e fomos demandar na boca do manguape na maior força e asim ainda que alguns dos primeiros não mandavam todos os mais foram nadando aonde foi cousa milagrosa não morrer nem homem nem mulher por que proveio Martim Leitão que naquelle paso que seria um bom jogo de barreira de largo andasem seis ou sete homens de cavallo dos quaes elle foi o prmeiro de uha parte a outra levando de cada ves tres e quatro pegados ao cavallo e a lança e muitos nadadores nos quaes se pegavam os que não sabiam que foi espantoso trabalho por ser grande o escuro com um chuveiro athe pela misericórdia de Deus se poram todos na outra banda sem se perder cousa alguha salvo a bandeira de Gregório Lopes de Abreu Capitão da vanguarda que se aqui por não saber nadar houvera de se afogar e não foi a peor desas jornadas antes João Tavares e elle Antonio de Barros Rego e Francsco Pereira e não todo, e pellos quaes o Ouvidor Geral sempre puxava e pelo seu meirinho Hector Fernandes, Francisco Madeira, Miguel Ribeiro, João Nunes, Duarte Gomes, Simão de Andrade, João Pamplona, o lecensiado Andre Magno de Oliveira, Antonio Lopes de Oliveira, Gomes Martins e os de sua casa estes poucos eram de cavallo que a tudo sempre supriram e asim demos muits graças a Deus por nos livrar de tal paso sem nenhua perda do que o Ouvidor Geral andava dando de parzer, depois de ouvir dizer que nunca cuidava que era para alguha cousa e não então, porque na briga o som do arcabuz aviva os espíritos maz aqui era peleja com os elementos que he guerra mais diferente da dos homens.

Como deram nos inimigos

Capítulo 18º

Pasados asim da banda d'além que seria duas horas antes da manhaã por não sabermos ao serto quanto hera dali aonde deviam estar a pavoção do gentio na praia defronte das náos que era fama terem forte em terra com alguha artilharia que era o que mais receavamos e faria dar presa ao Ouvidor Geral para com escuridão da noute não vermos os perigos que aprogoavam em hum tropeo de gente de cavallo com alguns arcabuzeiros de uha parte de noso gentio e os de pe da outra determinavam em rompendo a manhaã acometer isto feito algum fogo em que brevemente se enxugarão os arcabuzes nos fez logo tomar a praia que como athe então de nós não foçe sabida sobe tantos travalhos nos pareceu tão compridas como trabalhosa e a nos dar tanto acomodamento e presa com que aquecemos e nos esquecemos do travalho fora elle muito maior maz hindo o Ouvidor Geral com Duarte Gomes e Antonio Lopes de Oliveira descobrindo diante com três negros da terra a fomos andando athe em amanhecendo aprontados os de cavallo; como diçe para dar da parte do Norte e os mais do Sul remetermos ao forte que ali tinhão os inimigos todos com grande grita onde matariam athe vinte indios se o tomou vivo um grande principal outros muitos se deitaram ao mar por terem a terra tomada, e recolherão a náo dos Franceses, que todos estavam recolhidos com suas artilharias do dia de antes pello aviso que lhes deo o Indio que fugio a Duarte Gomes, e ali estavam todos muito de sobreaviso e tinham despregado tudo e so aquelles poucos desconfiados esperavam e porque a náo com a claridade da manhaã nos começou a varejar na praia com a artilharia vazamos todos a Aldea e povoação que estava logo asima a qual achamos toda despejada maz com muitas farinhas feitas e favos que foi grande recreação com os cajuzes fruta do mato que já começavam e asim a estancia dos nossos Indios para lhe destroirmos todos os mantimentos e asolarmos aquella estalagem aos Franceses, depois de não terem o Parahiba asentamos estar ali tres dias e logo a tarde fomos todos fazer mandioca que he arrancar os mantimentos que só os brancos fazem porque os gentios estes dias tudo he dormir esa noute mandou-os o Ouvidor Geral lançar ao mar tres ferrarias que ali havia de Franceses que foi cousa de importante tirallas aos inimigos que soltas os cevavão os Franceses, repairando-lhe estes tres ferreiros que ali já eram moradores suas ferramentas e esta foi a maior que se lhes podia fazer, achavam-se aqui mais de secenta caldeiras grandes e pequenas, e facto e muita ferramenta de que seu noso gentio carregou. Ao outro dia mandou o Ouvidor Geral vinte e quatro arcabuzeiros na baixa mar da madrugada de sima do arrecife que ficava sobre a náo metido na agoua dar uha tal sumiada com tres ou quatro cargas ainda que sem lhes fazer danno, maz temendo pareçer que o veriam a receber ao que viessem alguhas embarcações do Parahiba levaram ancora e se foram por ahi abaixo caminho das Antilhas esbombardeando-nos primeiro com a sua artilharia na praia se acharam alguhas molhadas de roim pao brasil tão delgado como varas com as raizes que se queimaram e asim não podiam dar melhores novas em França que a dos Annos pasados com isto ficamos muito contentes por da terra fazer levantar uma tão poderosa náo que prometia deitar de si quase cem homens.

Partida da Bahia da Traição para o Trejucupapa

Capitulo 19º

O terceiro dia carregados os Indios do esbulho e alguns mantimentos partimos hindo sempre ao longo da costa e asim fomos outros tres com a lingua dos Indios captivos em busca do Princepapo o maior principal dos Potiguares por ser muito grande feiticeiro e indo ao quanto bem descoidados antes do meio dia parecendo-nos já não achariamos inimigos gritaram da vanguarda Pitiguares e não se espantem falamos desta maneira sendo tão poucos porque como as guerras destas partes não nos matos sempre hiamos enfiado, por o roim caminho huns atras dos outros, e asim ainda que poucos como não podem ser em fileira nem ordem de guerra ocupam muita terra ao comprido por esta causa a grita e novas se concertou cada hum em seu lugar e marchamos depresa maz por neste tempo vir um soldado Espanhol dizer a Martim Leitão acodise que recuaba a vanguarda e havia feridos em calças e gibão como iha tomou cham arremesão a João Nunes e uha no delta a hum Indio encomendando a gente a Gregório Lopes de Abreu e Antonio de Bairos Rego. feitos e muito apercebidos de dias do seu feiticeiro que por desastre se nos acolheu em um cavallo que lá nos ouve há muitos annos, curados os feridos que houveram alguns e nenhum morto por a viptória ficar com dobrado gosto nos desviamos quasi sol posto com o que achamos na Aldea que tudo foi uma bárbara pobreza por nos não levarmos nada que como hospedes do Ouvidor Geral que em todas as jornadas nos levou sempre na sua tenda tirando a primeira que foi de maior aparato, sou boa testemunha de tudo e para milhor o feri com meu sangue proprio que por as feridas ser no peito do pe deu trabalho. Não faltou para de toda esta empresa do Parahiba ser trabalhosa e honrosa o sangue da Companhia, Ali estivemos ao outro dia e por serem doze legoas quem do Rio Grande aonde tivemos novas sem já todo o gentio pasado da outra banda, que como senhores de quatro sentas legoas desta costa não hera posível esgotal-os que este mal tem este gentio ser o mais e o mais unido que quantos houver no Brasil, e asim daqui nos tornamos ao forte aonde fomos recebidos com muitas festas e tornou o Ouvidor Geral a continuar nas obras em que Christovão Luis fidalgo Alemão de nação com os officiaes sempre havia trabalhado e se ordenou o posível e de todo acabou o forte, torres e casas de armasem com seus sobrados guarnecidos e cobertos e feitos também alguns repairos e a maior parte da artilharia e ficando-se acabando os outros tomou homenagem o Ouvidor Geral ao Capitão João Tavares e o deixou com trinta e sinco homens de peleja providos para quatro meses e com isto feito nos tornamos a Pernambuco a vinte de Janeiro de oitenta e seis que foi asas breve tempo para tantas cousas e obras maz tudo nos homens honrados o desejo da honra faz posivel.

A vinda do Capitão Moralles do reino e como se aviou o Ouvidor Geral para ir por mar

Capítulo 20º

No fim de Fevereiro seguinte vieram cartas ao Ouvidor Geral Martim Leitão del Rei se haver por bem servido no que fazia na povoação do Parahiba e ordenou para se pagarem os gastos que ainda athe o Abril que veio carregava sobre elles as quaes trouxe hum Capitão Espanhol coxo com sincoenta soldados Espanhoes, e para recolher asim os que cá ficarão os de Francisco de Castejon que foi grande bem ainda que se diso não surgiu effeito por elle ser cousa pouca e asim avisado em Pernambuco partio a doze do Mez de Abril seguinte para o Parahiba e haver de estar a obediencia de João Tavares Capitão do forte conforme a sua patente e todas a do Ouvidor Geral , mas o coxo tanto que la chegou deitou João Tavares fora do forte e a os Portugueses e os tratou de maneira que alvoroçou tudo e amotinado o gentio das Aldeas que todos os dias se iha queixar a Pernambuco, e sobre avisarem a este Capitão Castellano que se chamava de Francisco de Moralles que parecia mal o tomar o forte a quem tinha dado mensagem delle e que lho tomase se desentoou em palavras contra o Ouvidor Geral esquecido de sua obrigação e de quantos gasalhados e mimos em obra de um mez e honras lhe havia feito em Pernambuco e asim se enfrentou logo com elle e com a Camara e contados os Portugueses que houve muitos requerimentos o tirasem de la e mandase a elle por muitos e roins excesos que sempre nelle foram crescendo com os roins conselhos que lhe mandavam de Pernambuco inimigos do Ouvidor Geral e das boas venturas do Parahiba, a que todos os potentados do Brasil não tinhão paciência e cadeia de inveja blasfemavam do Ouvidor Geral e procuravam atalhar o infamal-o asim ca como no Reino e foi pasmo com estas invejas de cada vez mais crescerão e de outra parte me não espanta pois o Parahiba crescia de bem em melhor tudo o Ouvidor Geral foi desimulando e pairando athe o fim de Setembro do dito Anno por que aos vinte e sete dias delle lhe veio nova do Parahiba, e cartas que avisavão serem chegados à Bahia da Traição sinco náos Francesas com muita gente e monições determinados a se ajuntarem com os Pitiguares para combaterem e asolarem o forte do Parahiba com as quais cartas vinha um grande requerimento do Capitão Moralles e moradores asim elle Ouvidor Geral como ao Capitão de Pernambuco e Camaras os focem socorrer: recebido este requerimento fez logo Martim Leitão ajustar no collegio ao Capitão de Pernambuco, Camaras e officiaes da fazenda e os mais nobres e ricos da terra aonde por todos foi asentado/ antes de crescer mais aquella ladroeira e sahir dali algum grande corpo de Franceses que junto com os Pitiguares nos deitasem do Parahiba/ com vir muito acodir-lhe, e que ninguém o podia fazer se não o Ouvidor Geral Martim Leitão como dantes tinha feito, e asim todos juntos lho pedirão e requererão em nome del Rei e elle aceitou ordenando mais que fosem tres náos e os caravelões que houvese e sento e sincoenta homens de peleja afora os do mar e alguha gente de cavallo por terra que se juntaria com alguns cento de pe que haveria no Parahiba para que lhes desem por terra e por mar uha boa guerra e que as náos pelo que importava ao serviço del Rei e trato do Brasil se aprestasem a não haver mais que duas roins náos se começou dar ordem para se fazerem repairos para dartelharia por na Capitania não haver cousa com cousa e fizeram-se os repairos e consertouce artilharia todas e começaram com as náos a levantar caravelões e por Francisco de Moralles se querer vir neste tempo do Parahiba como veio lhe escreveo Martim Leitão pedindo-lhe tal não fizesse e que chegando lá o acomodaria e serviria em tudo como sempre o fizera e quando de todo em todo se quisese vir neste tempo do Parahiba não houvese os soldados del Rei, mas nada bastou para se deixar de vir e trazer os soldados, e persuadido de alguns de Pernambuco invejozos e inimigos do Ouvidor Geral largou o forte e se perdeu e estragou em a Villa de Marim athe se vir para o Reino e por que a vinte de Outubro se soube haverem chegado mais à Bahia da Traição outras duas náos que eram sete que se requeria melhor recado pelo enedito, e honra do serviço del Rei porque se hiam ja naquelle negocio arriscando todas estas Capitanias asim na artilharia como na frol da gente que se aviava para hir com o Ouvidor Geral que esa boa ventura teve sempre mais que quantos capitães houve no Brasil sem penna nem força lhe não faltar nunca no que quis a gente necesaria pello que se tomou mais uha náo que chegou do Reino e postas a monte e provida dexavetas e fortalecidos para poderem sofrer artilharia athe entrada de Dezembro se puzerão a pique tres náos mercantes, dous bons caravelões ou zabras de que eram Capitães Pedro de Albuquerque, Lopo Soares, Tome Rocha, Pedro Lopes Capitão da Ilha Tamaraca, Alvaro Velho Barreto ainda que depois faltou, ordenado isto foi o Ouvidor Geral athe o engenho de Phelippe Cavalcante que he sete legoas da Villa de Olinda com vinte e sinco homens de cavallo bons que com os que havia nos Parahiba fazião trinta e trinta de pé e despedindo-os dali se tornou para da Villa embarcar prometendo-lhes primeiro ser com elles na semana que vinha, e asim se foi logo ao Recife aonde se começou de juntara gente que se tinha offerecido e que de longe sempre para estas cousas ia fazendo e no arrecife estiverão embarcados treze dias com tormenta de nordeste espantosa cousa nunca vista porque dentro no Rio se desamarrou uha náo e deu a costa e temendo o Ouvidor Geral a tardança quis mandar hum caravellão el Rei com aviso ao Parahiba e não tais os nordestes que o levarão sem nehum remedio alem do Cabo da Ilha de Santo Aleixo com este travalho estando todos pasmados e Ouvidor Geral atribulado de não poder asim com tanta gente fazer viagem chegou Alvaro de Resende com muitas cartas e grandes requerimentos e protesto de largarem todos tudo se o Ouvidor Geral não era lá athe dias de S. Thome e por estarem todos muito asombrados da muita gente Francesa e Pitiguares que quatro dias haviam dado em uha Aldea das nosas fronteiras cujo principal era o asento do pasaro o milhor Indio dos nosos, aonde matarão mais de oitenta almas e dous castilhanos com se la davam todos por predidos e por se lá não acabar de perder tudo, ou ao menos não suceder algum grande desastre foi apontado por todos que já que o tempo não dava lugar e se não perder mais tempo que o Ouvidor Geral acodise logo com aquella gente por terra e asim lho requererão, do que forçado veio ao outro dia dormir a Villa e de enfadado e receoso da volta da fortuna se partio da Villa quase só de madrugada e no Rio Tapirema que são nove legoas della achou ao segundo dia com alguns trinta e dous homens com os quais segue avante e por hir asim e os homens estarem desapropositados para o acompanharem por terra e seguirão somente estes e com elles chegou a nosa povoação do Parahiba a que os Moradores chamam Cidade de Nosa Senhora das Neves aos vinte e tres de Dezembro vespera da vespera de Natal aonde se começou logo o Ouvidor Geral a por em ordem e aviar para haver de partir ao dia seguinte com partirão caminho do Copaoba aonde teve por novas que estava todo o gentio com alguns Franceses fazendo-lhes o pao brasil para a carga das náos lha estrovar, porque esta era a maior guerra que lhe podia fazer, asim a huns como a outros donde / ainda que não fui testemunha de vista como em tudo athe aqui/ pellas relações do padres Balteran Lopes, e Manoel Correas a quem por ordem do padre reitor coube esta jornada direi também o que pasou.

Como o Ouvidor Geral partiu do Parahiba para o Capaoba

Capitulo 21º

Da cidade onde o Ouvidor Geral Martim Leitão deixou Pedro de Albuquerque por Capitão em quatro grandes jornadas se foi dormir a grande cerca de piena cama que he hum grande e principal pitiguar, aonde Duarte Gomes havia hido por mandado do Ouvidor Geral o Outubro atras e depois de lhe suceder muito bem ao recolher lhe mataram oito ou dez homens, que foi a maior perda que esta empresa do Parahiba teve depois de correr por Martim Leitão e que elle em estremo sentiu porque alem das guerras que todos estes annos lidava por sua pesoa sempre lhe mandava dar cada anno quatro e sinco saltos, asim pello Capitão João Tavares como por Duarte Gomes e outras pesoas com que os mais desatinavam e lhes fizeram largar mais de quarenta legoas a roda do Parahiba muita jornada foi infinito o trabalho principalmente da agua que não havia senão de muito roins propos branca e pouca e tão fadorenta que era necesario com uha mão tapar o nariz e com outro a beber desta cerca fizeram uha jornada direitos a serra do Copaoba pelo que inda de todo faltou a agoa que no Brasil só ao longo do mar há e no pelo sertão há muita falta e ese he o maior travalho que nelle se padece e os das calmas, porque quase todo o sertão é escampado e asim são dos maiores do mundo e quase a peor guerra delle e asim andaram todo aquelle dia desatinados por agua e em se pondo o sol chegarão a uha bem roim e pequena alagoa aonde o nosos gentio já todo estava metido que ese he o seu costume lavarense e asim não parecia mais que alguha lama que se chupava, ali se

dormia e por haver inteligencia das nosas espias haver junto Aldeas de inimigos se madrugou para dar nelles antes manhaãs e com asas trabalho por que se enganão as espias não chegaram a primeira senão em amanhecendo e por o noso gentio dar o seu hurro primeiro que entrase fugirão alguns, ainda que fez incredivel matança e tomaram setenta ou oitenta pesoas contra a vontade do Ouvidor que não queria senão que os matasem e mandou seguir o alcance por uha parte e outra e foi tao que durou mais de uha legoa athe outra grande cerca aonde foram repousar na qual tudo foram corpos mortos dos inimigos e dos nosos nenhuns salvo quatro ou sinco feridos , nesta grande cerca quis o noso gentio descançar e asim era necesario para o grande travalho do caminho que tinhão pasado, por acharem Rio de Água que então era o maior bem do mundo e he costume dos gentios sobre grandes matanças como estas fazer vinhos que chamão fazer suas festas, e asim quis o noso aqui fazer e repousaram aquelles dous dias ainda que logo sobre a agoa começou de haver briga por começarem de acodir inimigos anol-a defender ajodados dos sitios por que esta Capaoba aonde já estamos he toda grutas em altibaixos porque he outeiros athe as nuvens que athe so se sobe por elles com travalho, e abismos baixissimos cousa não vista em outra parte do Brasil, e estas tres ou quatro legoas destes outeiros contra o estillo das outras he singular terra, e os inimigos por sima delles corrião como gamos e se ajudavão muito e he muito boa terra que todos os vales destas trez legoas que ao mais serão em redondo são muito boas contra a regra geral da terra salão forte que dará muito bem tudo: havia por conta nesta Capaoba sinco sento Aldeas de Potiguares todas uhas pegadas as outras e avista seus seteiros era de infinidade de mantimentos e algodões. Ao outro dia pela manhaã começou a creçer a briga sobre a agoa ainda que os nosos tinhão ordem não focem senão juntos e a uha hora certa buscal-a e a dar de beber aos cavallos ao que sempre hião dez, doze arcabuzeiros de guarda, toda area crescerão muito os inimigos tinhão ja feito uha caiçara sobre ella da qua a noute a volta sahio o Ouvidor Geral fora de sua tenda a ver o que era por um negocio suceder ao seu braço porque se agasalhou forão do logar de baixo de uha arvore e vendo-o lá forão muitos, e dando ordem foçem Duarte Gomes com mais gente e esmanchassem o que haviam feito aquella noute e os inimigos antes que mais cresce-se com que os deitarão dali por nos começarem a frechar ja a gente ajuntou com o Braço que na tarde lhe lançasem uha sillada por sima tomando-se primeiro a travara briga em que bem levados lhe descem nas costas, e saindo a iso o Braço a tarde se alvoraçou o arraial dizendo estaria muito corpo de inimigos sobre a agoa sahindo fora o Ouvidor Geral mandando não sahise mais gente que aquella que elle nomease por que se começavão desordenar por da outra parte do Rio na ladeira andarem dez, ou doze nosos muito apertados que não ousavão de virar as costas e carregavão sobre elles e ainda que os hião levando dos nosos, os mais delles vinhão de lá afrechados e feridos de espingarda, que também os inimigos tiravão muito boas; estando o Ouvidor Geral vendo isto e esperando como arrebentavão com asillada do Braço de Peixe chegou recado seu que era em outra dos inimigos que lhe acodesem e isto a tempo que tinha ja o Ouvidor Geral mandado que fossem sete ou oito de cavallo que ainda em aquellas fraudas se podião ajudar a detellos e recolher os nosos e os que asim mandamos forão João Queixada, Antonio de Albuquerque, Diogo de Abreu e outros com Francisco Pereira que só com Simão Tavares pasarão alem e deitaram fora os inimigos e recolherão os nosos com hum já morto e outros quase e muitos feridos principalmente das espingardas, e Francisco Pereira muito peor que a fez a que como tão bom cavalleiro como elle he, a João Tavares foi recolher o Braço de Peixe bem neste tempo a não haver grande recado na cabeça serto se me dava algum grande desbarate estas tardes seguindo-se a gente alvoroçou pra fugir com desanimo ja por salteados de medo e asombrados de se verem sento e quarenta homens com quinhentos frecheiros de noso gentio tão longe aonde nunca senhou de hir branco em terras que ninguem sabia, e este foi milhor remedio e causa de não fugirem que por respeito do não suceso que nos mezes atras havia suçedido a Duarte Gomes andava gente e muito mais o gentio mui desmaiados e mais com se verem em tal terra em tanta multidão de inimigos e asim começou de entrar hum medo espantoso em todos que não havia valer, e a noite foi avisado o Ouvidor Geral em segredo por João Tavares estavão vinte e sinco ou trinta homens ajuramentados, tudo gente muito honrada para fugirem, os quais aqui/ por suas honras não nomeio, nisto acodio o Ouvidor Geral com os juntar e lhe fazer a todos uha fala de mil esforços e como para o outro dia tinhão das caixas do gentio ordenado muitos paveses de tras dos quaes hião muito seguros e escolheo os melhores arcabuzeiros para que se não perdese tiro, e repartio a gente melhor principalmente os desta conjuração espalhou todos dando carga as cabeças comando outros para sua guarda com que lhes desfez a roda e se asentou se de pe pella manhaã no inimigo com boa ordem que a este tempo nos tinhão com tres caiçaras á vista cercados e são tantos que havia homem que contava por aquellas ladeiras que atro e sinco mil fogos com o que e verem mortos e feridos que nas guerras do Brasil se não sofre não havia paciencia nem quem ousase faltar, pregou de noite o noso padre Baltezar Lopes pella lingua ao gentio e mamelucos dos quaes nasce o mal e todos vigiarão melhor que nunca de que se não podem escrever as particularidades, que viremos a danar e algum basta que toda a noite andou o Ouvidor Geral de porta em porta nas vigias aos fazer callar que era vergonha o que lhes o medo fazia dizer e fazer. Das caixas que se acharão se fizerão dez paveses a todos com cairo espinho e como melhor poderão com que vendo se pella manhaã bem ordenados se asinou a gente e forão buscar os inimigos deixando queimado tudo, como sempre fizemos a todas as cercas e Aldeas que tomamos os quaes estavão a vista entre tranqueiras que elles armarão nos peores pasos uhas diante das outras, que muito poucos bastavão em tais pasos se Deus não nos ajudava. Mas posto em ordem o noso exercito comesou a marchar para os inimigos e por na primeira cascara do Rio haver detenção pella resistencia que elles fazião se pasou la o Ouvidor Geral e dando-lhes muita presa como quem entendia que niso estava a importancia e não em coidarem e com sua chegada se levou sem nos ferirem pasou e com a mesma furia arremeteram a segunda que era entulhada de terra em huma valle muito mais forte, e asim foi necesario chegar o Ouvidor, e por a gente nomeiada nos postos e lançando uha boa manga por um outeiro acima com que os asombrou muito mais, e sentindo grande volta no baixo vendo os inimigos trez mangas da nosa gente se asombrarão de todo que hirem na terceira cerca pararão ainda que não sobiamos a ella senão de pes e mãos e a senão terem lançado as mangas sempre custava mais que foi gentil ordem do Ouvidor Geral e grande avizo que neste tempo trabalhou infinito athe cançar trez cavallos porque queria ver e estar presente em toda a parte e asim nos ajudou Deus e os deitamos seguindo-os mais de meia legoa hindo-os sempre picando com alguns mortos athe chegarem a sua Aldea e onde fizerão grande resistencia fazendo alguhas voltas tudo por salvarem as mulheres e filhos que ali tinhão com que o negocio esteve empeso porque trez ou quatro vezes os levarão e nos tornarão a levar em ondas athe que chegou o corpo da nosa gente com o Ouvidor Geral e carregando rijo os levarão de todo e não veio a tal tempo sempre a nosa vanguarda pasara mal daqui lhe fomos aquele dia destroindo trez ou quatro Aldeas athe nos hirmos aposentar em hum alto maz tudo era já decidido e dali viamos trinta e tantas a roda em menos de uha legoa que todos começarão de andar, aqui repousamos aquelle dia e outro fornecendo-nos de mantimentos.

Como destroida a Capaoba foram ao Tujucupapo, aonde tiverão a maior briga de todas

Capítulo 22º

Daqui se partio em busca do Tujucupapo que o Anno atras nos fugira, e caminhando dous dias asim virando abaixo ao mar ao terceiro, pella manhan parecendo-lhe não haveria inimigos deu a vanguarda em uha mui poderoza cerca donde por aquelles valles começou a retumbar a tom das arcabuzadas que pella fineza da polvora melhor do que a nosa e o amiudar dos tiros entenderão ser corpo de gente com socorro de Franceses que todos receavam e trazião diante dos olhos e asim era que o não vindos das náos, a isto não havia acodir por o caminho de nenhuha maneira dar lugar senão hirem uns tras outros como se acostumava a por mais presa que se derão por na dianteira sentirem grande volta não havia remedio, e também por aparecerem por outras partes a roda inimigos temerem outra tal a retaguarda que trazia Mice Hipolito, Pedro Lopes e asim lhe mandou o Ouvidor Geral que tocasem o seus a tambores e trombetas com que se tudo alvoroçou: indo nisto vierão dar recado ao Ouvidor Geral acodise a vanguarda que estava desbaratada e para dar volta e que na cerca havia Franceses com bandeira e tambor com muitos Pitiguares e não tendo duvida que muitos se souberão a terra com tal nova virarão as costas mas estavão já por ella tão adentro que não hera pocivel e muito peor o noso gentio que estava todo tão cortadisimo de medo que se apinhavam com nosco, e todo houvera de fogir e chegando o Ouvidor Geral a cerca achou a bandeira do Capitão João Tavares que o fez aqui tão animosamente como sempre sento que foi espantosa, e susteve todo apeso, porque a sua ilharga tinhão morto tres homens e todos os mais forão tintas de seu sangue e alguns com piadosas feridas de pelouros de cadea que as tinhão escaladas e com tudo sempre sustentou a sua bandeira pegado na cerca em uha fronteira na qual elle e o sargento Diogo Avias espantoso soldado que nesta jornada houve quatorze frechadas, cada um tinha ganhado sua seteira ou bombardeira aos inimigos tendo as espadas por ellas metidas apesar de lhes darem com muitos paos, e pedras e fogo e outras muitas cousas que lhe lançavam por sima que sempre os matarão e ao Alferes se Deus ali lhe não deparava tres ou quatro troncos de arvores em cada hum dos quaes se empezavam um e dous, os quaes as arcabuzadas não deixavam aos inimigos subir asima e cobriam os troncos aos sobre ditos que todos os mais já não estavam para nada e tudo quaze desbaratado, e ainda estes poucos que amparados dos troncos e arvores ou cercados com o chão se defendiam amparando a rodeleiros as vezes hum e dous arcabuzeiros, que era pratica antiga do Ouvidor Geral que aos não misturarem asim não pelejar já nuca arcabuzeiro com a multidão das frechas, e desta maneira e com esta ordem animosamente ainda que com immenso trabalho e perigo da vida entretinhão aos inimigos e athe o noso padre Baltezar Lopes me confeçou se dera por morto e com uha rodela da India cobrira a si e a outros cozidos em uha vigueira da terra , foi este hum travalhoso paso e o mais arriscado e perigoso termo que estas guerras do Parahiba, e nem sei se do Brasil, nunca tiverão porque rialmente para consigo se não foi o Ouvidor Geral que o não mostrava no rosto todos neste paso se deram por concluidos.

Hera lastimosa cousa ver o desbarate que iha em todos e alguns cavallos por ahi frechados e arcabuzados sem haver quem os desviase nem ainda tivese acordo para usar das alcancias que havia pedaço o Ouvidor Geral havia mandado aos dianteiros por Diogo Nunes mercador e pasado o conflito por ahi se acharão depois perdidas e não sahirão os inimigos da cerca aos que asim estavão forão pellos ditos arcabuzeiros que sempre lhes tiravão em roda viva os impedirem e também o Capitão Joao Tavares que tendo arvorada a sua bandeira na porta fronteira com quatro ou sinco que se com elle achavão cobertos de suas adargas e no dellas e cozidos com o chão e cercados dos inimigos tinhão metidas as espadas pellas seteiras ou buracos com que os tapavão e se defendião já com dezesperação por que lhes não convinha bulir-se nem afastarem-se para nenhua parte, e prometeo Deus também a si que a sahirem em tal tempo os inimigos acabava-se tudo, e elle por sua misericordia ordenou socorrer deste tempo ao Ouvidor Geral que embaraçado com o caminho e noso gentio, e brancos que remavam athe este tempo lhe não foi pocivel chegar por mais que o procurou havia mister mil olhos e linguas para notas e declaras este paso em que chegou Martim Leitão que apiando-se e o que com elle hião e começando de animar a todos quis lançar uha manga por sima por hum espeso mato de roins espinhos que os nosos Indios começarão a abrir, mas não haviam quem se atrevese a bolir consigo ainda que hum e hum os animava e chamava por seus nomes com palavras de honra que alguns montavam bem pouco neste labirinto ou confusão porque ninguem com os gritos dos negros inimigos e nosos estrondo das espingardas e de muitos feridos que a cada paso cahião se entendia nem ouvia o que se ordenava nem mandava antes parecia declinarem as cousas a se acabar tudo: e depois de muito bradar e avançar o Ouvidor por ordens e cousas que todos bem mal compriam apesar de grandes chuveiros e nuvens de frechas e pelouros que dos inimigos nunca se parão lançando alguns poucos consigo que ainda se forão diminuindo e ganhando como podiam que a verdade não havia romper, e era quasi temeridade a que o Ouvidor Geral cometia, maz della nos resultou o remedio e asim chegando com travalho com sinco ou seis que por vergonha o não desempariaram pella parte de baixo e maior mato, a serca que por aquelle lançou confiados os inimigos na espesura do mato era mui baixa e entulhada de terra e palma começarão a desfazer ainda que os inimigos logo ali acodirão de dentro com uha espingarda e muitas frechas, com que feriram o meirinho da aliçada Heitor Fernandes e outros contudo Martim Leitão foi o primeiro que chegou e rompeu a cerca cortando com a espada os sipoós e cairo com que atan a madeira e fazendo buraco por onde se meteo; aqui no afastar dos paos ao entrar deram de dentro ao Ouvidor Geral com hum pao feitiço na mão direita com que travalhava porque coberto com adarga tinha a espada na esquerda, que lhe arrebentou da pancada o sangue pellas unhas que com a indignação desta ferida o bem coberto com adarga ante os peitos se lançou dentro com Manoel da Costa que o acompanhava fazendo porta aos outros que o seguirão e entraram devagar que neste tempo elle estava dentro de todo servido e tomando as mãos porque vendo os inimigos sós dous homens dentro derribaram de duas roins frechadas a Manoel da Costa, que cuidando serem pelouros e deitaram a carapuça darmas fora da cabeça ao Ouvidor Geral com duas frechadas ainda que lhe fez Deus bem ficar pendurado pelo rebuço de diante e com muitas frechas pregadas na adarga e pellas pernas e braços que o não feriram por hir bem armado pos o joelho no chão para se desembaraçar das frechas e cobrir a cabeça ao que acodindo golpe de gentio para tomarem as mãos e sem falta lhe valeo aqui não no quererem matar pello conhecerem e desejarem leval-o vivo para testemunha da sua victoria triunfo e gloria de sua valentia e nome e elle vendo-se na ultima transe da vida se levantou furiosamente e chigando-se a Manoel da Costa seu amigo e natural de pontes de lima para o defender os fez afastar por verem tambem a ese tempo entrar já outros dos quaes o primeiro foi o Alcaide de Pernambuco Bartholameu Alverez feitura delle Martim Leitão que bem lhe pagou ali e o ajudou como mui valente e esforçado soldado que he de Africa e outras partes que andou o Ouvidor Geral coberto de frechas e dos inimigos que chigaram a lhe dar a mão tente que andou agiolhou em uha coxa de que despos manquejou muitas vezes com a boa ajuda do Alcaide ambos tendo hum com o outro levarão os inimigos e os forão enxotando que com verem carregavam já por um terço que vinha mais alto da outra parte da cerca com uha manga de alguns arcabuzes que o Ouvidor ordenou logo ao apear do cavallo e hirem entrando apos o Alcaide ourtos forão os inimigos despejando de todo e os inimigos da fronteira onde pelejava João Tavares também afrouxarão logo sentindo já os nosos da parte onde pelejava Martim Leitão dentro na cerca e onde logo entrarão todos com a temeridade que asim se chamarão os nosos ou boaventura do Ouvidor Geral que soube buscar em tal presa e tempo aquella parte por onde entrou com o que os inimigos desatinaram de todo, quando dentro o não puderão tomar as mãos como pretendiam ao tempo que conhecerão pellas armas e pella cutilada que tem na cabeça pella qual entre elles he hum famoso o nome do Capitão da Cutilada e elle reconfeçou depois em conversação que fora aquella a maior presa em que se nunca cuidou ver porque ver-se entre tanto gentios, e arremeterem a profia a elle com tantos alaridos e vesagens, e lembrar-se como deixava fora tudo asolado bastava para não ter pes nem mãos, e a isto dis elle que nas maiores presas dobra Deus o acordo e animo e faz maiores merces como a que lhe aconteceo, e ainda dos nossos correo maior perigo porque não deixavam depois delle estar dentro de tirar de maneira que da fumaça dos que fogiam de dentro e dos miutos tiros de fora de que alguns pasavam a cerca e os mais dando pellas casas palhoças dos negros era tanto o fumo da palha por dentro da cerca e Aldea que não viam huns aos outros e com neste paso o Ouvidor e o seu Alcaide somente andavam dentro, e Manoel da Costa com as costas huns nos outros se chigavam as casas dando lugar ao gentio despejar o que elles faziam com toda a furia por todas as partes e para os trez animosos companheiros escaparem do perigo das nosas espingardas de fora mandou elle Ouvidor Geral ao Alcaide gritase victoria, com que se acabou de arrasar tudo, que não alegria nem nenhua igual a esta palavra em taes presas asim sento entravão os nosos huns por uha parte outros por outra, que os Franceses ao entrar do Ouvidor Geral fugirão todos e os nosos ninguem tratava senão de se abraçarem huns aos outros com festas e lagrimas nos olhos da merce que lhe Deus fazia os quaes seguirão pouco os inimigos porque pasada a furia da peleja todos tinhão que curar e fazer consigo asas porque se acharão quarenta e sete feridos no arraial e tres mortos, na cura dos quaes andou provendo o Ouvidor Geral com muita vigilancia e caridade porque para tudo iha apercebido e athe as tres horas que mandou niso com o surgião não comeo nem bebeo sendo lhe bem necesario porque toda a noute antes não dormira e toda a manhan trabalhou muito principalmente das nove horas que se começou abriga que durou mais de duas horas na qual morreu infinidade de gentio que elles levarão as costas como costumam fazer porque os não achamos; aqui também morreu o Alferes Frances que na cerca ficou estirado com a sua bandeira e tambem que hoje esta no Parahiba foi este hum honrado e famoso feito darma em que os negros inimigos appelidados dos desbarates que lhe tinhamos dado na serra meteram o ultimo de sua potencia em nos tomarem já cansados e com algun feridos e mortos, como atraz digo, e já gastados de polvora e mantimentos e tambem confiados nas outras victorias que não topariamos tamanha aventura que fora muito maior desaventura ese socorro que chigou aos inimigos e deu neses poucos da retaguarda que entrados os dianteiros e mais gente na cerca estavão ainda fora e isto acodirão todos deixando os feridos como puderão e foi espantosa presa e afronta, porque não acabarão de todo defender de vista os que levavam diante quando chegou este socorro por detras que avir mais sedo um pouco. Espero ou antes de entrarmos a cerca não houvera nenhum remedio mas Deus he bom e sempre ajuda os seus e mais as causas que se fazem sem respeito nem interesse como estas guerras do Ouvidor Geral que so niso dizião punham toda a sua esperança. que não havia Deus de faltar a tanto serviço seo a del Rei e bem de seus vasallos com se seguia a todos os daquellas Capitanias do desbarate destes Pitiguares em que noso Senhor milagrosamente sem gente com tao pouco custo sempre ajudou e guardou principalmente neste dia e presa dos inimigos que desbarataram e da sillada que enxotados os dianteiros arrebentou com grandes alaridos e gritos por detras que foi cousa medonha e mais para tal tempo maz com a resposta que lhe demos que já mais de animos victoriosos que de obra porque não estava a gente para nada fogiram como vierão e asim o tinhão feito seus companheiros como.

Heram tantas e tais as feridas de pelouros de cadeia com que os Franceses que com os negros estavam na serca tirarão que todo o restante do dia se gastou na serca dos feridos e por não haver já mais que trez botijas de polvora e necesario trazer nove feridos daquelles em redes que não podiam vir nem terse em besta fora muitos que vinhão a cavallo que todos andavam a profia de os trazerem nos seus no remedio dos feridos e de os trazer foi o Ouvidor vigilantisimo e mui caridoso e asim por estes respeitos e inconvenientes que havia a se porseguir mais alguha que o Ouvidor Geral determinava ser infinita se acertou queimase o pao que se ali achou e voltasem dali por outro caminho, e todos inda que victoriosos foi a noute enfadonha porque nos viamos mortos, feridos e desbaratados e com pouca polvora ainda que isto da polvora não sabião tres pesoas do arraial e tão longe de casa entre tantos inimigos e com sete náos francesas entre elles no porto da Bahia da Treição que lhe darião o sento e duzentos arcabuzeiros cada vez que quiserem e mais agora que ião feridos e magoados da perda do seu alferes que era valente homem e da bandeira e tambro, basta todos tinhão bem cuidar só o Ouvidor Geral era o que festejava e que não consentia malenconia que dizia elle ser traça que mais gasta o animos fortes que tudo e os consome, e asim com muito rijo visitava e corria a todos, e nos ordenou para partir pela manhan cedo como fizemos em boa ordem a cerca encomendado-nos todos muito a Deus e ao Anjo São Gabriel e a Bemaventurada Nosa Senhora das Neves invocação do Parahiba aonde o Ouvidor Geral prometeu um frontal de Damasco e cortina de linho que lhe logo mandou de Pernambuco, e asim deixando o Copaoba destroida que então era a gadelha e força e sustancia dos Pitiguares, voltamos buscando o caminho do Parahiba com asas trabalho guiados pelo sol porque ninguem sabia onde estava marchamos o primeiro dia com grandisimos trabalhos principalmente do Ouvidor Geral por respeito dos muitos doentes e feridos, o puxarem então todos mais por elle e asim nos agasalhamos ao longo de hum veleiro pequeno aquella primeira noite da jornada como cada hum podia.

Da vinda e tomada do Ouvidor Geral e dos nosos da Copoaba

Capitulo 23º

No segundo dia de caminho marchado em amanhecendo nos salteou o gentio por duas partes a pavor como iamos mas rebatendo-os fugiram com seu dano, e nenhum noso. Na noite seguinte por sima da Bahia da Treição estando aposentados em uha alagoa levantando-se o Ouvidor Geral no segundo quarto/ como costumava/ a correr as vigias achou que todas dormiam senão as dos Espanhoes e acordados todos se foi a sentar nas redes do padre Baltezar Lopes que estava deitado estando praticando com elle por pasarem o enfadamento de tão roins noutes sentirão rumor do gentio e chamando a iso os vizinhos ouviram disparar um pedaço contra o mar uha grande arcabuzada, e logo outra, e outra e cento que alvoroçou muito todo o arraial vendo-se em tal terra que ainda não sabiao onde estavão, o que depois de Deus foi cousa de o noso gentio não fugir como logo em tais pressa costuma, e tão carregados de doentes sem saber o caminho basta grandes termos houve aqui em que se asas mostrou o Ouvidor Geral fazendo pregarão noso gentio esforçando os brancos e que morresem como homens, que nesta determinação hera Deus quanto mais que não havia para que temerem a belitragem Francesa e em terra donde cada hum delles era para quatro pois o nosos gentio bem vião como estava pois que sempre levarão a melhor dos Pitiguares não havia que receiar que aquellas e não os próprios que lhe sempre fogirão aos quais em suas casas e sitios, e fortes haviam desbaratado pelo que elle lhes segurava a victoria e que aquillo que ouvirão não era mais que arroncar para lhes fazer fogir o gentio e pollos em desbarate e que então e não em outra conjunção o seguiram, pelo que elle tomava em si a retaguarda e o segurava com a ajuda de Deus, e ordenado tudo e repartidos os doentes esperavam pela manhan em uha resoada cerca de rama com que se cercarão todos com muitos cantares e festas e era muito para ver como as curas asentavam a trabalhar e o gosto com que o fazião, no que amanheceu um fermoso dia sendo os de antes chuvosos e com muito boa ordem sahirão dali ficando Martim Leitão na retaguarda de traz de todos com asento de pasar e outros principaes de noso gentio que pelo haverem athe o Braço de Peixe mandou lá ficar os filhos e asim viemos as campinas de sobre o Rio Mangoape, com que em todos se dobrou o contentamento com muita festa já quaze noute nos recolhemo sa agua do camello donde a duas jornadas chegamos ao Parahiba aonde todos foram recebidos como merecido: as novas desta guerra foram muito grandes por toda parte e foi ella muito para iso que se ousarem hir os brancos onde forão hera espanto quanto mais tão poucos e estando os Pitiguares tão socorridos dos Franceses de que tinhão entre si tantas náos, contra as quais logo naquella semana se aviou o Ouvidor Geral para por mar hir a Bahia da Treição dar nellas, que a fama desta guerra e novas que os seus della trouxeram e do pao todo ser queimado se forão lgo todas desaviadas esta foi a maior e mais arriscada e perigosa guerra e de mais importancia que nunca se la deu e mais por se dar logo sobre o salto que os Franceses fizeram na Aldea do asento de pasar, e sobre o desbarate de Duarte Gomes, e informados também os Franceses dos captivos que tomarão em este salto da determinação que se lhes dar por mar e terra como já tinhão visto da terra aonde e como nunca coidaram que asim os segravam os feiticeiros nunca hirem cavallos nem branco ao Copaoba tendo o do mar a porta, por o Ouvidor Geral ter mandado vir os caravellões com que de noute a remos os determinava de saltar por já hirem faltando as moções para náos grandes virem de Pernambuco ao Parahiba se acolheram os Franceses com as náos vazias com que os nosos de todo ficarão seguros e contentes crendo não tornariam mais pois havião quatro annos que já a cousa corria de tal maneira que se tornarião sempre desbaratados ou de vazio, e asim se tem sem falta que faltando os Franceses se entregarão os Pitiguares pois não tem nenhum remedio e em toda a parte amiudo eram salteados ou se pasariam todos alem do Rio Grande como já muitos tinhão feito que he o que nos arma e com a certeza das náos Francesas serem hidas despedio a gente toda o Ouvidor Geral ficando somente com os seus officiaes e Pedro do Albuquerque, e Francisco Pereira que ainda estava mao das feridas.

Como despedida a gente o Ouvidor Geral fez o forte de São Sebastião

Capitulo ultimo

Despedida a gente no fim do mes de Janeiro de oitenta e sete se foi o Ouvidor Geral ao Rio Tiboré duas legoas acima da cidade ao longo do Parahiba fazer um forte para o engenho do Açúcar del Rei que elle lá tinha começado e para defender a Aldea do asento de pasar e mais fronteiras com o qual se segurava tudo e se povoaria a varzea do Parahiba e asim o ordenou e fez muito em breve e ficava o forte por causa do engenho porque este foi o estilo do Brasil hir asim ganhando a terra aos inimigos a quem o forte mais vizinho ficava em padastro e os nosos povoadores e moradores por valhacouto que asim se vão estendendo seguros e agasalhavam mais a sua vontade: pellas quaes rezões se começou este forte e casa de engenho del Rei noso Senhor com tanto fervor de trabalho do gentio que todos andavam na obra aos dias esmorecidos sobre o Ouvidor Geral por haver vindo nova do Reino que vinha quem lhe sucedese ao que o noso gentio não tinha paciencia e chorando diziam que não queriam outro Ouvidor mas nem isto nem as roins novas que no Reino delle corriam mandadas de ca por seus inimigos tudo de enveja lhe estrovava deixar de trabalhar e continuar na obra com que a fizera para si e seus filhos e asim se acabou este forte que por asentar fazel-o dia de São Sebastião vindo da serra de caminho lhe puseram o seu nome que se chama hoje o forte de São Sebastião fose de cem palmos de vão de muito groças ripas muito juntas e forradas de entulho de sinco palmos de largo e de altura de nove onde pode pelejar a gente com muro de fora que he mais de vinte e dous em alto de taipa dobrada de mão muito forte e boa, e do alto vem o teto e telhado cobrindo o andaime e cazas que se fizeram a roda para gasalhado da gente muito boas com duas grandes guritas em revés sobradadas com sua artilharia a qual o Ouvidor Geral alem da del Rei juntou quatro casas caens de sagres que haviam tomado aos Franceses, com o que e com lhe ficar um portigo dentro da rede do asento de pasar cuja Aldea cercada e forte também ali sitiou ficou tudo muito seguro por a nosa artilharia varejar duas partes da cerca do gentio e feita também uha torra no meio do forte com grandes portas para o Tibere com grandes ferrolhos e cadeados e abertos os caminhos e tudo acabado como se Martim Leitão Ouvidor Geral ouvera ali de viver toda a sua vida se partio na segunda semana de Fevreiro para Pernambuco já achando de não sei quantas febres que com seu fervor em saudavel espirito havia pasado em pe e chegando a casa se não levantou mas de uha cama os tres mezes seguintes e não foi muito com tantas calmas, chuvas, vigias, trabalhos e guerras e sobre iso em lugar de descansar se pos a travalhar mais que jornaleiro e as roins agoas do Copaoba que aos que levarão vinho que elle não bebe, empecerão e não se pousar em nada porque elle he muito de não dizer e de fazer senão senhor vamos e façamos e asim lhe fez duas Deus merce como no mais pasar somente com maleitas, o pelo que vi e sei digo que mais lhe sinto a ma praga do Rei no entanto e tão bons serviços que todos os trabalhos de ca, porque ja hoje importa de renda a el Rei cada anno o Parahiba quarenta mil cruzados so do contrato do pao do Brasil e asim lhe houve dizer muitas vezes que os trabalhos pelo serviço de Deus e del Rei eram seus verdadeiros gostos maz que os maos galardões e ingratidões secavam os apos não sera muito acontecer isto asim pois que neste Reino o hospital he o verdadeiro registo dos homens de merecimento e mais deste que sempre foi tão envejado, e com isto acabarei aqui as guerras do Parahiba com o seu dono e praza a Deus daqui em diante suceda asim o mais asim ao conquistador como ao Parahiba que já hoje tem sincoenta moradores casados Potiguares e outros tantos solteiros postos todos lá a custa de Martim Leitão como também o forão os fortes que fez porque em tudo isto se não gastou hum rial da fazenda de sua Magestade como claramente se pode ver e consta dos livros d'Alfandega de Pernambuco segundo lhe ouvi muitas vezes dizer, e o sei, pelo que podemos sem falta afirmar que Martim Leitão deixou a Capitania do Parahiba conquistada com fortaleza e goarnição e acompanhada e povoada de tanto numero de gentio como para ella desceu que o Ouvidor Geral souve grangear e adquirir e conservar com o que fica com mais gentio, e asim mais segura que todas as Capitanias do Brasil porque o verdadeiro sangue e sustança de se povoar e sustentar o Brasil he com o mesmo gentio da terra ganhando por amizade que sem elle não nos valeremos nunca contra os outros e mais na Capitania no Parahiba situada entre os Pitiguares que he o maior e mais guerreiro e pratico gentio do Brasil tanto que so os Pitiguares são muito mais que todo o gentio que há do Parahiba a São vicente, e asim mui inteiros e unidos e conformes contra nós pelo que aquella Capitania depende hoje e consiste na conservacão daquelle noso gentio que ao redor della asentou e vive que sem falta he muito do mestiço aos brancos e os ajuda muito em tudo fazendo-lhes suas casas e mantimentos e finalmente servindo-os como captivos, agora faltando o Ouvidor Geral Martim Leitão que tudo isto criou de novo e que elles tinhão por Pay asim no Parahiba como em todo o Brasil temo lhe façam alguns agravos como já vimos em outras Capitanias de que por seda alguha grande desaventura que somente daqui segundo as cousas hoje estão nella podem suceder maz que verá Deus os conserve nesta paz e amor com que ali plantarão para que em tudo cresça de bem em melhor e premanesa como com vem a seu serviço augmento quistação e proveito seu e das mais Capitanias que como pelo discurso desta relação vimos da conservação desta dependem, se as ocupações e obediencia me deram lugar fora muito mais largo, pois havia tanta materia, maz dira tudo com o estilo; não tratei aqui de invenções curiosas nem de elegancia as de palavras que costumam dar lustro a cousas de pouco simpor que não he esta minha profição nem o intento que neste particular tive antes me pareceo milhor fazer esta relação e chan singela e sucintamente por pura obediencia como na verdade o fiz por esta verzão me não estender tão copiosamente tratar de todas as obras e bom feitos de lecensiado Martim Leitão que o todo e a principal figura este meu compendio porque as muitas da justiça, bom governo, analis, e transes de guerra e victorias que a tanto risco de sua pesoa a ganhou a publicação, basta-lhe a elle nesta parte ter por pregoeira de suas cousas toda a gente pobre do Brasil, de quem elle especialmente foi amigo os quais com tanto proveito e segurança se lograr agora juntamente com a fazenda del Rei noso senhor dos trabalhos de Martim Leitão e estes lhe escusarão os engenhos sutis e raras abenidades que primeiro esgotariam que predisem dar sima a tanta causa so isto direi que se o mao que nestas parte lhe tem feito a inveja se ocupara com asoalhar no reino suas obras como o fazem publicado delle em o inganar de muitas que claramente nelle não a fora o mais ditoso homem do mundo.

Tenho acabado e cumprido com o preceito da obediencia. Vosa Paternidade me perdoe não lhe dar aqui contas das curiosidades desta terra dos animais muitos e diversos e tão diferentes dos da Europa como o são as pacas que respondem as marrons do reino, tutus, conforte cazca por sima com que se cobre todos e tem a carne singular como do coelho a que os Portugueses chamam cavalleiros armados nem dos bugios saguins em especial os amarelos que somente há no Rio de Janeiro por morrerem com o frio indo para Portugal nunca se la verão nem das diversas castas de papagaios, toins, e araras grandes, antas, veados, tigris, pequenos e outros mil sortes e varias especies de animaes nem dos muitos generos de cobra das quais as tiboas são tamanhas que engolem um bezerro inteiro e se virão dellas de noventa palmos de comprido.